Uma parada de ônibus, um BRT lotado, uma fila nos terminais integrados, na cozinha de casa, nos jardins dos condomínios, no consultório… muitas são as histórias que surgem, os diálogos que ouvimos e há sempre aquele mais falante e mais opinioso.

A linguagem do povo se faz entendida, não importa como se comporte o falante: se fala bonito ou se escorrega nos verbetes. Entretanto, mesmo que consigamos nos comunicar, seja qual for o modo como falamos, é importante aprender um pouco sobre o lugar certo de cada palavra… Mas não precisa ser complicado. Pode ser divertido. Vamos testar?

Memórias de um Recife melhor que ele mesmo

Episódio 1: O abscesso obsessor…

Zefinha… uma mulher batalhadora, zelosa, trabalhava como empregada doméstica. Há muitos anos cuidando da mesma casa, era como se fosse da família. Buscando uma aproximação com a religião, escolheu a doutrina espírita para aquietar as agruras de sua alma. Duas a três vezes por semana, Zefinha pedia para sair um pouco mais cedo para ir às sessões do centro espírita que passou a frequentar.

Certo dia, Zefinha chegou agoniada e resolveu conversar com a sua patroa.

Zefinha: – Dona Marta, eu queria pedir a senhora uma coisa. Na consulta de hoje lá no centro, na hora de tomar o passe, o moço lá descobriu que eu tenho um ‘abscesso na cabeça’… Eu disse, oxe, como é isso, se eu num sinto nada? N’era pra doer, não? Mas ele explicou lá. Eu num entendi muito bem, não. Acho que deve ser um abscesso desse que segue a gente, que fica marcando, atrasando a vida…

Dona Marta: – Oh, Zefa, deve ser um obsessor, não?

Zefinha: – Vixe, deve ser isso, né, Dona Marta: um abscesso obsessor?

Refletindo sobre o lugar certo de cada palavra: o que para Zefinha era um abscesso, na verdade, se tratava de um espírito obsessor, conforme a doutrina espírita. Mas podemos entender que abscesso é, de fato, algo doloroso, perturbador, incômodo, tal qual um obsessor. Ainda bem que se pode sempre se livrar dos dois, não é?

Outras correções: “não sinto nada”, ao invés de “num sinto nada”; “Não era” o invés de “N’era”; “Eu não entendi” ao invés de “Eu num entendi”.

Episódio 2: A devassidão fiduciária…

Num bate-papo à espera do transporte público, duas senhoras conversam acerca do trabalho, dias de folga, como seria a ceia de ano novo, quando uma delas se refere ao novo valor do salário mínimo.

– O salário mínimo vai aumentar, né?

-É. A patroa vai chiar. Quando ela tiver que pagar todo mundo… ihh… vai ficar espumando.

-Mas tu recebes por comissão?

-Tenho comissão, aí é que vai ser pior. Mas também… esse salário é devasso.

-[Risos] Devasso, por quê?

-Porque desconta aqui, desconta ali, desconta tudo, já vem todo devassado…

-Ah, é mesmo!

-Fazer o quê? Pelo menos vai ter um pouquinho a mais pra devassarem, né?

Refletindo sobre o lugar certo de cada palavra: certamente que o salário se encontra defasado. Talvez por isso a nossa condição de compra seja o tempo todo devassada e nós nos sintamos uns devassos, gastando além do mínimo.

Episódio 3: ‘Distraindo’ o dente…

E na estação do BRT…

Moça 1: Menina, cadê tu, hein? Te esperei que só a bobônica sexta-feira e nada de tu!

Moça 2: Mulé, e eu num fui pra dentista! Tive que distrair os dente, num fui pra canto nenhum. Passei o final de semana arriada, toda amoquecada, cheia de dor, que a dentista era uma cavala, distraiu logo dois, já visse?

Refletindo sobre o lugar certo de cada palavra: certamente que o dentista não conta piadas, não canta uma canção de ninar, não faz piruetas. Aliás, nada nos distrai quando estamos em um consultório odontológico, não é mesmo? Só nos resta rezar para que o dentista tenha uma mão leve e nos extraia aquele dente incômodo que nos impedia de nos distrairmos.

Outras correções: “mulher” ao invés de “mulé”; “eu não fui para a dentista”, ao invés de “eu num fui pra dentista”; “os dentes” o invés de “os dente”; “Não fui para canto nenhum” ao invés de “Num fui pra canto nenhum”. Na expressão “toda amoquecada”, leia-se “acabrunhada, amofinada, agoniada”. Na expressão “a dentista era uma cavala”, entenda-se: “tinha mão pesada, era grosseira”. Na expressão “Te esperei que só bobônica (linguagem característica do pernambucano)”, leia-se “Te esperei muito”.

 

Por Ediane Souza

Em “Divagando”, Ediane Souza vaga por suas memórias e por memórias coletivas do recifense, do pernambucano. 

 

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