Bastou chegar a Copa do Mundo da Rússia e ninguém mais falava da Copa de 2014, ocorrida no Brasil com a participação do solo pernambucano. Tudo bem que temos vááários motivos pra esquecer aquele campeonato, mas tu vem me dizer que ver cenas de torcedores fazendo aquela festa dentro e fora das arenas não te traz nenhuma memória? Pois vamos refrescar a memória.

Eu participei de dois dos quatro jogos que a Arena Pernambuco sediou, e foram duas experiências incríveis. Nesses momentos, a integração com pessoas de outros países, em harmonia, me fez até esquecer a realidade do convívio entre torcidas aqui no nosso Estado. Cheguei ao estádio sem definir seleção pra torcer, mas logo me deixava contagiar pelas torcidas.

Foi assim que os japoneses me ganharam antes mesmo de fazer aquela faxina nas arquibancadas e foi assim que os costarriquenhos já muito “borrachos” e com a animação gerando na alta ganharam minha torcida.

Mas, além dos quatro jogos de 2014, o Recife sediou um ainda em 1950, na primeira vez que a Copa foi realizada no Brasil. Vamos aos jogos.

Chile 5×2 Estados Unidos

Foto: reprodução

Era a primeira Copa do Mundo de futebol após as guerras mundiais, e o Brasil foi escolhido pela Fifa porque vivia uma ascensão econômica e não tinha sofrido os grandes impactos dos confrontos bélicos. Naquela época, as viagens ainda não eram tão rápidas, e isso foi uma das desculpas para os jogos se concentrarem apenas no Sudeste e no Sul do País.

Como terceira cidade brasileira mais populosa na época, o Recife não podia ficar de fora. Logo que a tabela foi divulgada, a capital pernambucana receberia três partidas, mas algumas seleções europeias desistiram de vir ao Brasil por acharem a logística desfavorável. Restou o confronto entre chilenos e norte-americanos.

O palco foi a Ilha do Retiro, que havia passado por uma milionária reforma para entrar no já exigente “padrão Fifa”. No dia 2 de julho, o estádio do sport recebeu um público de 8.501 pessoas que assistiram a um jogo cheio de gols.

Ficha do jogo*
CHILE: Sergio Livingstone; Manuel Machuca e Manuel Álvarez; Miguel Busquets, Arturo Farías e Carlos Rojas; Fernando Riera, Atilio Cremaschi, Jorge Robledo, Andrés Prieto e Carlos Ibañez. Técnico: Arturo Bucciardi (CHI).

ESTADOS UNIDOS: Frank Borghi; Harry Keough e Joe Maca; Ed McIlvenny, Charlie Colombo e Walter Bahr; Frank Wallace, Gino Pariani, Joe Gaetjens, John Souza e Ed Souza. Técnico: Bill Jeffrey (Escócia).

Local: Estádio da Ilha do Retiro, Recife, Pernambuco.
Data: 2 de julho de 1950.
Horário: 15h.
Árbitro: Mário Gardelli (Brasil).
Assistentes: Mario R. Heyen (Paraguai) e Alfredo Álvarez (Bolívia).
Gols: Jorge Robledo (CHI) aos 16′ e Atilio Cremaschi (CHI) aos 32′ do primeiro tempo; Frank Wallace (USA) aos 2′, Joe Maca (USA) aos 3′, Andrés Prieto (CHI) aos 9′, Atilio Cremaschi (CHI) aos 15′ e Fernando Riera (CHI) aos 37′ do segundo tempo.
Público: 8.501.
Renda: 290 mil cruzeiros.

*Fonte: Jornal do Commercio, com base em dados da Fifa.

Costa do Marfim 2×1 Japão

Foto: Thiago Wagner/acervo JC Imagem

Eu estava lá. Era o terceiro dia da copa mais aguardada de todos os tempos. O jogo foi marcado para as 22h, para atender ao público (e porque não aos patrocinadores) japonês. Com tempo de sobra pra chegar à Arena, em São Lourenço da Mata, as torcidas pernambucana, japonesa e marfinense foram chegando e aumentando a festa nos arredores do estádio.

