Década de 80 e o Casseta & Planeta anunciava, na (hoje extinta) Revista Manchete, uma camisa branca com a bandeira do Brasil impressa. No pavilhão, gravado estava a espetacular frase “Eita povinho bunda!”, substituindo o “Ordem e Progresso” que o atual Governo (?) Federal ostenta como slogan. Hoje essa lembrança me atingiu em cheio… Gasolina! Diesel! Caminhões! Alimentos! Caos! Avante, irmãos! O pavilhão nacional vai ganhando nova frase! Eita povinho bunda!

No maravilhoso país dos trópicos (maravilhoso, de fato!), algo tinha que não prestar. Sim, nós mesmos, os brasileiros! Nós que reclamamos desgraçadamente e continuamos votando nas mesmas almas sebosas de sempre! Nós, que pagamos altos impostos e no momento em que os preços dos combustíveis beiram o absurdo, ao invés de tomarmos iniciativas de protesto, tumultuamos tudo para mendigar as últimas gotas nos postos de gasolina – e ainda vemos aproveitadores subindo o preço absurdamente em meio à procura da população!

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Nós, que no afã de parecermos socialmente aceitáveis, pagamos juros altíssimos em compras fúteis e acabamos, em momentos de crise, digladiando-nos com carros de luxo fingindo que ser chique é ter dinheiro! Nós, sim, nós!

Deixemos de lado as justificativas técnicas dos consecutivos aumentos pela Petrobrás. Finjamos que o problema está na gasolina e não na ausência de ferrovias e outras formas de transporte mais baratas e eficientes. Esqueçamos a patifaria política que persiste mesmo em tempos de Lava Jato (sim, não dá pra negar que ao menos o gostinho de ver políticos corruptos presos, de vários partidos, estamos tendo!).

Olvidemos os aumentos de salários de magistrados e juristas das mais diversas classes. Ignoremos a conta de energia elétrica cada vez mais cara, a falta de fiscalização nas mais diversas áreas que nos fragilizam, a indústria da multa que se prolifera, a mídia manipuladora impune, a incapacidade policial ante a violência imperante, o desemprego flagrante… Foquemos em nós, brasileiros, os palhaços que brincam de ser enganados e ainda sorriem espantosamente com copos de cerveja às mãos e bundinha até o chão.

Nós, que estragamos toneladas de comida por dia e sequer olhamos para os menos abastados que minguam à fome, repetindo o que acontece em todo o globo terrestre. O povinho que faz vídeo querendo mudanças no país, mas se apequena cotidianamente ante tantas outras mazelas. Nós… Nós. Nós! É para esse nós que escrevo hoje.

No contraponto a essas questões (quase anais) do que somos – e à frase cunhada pelos Casseta –, eis que surge Geraldo Rufino, o ex-catador de latas e atual mega empresário que palestrou essa semana no Recife.

Talvez o cara mais positivo que conheci, repetindo o “seja positivo” e o “esse país tem jeito sem pudores”. O cara que quebrou quatro vezes e deu a volta por cima (“sou o mesmo, só mudei de endereço”).

Rufino rasgaria a camisa do Casseta & Planeta num hipotético encontro. Negro oriundo da favela, representa muito bem um outro povo menos bunda e mais trabalho. Um outro povo que também somos nós e que não se cansa de suar e buscar dias melhores. Que, mesmo sem deixar transparecer, amadurece aos poucos e torna a esperança mais ação do que espera. Meu pai, minha mãe, avós, seu vizinho, nós mesmos…

No esculhambado país dos trópicos (esculhambado, de fato!), algo tinha que prestar. Sim, nós mesmos, os brasileiros! Nós, que temos caminhoneiros que sabem peitar o governo em nome do que é justo (politicagens a parte). Nós, que aos poucos vamos compreendendo o que é empreender e o quanto isso é indispensável para o crescimento enquanto nação. Nós, que, ao que parece, estamos aprendendo a separar o que é futebol e o que é ópio (se não tanto do futebol nacional, ao menos para essa Copa do Mundo a morgação parece reflexo direto disso).

O povo que consegue sorrir em meio a tantas dificuldades cotidianas, que exporta atletas de alto nível, conquista medalha em olimpíadas de matemática, descobre curas para doenças complicadas, desenvolve projetos sustentáveis que dão inveja a gringos pelo mundo, adota aos poucos hábitos responsáveis de consumo, multiplica projetos com impacto social que vão transformando vidas. Nós… Nós. Nós! É também para esse nós que escrevo hoje.

Sonolento, contrariado, esperançoso, descrente, confiante. É como escrevo essas palavras aqui. Eu, esse nós paradoxal que tece pouco a pouco uma bandeira verde, amarela, azul e branca. Conseguiremos abandonar a pecha de Povinho Bunda que vem nos definindo? Enquadrar-nos no Ordem e Progresso impositivo do pavilhão nacional? Encontrar algo mais libertário e democrático que passe a nos representar? Não sei. Só sei que o encontro entre o Casseta & Planeta e Geraldo Rufino parece próximo. Nesses extremos que tão bem nos representam atualmente, quem vai vencer? Que o embate continue!

 

Sidney Nicéas é escritor e tem cinco obras publicadas, sendo a mais recente “Noite em Clara – um Romance (e uma Mulher) em Fragmentos”. Realiza palestras, workshops e oficinas de Criatividade e Escrita e é apresentador do programa “Tesão Literário”, na TV Pimenta (webtv). Contato: sidneyniceas@gmail.com.

 

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