O que diferenciava o recifense nos idos de 1970 a 1980? Seria o que vestíamos? Usávamos? Calçávamos? Seriam as escolas que frequentávamos? Os espaços de lazer que disputávamos?

Muitas respostas são possíveis, mas as marcas… ah, as marcas (entenda-se, grifes)…

Nem todos tinham recursos para aderir ao uso das marcas que surgiam naquele tempo. Vai ver era exatamente isto o que nos diferenciava. Confesso, eu não tinha grana para andar na moda, como se dizia.

Muitas vezes, aproveitava as “cabidelas”, como eram chamadas as peças de segunda mão. As minhas amigas, um tanto mais robustas financeiramente, sempre me ofertavam as suas peças antigas, quando ganhavam as novas.

Memórias de um Recife melhor que ele mesmo

Mas o que tanto embalava os sonhos dos adolescentes e jovens deste meu Recife de meu Deus?

Vamos começar pela era Dancing Days… que menina não sonhava com um par de meias de lurex, coloridas, usadas com salto alto, a la Júlia Matos? As minhas eram douradas, lindas. Eu as usava com um salto Anabela marrom… duraram até quase se puírem todas. E as Melissinhas? A cada 3, 4 meses um modelo novo… e eu sempre esperando a “cabidela” da vez…

E na escola? Como não querer ‘se amostrar’ com uma bolsa Company, Colcci ou Tiger? E os tênis Rainha e Montreal? Ah… mas nem todos tinham este privilégio. Em épocas de vacas gordas, obesas, até, eu diria, reinei absoluta com o meu Montreal azul.

Mas, nos tempos das vacas magras, meus pés agradeciam ao Bamba All Color, minha basqueteira favorita. Sim, agradeciam. Primeiro, porque eu amava o meu Bamba branco; segundo, porque as vacas viveram suas épocas de seca no sertão, e os Kichutes eram o que me restavam. E eu os odiava. Eram horríveis aos meus olhos. Nada femininos, eram grosseiros.

Eu sonhava até com os meus Congas, estampados com os desenhos da Disney, de quando eu menina, mas os tais Kichutes eram tudo o que se podia comprar em tempos de contenção de despesas.

Penso ter sido o primeiro momento de segregação que viviam os recifenses nas escolas e pelas ruas dos bairros: os grupos eram separados assim: a turma da Company, Colcci ou Tiger, dos tênis Rainha ou Montreal, e a turma dos Kichutes, das mochilas da Alternativa, que eram mais em conta, e das mochilas em jeans. E por falar em jeans… quem nunca cantou?

“Liberdade é uma calça velha / Azul e desbotada / Que você pode usar / Do jeito que quiser / Não usa quem não quer / US Top / Desbota e perde o vinco / Denin Índigo Blue / US Top / Seu jeito de viver / Não usa quem não quer / US Top / Desbota e perde o vinco”.

Depois vieram outros, mais famosos e mais caros, como Levi’s, Ellus, Zoomp, Diesel, Forum… Mas o US Top… o primeiro jeans, a gente nunca esquece.

Pensou em moletom, pensou em Pakalolo ou Fido Dido. Mesmo no mormaço eterno do Recife, um moletom destes podia ser usado em qualquer dia. O importante era ostentar. Pensou em camisetas, pensou em Bee e em suas lindas coleções. Ao final dos anos de 1980, eu, já no meu primeiro emprego, estava sempre encomendado as minhas, direto de São Paulo. Espiem só o luxo!

Naquele tempo, as Havaianas não tinham o glamour dos dias atuais e até dava vergonha andar com elas (eu tinha vergonha, confesso). Era sinônimo de pobreza na certa. Chique, mesmo era quem tinha uma Opanka ou uma Rider.

Os meninos, “filhinhos de papai” aos nossos olhos, frequentadores assíduos da Praia de Boa Viagem, não dispensavam aquele boné da Hang Loose e aquela sunga verde-limão da Onbongo. A parte ‘lisa’ usava o boné distribuído como brinde na padaria, em final de ano, e aproveitava o calção das aulas de Educação Física. E dava onda do mesmo jeito.

Muitas marcas fizeram a cabeça dos jovens e adolescentes daquela época. Muitas delas demoravam a chegar ao estado, sempre tão esquecido e distanciado da modernidade da rota Sul-Sudeste. Até mesmo porque o nosso primeiro Shopping Center, o Recife, só foi inaugurado em outubro de 1980, e dependíamos apenas da Mesbla ou da Sloper, os grandes magazines do nosso tempo, ou então que um ousado empresário arriscasse expandir a sua grife por estas bandas e abrisse lojas no centro da cidade.

Mas quando aqui aportavam, as marcas, fossem mais ou menos famosas, causavam o maior rebuliço: para alguns, bastava pedir para ‘papai comprar’; para outros, restava o sonhar com elas… ou mesmo esperar que uma ‘cabidela’ desse sopa.

E você, caro leitor, sonhou com algumas delas e ficou apenas no desejo como eu? Foi um afortunado usuário de muitas grifes? Recorda-se daquelas aqui lembradas? Tem outras tantas na lembrança? Compartilhe conosco! Que marca te marca?

 

Por Ediane Souza

Em “Divagando”, Ediane Souza vaga por suas memórias e por memórias coletivas do recifense, do pernambucano. 

 

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