Os japoneses, em maioria, eram os mais assanhadinhos. Distribuíam faixas e outros itens característicos do folclore de lá e pediu a todo momento para tirar fotos com brasileiros. Mesmo em menor quantidade, a festa dos marfinenses não foi pequena. Eles levaram tambores e maracás e outros instrumentos e fizeram sua zoada. No fim, prevaleceram a justa festa africana e a básica educação japonesa.

Dentro de campo, o Japão até que abriu o placar, mas a o alto nível de Didier Drogba, mesmo lesionado, fez a diferença no segundo tempo.

Ficha do jogo

COSTA DO MARFIM: Boubacar; Aurier, Zokora, Bamba e Boka (Djakpa); Tioté, Serey Die (Drogba) e Yaya Touré; Gervinho, Kalou e Bony (Ya). Técnico: Sabri Lamouchi.

JAPÃO: Kawashima; Uchida, Yoshida, Morishige e Nagatomo; Yamaguchi e Hasebe (Endo); Okazaki, Honda e Kagawa (Kakitani); Osako (Okubo). Técnico: Alberto Zaccheroni.

Local: Arena Pernambuco, São Lourenço da Mata.
Data: 14 de junho de 2014.
Horário: 22h.
Árbitro: Enrique Osses (CHI).
Assistentes: Carlos Astroza (CHI) e Sérgio Roman (CHI).
Cartões amarelos: Bamba e Zokora (COS); Yoshida e Morishige (JAP)
Gols: Keisuke Honda (JAP) aos 15′ do primeiro tempo; e Bony (COS) aos 18′ e Gervinho (COS) aos 20′ do segundo tempo.
Público: 40.267 torcedores.

Itália 0x1 Costa Rica

Foto: reprodução

Aos gritos de “Sí se puede”, os costarriquenhos enfrentaram a Itália pela segunda rodada. Uma vitória classificava a seleção da América Central num grupo que contava com três campeãs mundiais: Uruguai e Inglaterra, além da própria Itália.

Não demorou para a torcida pernambucana ir no embalo e torcer contra a rival Itália. Jogando como locais, os ticos ficaram à vontade para neutralizar os tetracampeões italianos liderados por Andreas Pirlo e conquistar a vaga, pois já haviam vencido o Uruguai na estreia.

Ficha do jogo

COSTA RICA: Navas; Umaña, Duarte e Giancarlo González; Gamboa, Borges, Tejeda (Cubero), Crístian Bolaños, Junior Díaz e Bryan Ruiz (Brenes); Joel Campbell (Ureña). Técnico: Jorge Luís Pinto.

Local: Arena Pernambuco, em São Lourenço da Mata.
Data: 20 de junho de 2014.
Horário: 13h
Árbitro: Enrique Osses (CHI).
Assistentes: Carlos Astroza (CHI) e Sérgio Roman (CHI).
Cartões amarelos: Balotelli (ITA) e Cubero (COS).
Gol: Bryan Ruiz aos 44′ do primeiro tempo.
Público: 40.285

Croácia 1×3 México

Foto: Arnaldo Carvalho/acervo JC Imagem

Outra que jogou como local em Pernambuco foi a seleção mexicana. Durante todos os dias da Copa, era possível ver mexicanos pelas ruas do Recife, e eles também eram numerosos nos jogos da Arena, mesmo os que não tinham seu time em campo.

Na terceira e decisiva rodada da primeira fase, o México receberia a Croácia para ver quem ficaria com a segunda vaga da chave do Brasil. A torcida croata também compareceu e deu tons de clássico ao estádio de São Lourenço da Mata. E como é costume nos clássicos em Pernambuco, o jogo contou com erros de arbitragem e até briga entre torcedores.

Ficha do jogo

MÉXICO: Ochoa; Francisco Rodríguez, Rafa Márquez e Héctor Moreno; Aguilar, José Vázquez, Héctor Herrera, Guardado (Marco Fabián) e Layún; Giovani dos Santos (Chicharito Hernández) e Oribe Peralta (Carlos Peña). Técnico: Miguel Herrera.

