Recife é uma cidade com várias cidades dentro dela. Temos aqui no nosso microcosmo, maior que o sistema solar segundo muitos, diversos povos e costumes. Consigo observar certas particularidades, nem sempre positivas, nos moradores da Zona Sul.

Importante lembrar que, para quem mora pelas bandas de Boa Viagem, depois da ¨Ponte do Cabanga¨ é tudo Zona Norte. E para quem mora nas Graças, Torre, Casa Forte, Rosarinho, Várzea (Zona Oeste) e afins, quem vive mais próximo da brisa do mar definitivamente é ¨boyzinho ou boyzinha de Boa Viagem¨ e pronto.

Sempre fui boyzinho de Boa Viagem, é bom que se diga. Morei por breves três anos em Casa Amarela, bairro que gostei muito, mas quem se criou jogando bola na praia estabelece um vínculo com a paisagem litorânea que é como uma cicatriz na parte inferior da língua, é pra vida toda e sente-se a todo momento.

O que Caetano Veloso encontrou no som ao redor dos prédios de Boa Viagem

Boa Viagem é mágica e cura até dor de cotovelo como escrevi num texto recente aqui no PorAqui (La Belle de Jour Fez a Escolha Errada), mas não posso deixar de falar sobre a busca da moradia à beira mar como símbolo máximo de sucesso. O status pelas bandas de cá parece ser um bocadinho mais relevante do que todo o resto.

Reflexões em torno do umbigo

Lembro-me de um papo que tive com um primo que morou a vida toda na cidade alta de Olinda e se mudou recentemente pro coração de Boa Viagem. Ele estava impressionado com o comportamento no trânsito e dos amigos dos filhos na escola, segundo ele a competitividade era explícita e violentamente maior.

Ainda lembro das palavras dele: ¨qualquer mudança que espera-se nessa cidade, jamais virá daquele bairro, ali o centro é o próprio umbigo¨. Palavras duras, mas que fizeram esse boyzinho de BV que vos escreve refletir.

Ainda mais recente, um amigo que mora pelas bandas do Espinheiro ganhou uma promoção de um Hotel em BV e foi desfrutar de uma semana de férias por lá. Foi engraçado ele me pedir dicas para onde sair, mesmo sendo um boêmio e morando na mesma cidade.

Deixando claro que existem, sim, duas em uma. Principalmente depois que o trânsito recifense, somado à bem-vinda Lei Seca, nos trouxe o mesmo efeito da internet discada em contraposição à banda larga, perda de conexão.

Quando ele retornou das férias e eu o perguntei se gostou, ele disse que foi legal, mas não se sentiu confortável porque não tinha levado roupas sofisticadas o suficiente.

Mês passado eu almocei no Mercado da Madalena durante a semana e fui caminhando para outro compromisso nas imediações do Clube Náutico Capibaribe. Foi muito bom sentir de volta a força deste rio que já iluminou vários momentos da minha vida, mas o que me chamou atenção foi algo que não costumo ver muito na Zona Sul, moças utilizando bicicletas como transporte prioritário.

Pra mim, foi uma evidência marcante de culturas distintas. E ficou ainda mais forte dias depois, ao pegar carona num carro blindado com um colega de trabalho, que mora na Av. Boa Viagem. Ao estacionarmos no local de destino, ele disse: ¨só abram as portas quando eu disser já – 1, 2, 3 e já¨. De repente, saiu correndo apavorado até o local final que ficava a uns 200 metros, mesmo sem existir o menor sinal de ameaça.

Confesso que aquela cena me assustou profundamente, mas ¨isso aqui é Boa Viagem, ainda existe o Recife mesmo lá dentro¨, como disse Caetano Veloso na semana passada ao contemplar os concretos empatadores de vista, e de vida, na Zona Sul.

Caetano, no alto da sua sabedoria genial, estava indiscutivelmente certo, mas ao mesmo tempo completamente errado. Porque semana passada, após 40 minutos preso no trânsito da Av. Boa Viagem, uma amiga minha e vizinha passou pela ciclovia indo trabalhar. Ela me reconheceu, deu meia volta, parou a bike, com muita gentileza bateu no vidro e disse: ¨Ô boy, vem pra cá, por aqui vou chegar no destino antes de tu e o melhor, aproveitando o caminho¨.

 

Diego Garcez é sobretudo poeta, mas encontrou na crônica uma forma de diálogo mais palatável para o mundo das pernas aceleradas. É formado em relações internacionais, empreendedor e entusiasta do Porto Digital, corredor nas horas vagas e pai em tempo absolutamente integral. Facebook: Diego Garcez | Instagram: @garcezdiego

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