“lá no futuro, as cidades vão controlar e regular a mobilidade urbana. em conjunto com com provedores [de mobilidade], empresas automotivas e de energia, as cidades criarão políticas e tomarão decisões que devem catalizar a transformação da mobilidade urbana para prover transporte limpo, seguro e acessível para suas populações”. esse é o primeiro parágrafo desse link, um texto do fórum econômico mundial sobre táxis-robôs movidos a energia solar.

tirando o detalhe de que transporte limpo, seguro e acessível para suas populações já era algo que deveria estar acontecendo há muito tempo, parece que agora a coisa começa a ir. o colapso de mobilidade das grandes cidades globais que não agiram nos últimos 20, 30, 10 anos é uma realidade e, no brasil, é uma catástrofe. no RECIFE, aqui na ZONA NORTE onde eu moro, já estamos em níveis apocalípticos, nefasta combinação de aumento da densidade populacional [que não necessariamente é algo ruim, por si só] com uma malha viária que tem mais de meio século sem qualquer modificação significativa [o que é um desastre por si só, considerando as mudanças pelas quais a cidade passou desde… sempre, pelo visto].

como os recifenses sabem, a avenida norte é projeto e execução dos governos pelópidas [1955/1960] e arraes [1960/1963]. já tem mais de 50 anos. a avenida 17 de agosto está no mesmo lugar e quase no mesmo desenho desde o tempo das maxambombas, e isso foi em 1867. uma coisa feita pra gente usar a palavra sesquicentenário, que só rola no ENEM e concursos públicos. número total de veículos automotores, à época? zero. mas preste atenção: entre as tantas coisas que RECIFE pode se orgulhar de ter feito de forma inovadora, a cidade foi o lugar dos primeiros trens urbanos do brasil. sim, as machine pumps do porto a apipucos. olha elas aí, na foto, passando ali perto do açude.

como é que, de lá pra cá, tendo sido o primeiro lugar no mundo a usar locomotivas projetadas para rodar nas ruas, a gente se perdeu… e perdemos os caminhos que -parece- tínhamos lá no século XIX?

dando um salto de quase meio século do tempo das maxambombas, ainda não havia BR101 em 1906; a ponte entre a caxangá e dois irmãos não existia, também. a ponte da torre estava lá, já tem mais de 100 anos. e, de 1906 pra cá, só fizemos o viaduto do carrefour [pra cruzar o rio, na zona norte do recife]. em uma cidade toda cortada de rios, dentro de um mangue… um dos lugares mais engarrafados do mundo… e na zona norte, o lugar mais engarrafado e confuso de uma das cidades mais engarrafadas do planeta terra inteiro… só conseguimos fazer uma ponte em mais de cem anos. e ficamos com duas cidades: quem mora na zona norte quase nunca se anima pra fazer qualquer coisa do outro lado do rio capibaribe, tal a complicação de ir até lá. e, claro, o caminho inverso também tem o mesmo problema.

que tal a gente voltar bem para o comecinho do texto?…lá dizia que “no futuro, as cidades vão controlar e regular a mobilidade e, em conjunto com provedores, empresas automotivas e de energia, criarão políticas e decisões para catalizar a transformação da mobilidade urbana para prover transporte limpo, seguro e acessível para suas populações“.

nada disso está sendo pensado, planejado ou tem qualquer chance de acontecer em nenhuma grande, média ou pequena cidade do brasil, agora ou no futuro próximo. aqui -como fazia o RECIFE de 1867-, a gente deveria estar pensando e experimentando como resolver o problema brasileiro de mobilidade urbana de AGORA [e do futuro] e, ao fazê-lo, criar um MONTE de oportunidades para inovação e empreendedorismo que, tirando as cidades brasileiras da parálise, criaram, por sua vez, negócios, trabalho, renda e impostos, que iriam também para as cidades.

ao invés de agir, no entanto, esperamos, como que dominados por indústrias cujo tempo, na história, já se foi. pedra e cal e carros, como eram… já eram. temos que repensar os lugares de e para as pessoas, cada um e em conjunto, como hubs, como fluxos, como redes, como redes sociais, seus agentes, suas conexões, relacionamentos, interações e os processos de comunicação, construção de conteúdo, comunicação e contexto que criam a cultura da cidade. se não… onde estaria a alma do seu burgo? nas horas perdidas pra ir pro trabalho e de volta pra casa? nas calçadas que não existem e parques e campos com os quais só se sonha?…

se a gente conseguir tomar os espaços urbanos dos carros -e outros meios de transporte- e eles passarem a ser só, de novo, meios, como eram as maxambombas de 150 anos atrás… é capaz da cidade voltar a ser nossa, das pessoas, para as pessoas. não é só o que se tem que fazer, claro, e essa mudança, por si só, não vai resolver todo e qualquer problema da urbe. mas que já seria um bom começo, isso seria.

aqui no recife, antes da gente chamar seja lá quem for pra trazer carros autônomos como táxis pra cá -o que vai acontecer cedo ou tarde, é só uma questão de tempo- era bom a gente fazer pelo menos mais uma ponte sobre o capibaribe. sem isso, nem a inteligência artificial mais tampa de todos os tempos [futuros, inclusive] vai desenrolar nossa mobilidade. ou a falta dela, na ZN.

[PS1: a imagem acima é de reportagem do JC, de 2015, nesse link, sobre o eterno engarrafamento da avenida rui barbosa, que aparece no mapa ali de cima como BARBOSA. quem conhece nota, ao fundo, a estação PONTE d’UCHOA, resquício dos bondes, trens e trams urbanos do recife. não vi nenhuma discussão ou proposta para o rolo da rui nos últimos -pelo menos- 10 anos. está lá, parece que estará lá para sempre, pelo visto, como se fosse inevitável. e não é. falta alguma coisa pra tratarmos esse e muitos outros problemas da cidade. o que? e quando começaremos?…]

[PS2: há exatos 21 anos, escrevi dois textos que retratam, o primeiro, o caos do trânsito do RECIFE {Trânsito em Transe, nesse link} e o que seria parte da solução pro problema, no segundo {Se meu Fusca Falasse… com a Internet, nesse link}. vale a pena ler o primeiro pra ver que quase nada mudou no departamento CAOS do problema… e dar uma olhada no segundo pra ver como eu tentava explicar pro DETRAN da época como era que a gente poderia vir a gerir o trânsito com tecnologias do futuro. que eu me lembre, eles não gostaram muito da parada…]