40ª Festa da Vitória Régia e 77ª Exposição de Animais do Cordeiro: das coisas do passado que continuam e seguem coincidentes, recebendo gerações, apesar das mudanças.

Uma se dá em uma das áreas mais nobres da cidade e passeia entre a elite e os que descem os morros de Casa Amarela e arredores. A outra se divide entre os mais simples e os que se empenham em chegar à média mais financeiramente equilibrada (se é que ela ainda existe).

Ambas mudaram ao longo dos anos… Enquanto em Casa Forte os noveaux riches, visando o seu sono de beleza, exigem que os shows se encerrem às 23h, no Cordeiro, o que antes durava 16 dias, agora se aperta em 9; enquanto a primeira visa mais à gastronomia do que o artesanato, tão rico e diverso no passado, a segunda não investe mais em grandiosas apresentações artísticas e desfiles agropecuários.

Um tempo saudoso… Outros tempos…

Na Praça da Vitória Régia, que dá nome ao evento, há dois anos não vemos mais a casa da Monga. E já que a tudo se atribui a crise, deve ser por isto que não tivemos mais o metamorfosear da fera em suas edições.

Este será o segundo ano que a Festa não terá o seu maior incentivador e principal organizador: o Pe. Edvaldo, que certamente está movimentando as quermesses celestiais. Possivelmente, não teremos a baiana de Ilhéus, de cujas mãos sai o mais saboroso acarajé que estas bandas já deram a lamber os beiços. Ela própria me disse que sem o Pe. Edvaldo, dificilmente retornaria à Festa. Só vem ao Recife durante a Fenearte (Ufa! Ainda bem! Pelo menos não morreremos de saudade do seu acarajé!).

Pelo Parque Professor Antônio Coelho, apelidado pelo povo simplesmente de “Exposição”, antigamente, desfilavam atrações de primeira linha, artistas de todos os cantos do País, já que o agronegócio sempre fez o maior sucesso em todos os eventos.

Exposição de Animais chega à 77ª edição (Foto: Reprodução/TV Jornal)

A feira tecnológica e de artesanato era de se admirar, embora a mesada só desse para comprar o colírio para ilustrar os olhos desejosos de ter o que o coração pedia. Havia também bons restaurantes (o dos Criadores era um luxo só), bares maravilhosos (Asa Branca era o melhor de todos), parques infantis, a casa da Monga (a prima pobre daquela da Festa Vitória Régia)… Ah, e os produtos de couro, claro! As mais ‘amostradas’ compravam logo botas e jaquetas e passavam o dia e a noite entre as ruas e o gramado, só na paquera, sonhando em fisgar um filho de fazendeiro. Ora, pois! Nos últimos dias, não escapava nem o tratador…

Como a telefonia móvel nem sonhava habitar nossos arredores, os encontros se davam marcando a hora no relógio e, diante da multidão que frequentava diariamente o evento, dizia-se sempre: “Quem se perder, se encontra no boi”. E a velha estátua (ainda firme e forte) ficava rodeada de gente que se perdia do mesmo jeito, tantos eram os encontros marcados aos pés do imponente Nelore. Vamos combinar: é a maior e mais antiga Cow Parede em Linha Reta da América Latina. E, claro, tinha que ser nossa!

Mantendo as tradições

Mas, tanto pelos arredores de Casa Forte quanto pelas bandas do Cordeiro, a frequência segue firme, e mesmo com tantas mudanças, ambas mantêm certas tradições.

Enquanto uma ajuda a comunidade, revertendo os seus lucros para entidades carentes, a outra continua abrindo as suas portas aos primeiros raios de sol para a distribuição gratuita do leite durante as tantas ordenhas matinais.

E eu estou certa de que ainda posso ouvir os gritos de ” – Corre, que um touro se soltou!”… e lá vem a desabalada carreira de gente a correr pelas ruas do velho e bom Parque de Exposições.

E eu cá passeio nostalgicamente por estas festas. Se a Vitória Régia, em função da distância e do poder aquisitivo da época, passei a frequentar mais na fase adulta, a Exposição do Cordeiro (meu bairro de toda uma vida, até 5 anos atrás) era um passeio quase que obrigatório. Posso dizer que fui a pelo menos umas 15 edições.

Os tempos são outros, o encanto, talvez, tenha se perdido, tudo está muito diferente. Mas o importante é que sigamos as tradições, que mantenhamos viva a cultura de um povo… E que cada um recorde o que de bom viveu.

Valeu, Vitória Régia! E valeu, boi!

40ª Festa da Vitória Régia
De 9 a 11 de novembro
Praça de Casa Forte, Zona Norte do Recife

77ª Exposição de Animais do Cordeiro
De 3 a 11 de novembro
Parque de Exposições do Cordeiro, Zona Oeste do Recife

 

Por Ediane Souza

Em “Divagando”, Ediane Souza vaga por suas memórias e por memórias coletivas do recifense, do pernambucano. 

 

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