Local: Arena Pernambuco, em São Lourenço da Mata.
Data: 23 de junho de 2014.
Horário: 17h
Árbitro: Ravshan Irmatov (Uzbequistão).
Assistentes: Abduxamidullo Rasulov (UZB) e Bakhadyr Kochkarov (UZB).
Cartões amarelos: Rakitic (CRO), José Vázquez e Rafa Márquez (MÉX) .
Gols: Perisic (CRO) aos 41′ do segundo tempo; Rafa Márquez (MÉX) aos 26’, Guardado (MÉX) aos 29’ e Chicharito Hernández (MÉX) aos 37′ do segundo tempo.
Público: 40.285.

Estados Unidos 0x1 Alemanha

Foto: Diego Nigro/acervo JC Imagem

Esse foi um dia daqueles que a gente pensa que o mundo vai se acabar. A chuva que caía ininterruptamente fazia cair também os cabelos dos gestores da capital e do Estado. Graças ao padrão Fifa exigido para o estádio, as condições para o jogo não eram um problema, mas o questionamento em toda a RMR era se torcedores e seleções conseguiriam atravessar o Recife com todos os seus alagamentos.

Não só todo mundo conseguiu chegar, como foi o jogo com recorde de público da Arena Pernambuco: 41.876 americanos, alemães e brasileiros.

Outro questionamento era se as duas seleções fariam um jogo de compadres, aqueles em que todos são amigos e ninguém quer vencer, pois um empate classificaria os dois times e quem perdesse poderia ficar fora. Mas os alemães partiram para cima dos americanos desde o início. Mesmo sem ser muito efetiva nas conclusões, a seleção alemã dominava as ações, chegando a ter 80% da posse de bola.

No fim, um magro 1×0 garantiu a classificação da Alemanha e não foi suficiente para eliminar os Estados Unidos.

Ficha do Jogo

ALEMANHA: Neuer, Boateng, Mertesacker, Hummels e Höwedes; Lahm, Schweinsteiger (Götze), Kroos, Özil (Schürrle) e Podolski (Klose); Müller. Técnico: Joachim Löw.

Local: Arena Pernambuco, em São Lourenço da Mata.
Data: 26 de junho de 2014.
Horário: 13h
Árbitro: Ravshan Irmatov (Uzbequistão).
Assistentes: Abduxamidullo Rasulov (UZB) e Bakhadyr Kochkarov (UZB).
Cartões amarelos: González e Beckerman (EUA); e Howedes (ALE).
Gol: Muller aos 10′ do segundo tempo.
Público: 41.876.

Costa Rica 1×1 Grécia (5×3 nos pênaltis)

Foto: reprodução

Lembra do coro “Sí se puede”? Ele agora está mais forte e com um pouco mais de álcool. De longe, a torcida tica era a mais animada. Já chegavam ao estádio no brilho. Eles viviam um sonho depois de eliminar duas campeãs mundiais na primeira fase e ir para o mata-mata da Copa.

Os pernambucanos logo foram no embalo e torceram todos a favor da Costa Rica. Parecia um jogo de um time do Estado contra um adversário de fora. A emoção tomou conta depois que Bryan Ruiz abriu o placar os latinos, mas a Grécia parecia ignorar os gritos de “Olê olê olê, ticos, ticos” e partiu pro ataque, empatando aos 45 do segundo tempo.

A partir daí, a emoção ficou para os pênaltis. Com o goleiro Keylor Navas em grande forma, a Costa Rica venceu por 5×3 e foi para uma inédita quarta de final contra a Holanda. A noite se tornou pequena, e São Lourenço da Mata e o Recife pareciam San José.

Ficha do jogo

GRÉCIA: Karnezis; Holebas, Papastathopoulos, Manolas e Torosidis; Maniatis (Katsouranis), Karagounis, Samaris (Mitroglou) e Christodoulopoulos; Salpingidis (Gekas) e Samaras. Técnico: Fernando Santos.

Local: Arena Pernambuco, em São Lourenço da Mata.
Data: 29 de junho de 2014.
Horário: 17h.
Árbitro: Benjamin Williams (AUS).
Assistentes: Matthew Cream (AUS) e Hakan Anaz (AUS).
Cartões amarelos: Tejeda, Granados, Bryan Ruiz e Navas (COS); Samaris e Manolas (GRÉ).
Gols: Bryan Ruiz (COS) aos 6′ do segundo tempo e Sokratis (GRE) aos 45′ do segundo tempo.
Público: 41.242.