Eu sou…

Eu sou Olga Benário, nas câmaras de gases veladas da nossa ditadura. Mas também tenho outros nomes, permita-me dizer. Sou Dandara dos Palmares, gritando por liberdade, ou Anastáciacalando o grito mudo. Sou Lou SaloméSimone de Beuvoirabrindo caminho para os passos femininos nas estradas marcadas por galochas e coturnos, de passadas nada amenas. E nos campos de chuteiras pontiagudas, sou a Marta, a melhor do mundo, cinco vezes consecutivas, apenas.

Velha infância: quando pipa era brinquedo e criança era criança

Às vezes sou Tarsila do Amaral, desfilando o meu Abaporu. Quando quero ser Raquel de Queiroz, dou as mãos as minhas três Marias. Quando sou Lya Luft, me embriago numa canção de plenitude. Se sou Luzilá Gonçalves, vou muito além do corpo. Se sou Patrícia Galvão, acabo provocando a ira dos militares, mas, para os que me têm intimidade, sou apenas Pagu.

Quando sou Florbela Espancaminh’alma, de sonhar-te, anda perdida e meus olhos cegam de te ver. Mas, basta incorporar Carmem Miranda e logo me lanço num tico-tico no fubá, remexo minhas cadeiras, bailo a noite inteira, boto até gringo para rebolar. Calma, ouça, me pede a Maysa que mora em mim, mas não lhe dou ouvidos, prefiro dar um alô ao marciano, quando encarno Elis a cantar. O que será? Pergunta a minha Dalva de Oliveira. Acho que chegou a hora da estrela, percebe a minha Clarice Lispector, e me ponho a divagar.

Que Ariano Suassuna nos salve, amém!

Vou botar aquele maiô cavado, como nos meus tempos de Leila Diniz, e libertar o pintassilgo que há em minha Donna Tartt, afinal, minhas asas são livres, é ela quem me diz. Não estou devaneado, o instante existe, já me sussurra a Cecília Meireles que sou, o que dizem não me importa mais. Mas se eu sou Cora Coralina, meus meninos são verdes e moram na casa do Rio Vermelho, com minha Zélia Gattai.

Posso ser a gata borralheira, me transformar numa princesa, de uma abóbora virar marquesa. Mas, se o desejo me invade, eu sou a cortesã, me transformo em Madame Pompadour ou Madame Duplessis… para seduzir o meu amor, reconquistando-o a cada manhã.

Folclore e tradição no Carnaval de rua do Recife

Outros dias sou Anita Garibaldiguerreando com as tropas inimigas, ou Maria Bonita para os que me apoquentam o juízo, que me torcem o nariz. Se a lua é cheia, sou Chiquinha Gonzaga e fico namorando seus fulgores encantos, que me deixam feliz. Também sou Maria Bethânia, a dona do dom, vagando pela noite, rondando a cidade; e se sou Cesária Évora, convido Marisa Monte a cantar, entendendo que, se amarga é a saudade, é doce morrer no mar.

Sou Maria CamarãoMaria QuitériaMaria Clara e Joaquina, as mulheres de Tejucupapo, defendendo nossas casas, botando para correr os holandeses, banhados de água fervente e pimenta. Tem mulher guerreira quem pode, se não enfrenta, foge, nem todo soldado aguenta. Sou as donas de casa, nos pegue-pagues do mundo, das letras do Raul. Sou Alice, perdida no tempo, sou a Dulcinéia do Quixote, pendurada num cata-vento, sou as 7 mulheres das batalhas do Sul.

Uma peleja de ‘frever’ corações e a arte pernambucana de se comunicar com os pés

Sou a Maria da Penha, e até criei uma lei. Mas quando fui Mirella, fui Remís, fui Marcela, morri nas mãos dos meus algozes, saí de cena sem sentido, perdi meu mundo e o porquê de tanta perversidade eu não sei. Sou Maria das DoresMaria José, às vezes simplesmente Maria, uma Maria qualquer… que muitas vezes perde a sua vida, justamente por ser o que é.

Sou a diarista, a lavadeira, a médica, a cozinheira, a radialista, a professora, a bordadeira, a secretária, a merendeira, a diretora, a comissária de bordo, a mão diligente na construção civil… Sou a manicure, a operária, a advogada, a empresária, a engenheira, a comportada, a maloqueira… Afrodite, Artemis, Athena… a mais bela das criaturas.. uma Gioconda como nunca se viu.

Sou a desportista, a estudante, a namorada, a amiga, a esposa, a companheira, a amante, a governanta, a governante… Eu sou o ontem, o hoje, sou o que sou e sempre serei… Sou tudo e mais um pouco, sou aquilo que eu quiser. Pouco importa o que eu faça, se eu tenho um nome…

Prazer, Eu Sou mulher!

 

Por Ediane Souza

Em “Divagando”, Ediane Souza vaga por suas memórias e por memórias coletivas do recifense, do pernambucano. 

 

 

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