Desde a primeira Copa do Mundo, em 1930, que a cada 4 anos o mundo futebolístico gira em torno da chegada do evento. Depois dos primeiros campeonatos adquiridos pela seleção brasileira, 1958, 1962 e 1970, se deu, então, a febre de torcer pela Canarinha, assim apelidada (leia sobre a alcunha de várias seleções AQUI).

Passaram-se 24 anos de euforia arrefecida, de frustrações, de amargas derrotas, como em 1982, com a considerada a melhor das seleções já formadas, de desejo de novamente ver a ‘taça do mundo como nossa’. Em 1994, se deu o tetra e em 2002, o pentacampeonato, invejado pelas demais seleções, que só pode ser alcançado este ano pela seleção alemã, uma vez que a Azurra não comporá o espetáculo nesta edição.

LEIA MAIS:

Sexta (6) é dia de jogo – e de farra. Veja 18 lugares para curtir na RMR

E eis que, em 2014, chega o sonho de ganhar a tal Copa em casa… Críticas pela decisão de ser o país-sede, abusos e descaso com as pessoas deslocadas dos seus domicílios por meros caraminguás, em função das construções das arenas elefantescas brancas, e uma chapuleta chucrítica ao final, que é melhor nem comentar. Mas ainda não foi este resultado que frustrou o sentido verde-amarelo de torcer…

Desde que se misturaram questões políticas e futebolísticas, tendo como objeto figurativo da luta uma camisa amarela, como se esta, tão somente um padrão de futebol, pudesse representar um desejo de patriotismo único e exclusivo de determinada camada da população, a seleção brasileira e seus representantes como um todo passaram a ser alvo de peso de balança: de um lado, vestir-se de verde e amarelo é fazer parte de um grupo que ajudou a promover a bancarrota em que se encontra o País; do outro, estão os que lutam por igualdade, equidade e justiça… igual para todos, indistintamente, sem privilégios aos iguais. Na verdade, deveria ser a luta de todos, sem acepção do que quer que seja.

Se for para escolher um lado, eu faço parte do segundo grupo, mas procuro não misturar as coisas. Acho o futebol, enquanto esporte, algo mágico, de um bailado destinado a alguns predestinados, de uma maestria voltada a poucos virtuoses. Sou e sempre fui apaixonada por ele.

Acompanho todos os campeonatos possíveis, mesmo que aqui e ali ouça o tal ‘mulher não entende de futebol’, para o que dou de ombros, com muita certeza do que sei. Apesar de saber (e conhecer muitas histórias a respeito) que dele também se pode tirar bons projetos sociais, que oportunizam crianças e jovens a uma vida minimamente digna, compreendo perfeitamente que o futebol, perdendo ou ganhando, não vai resolver as questões mazelentas do nosso país (ou de qualquer outro).

Festa do esporte

Entretanto, isto posto, eu observo a questão além de uma simples Copa, de um mero evento mundial de futebol. Ora, são 32 seleções desfilando pelos gramados russos. É cor e bandeira pra mais de metro. É uma festa do esporte. É hino de botar abaixo a Torre de Babel.

Aqui abro um parêntese para lamentar a ausência daquele que, para mim, é um dos mais belos: Fratelli d’Italia… Cosi belo, Iddio la creò… Para muitos países, a Copa do Mundo é um momento de consagração, dada a pouca (ou primeira) participação no evento, como Islândia e Panamá, estreantes nesta edição. Se pensarmos em interdisciplinaridade, ainda saímos no lucro: olhamos para a linguística e damos de cara com a diversidade de idiomas, dialetos e idioletos; damos uma volta e esbarramos na possibilidade de conhecer um pouco mais sobre cada país, sua cultura e seu povo – mandem brasa, história e geografia!

Se montarmos uma tabela de resultados, toda trabalhada no Excel, como eu, que alimento a minha a cada partida, um show de matemática e informática para nós se apresenta (e eu ainda diminuo um pouco mais a minha defasagem nestas áreas); se olharmos o Egito e o quanto representa Mohamed Salah para o seu povo, recebemos uma traulitada na caixa dos peitos da ciência política e da cultura religiosa… E eu passaria a tarde toda traçando rosários com esta rede de gols diferenciados que podem (e puderam) ser apreciados e marcar história na fria Rússia aquecida pelos goles de vodca.

Eu estou aí pra Copa… não por um sentimento verde-amarelo, cada vez mais pálido… Eu sei, eu sei… o momento é doloroso… vivemos uma tragédia, política, econômica e socialmente falando, vivemos dias incertos, sombrios, de auroras duvidosas… Mas a Copa do Mundo não é só o nosso umbigo…

Eu estou aí pra Copa… porque tenho paixão pelo esporte, pelo conhecimento que agrego, pelos momentos de euforia que me permito ter, pelo congregar entre amigos, pelo desejo de que tenhamos, em tudo, um olhar mais apreciativo sobre as coisas. Se já está tão difícil, imaginemos se imperam a amargura e desânimo? Se já está tão difícil, que dirá sem um instante de remanso entre uma luta e outra? Se já está tão difícil, pensemos se nada mais tivermos por, coletivamente, celebrar?

Sim… eu estou aí pra Copa… que não é nossa, é do Mundo, de muitas gentes, seja ‘hexa’ a gente que for.

 

Por Ediane Souza

Em “Divagando”, Ediane Souza vaga por suas memórias e por memórias coletivas do recifense, do pernambucano. 

 

Os conteúdos publicados no PorAqui são de autoria de colaboradores eventuais e fixos e não refletem as ideias ou opiniões do PorAqui. Somos uma rede que visa mostrar a pluralidade de bairros, histórias e pessoas.