No Auto da Vida Real, nos salvem Jesus e a Compadecida…

– Mestre Ariano… vamos confabular um bocadinho?

– Diga lá, essa menina! Há quanto tempo! O que é que há?

– Professor… eu acho que estou adiantando a idade e ficando rabugenta, perdendo uma das minhas características mais fortes (a paciência) com certas coisas que ando a observar…

– Oxente, criatura, me conte o que se sucede por aí! De repente, eu escrevo um auto celestial e lhe mando em sonho, num boi voador, pra você atravessar esta cidade, que nem nos tempos de Nassau…

Nem te conheço, já te amo ❤️ : feriado estreia em PE na semana que vem

– Espie só, mestre: na política, o senhor já sabe. Creio eu que as notícias correm nos jornais celestiais no mesmo tanto de velocidade que jegue em desabalada carreira. O escárnio com os desvalidos é cada vez pior, os direitos conquistados vivem na mira dos rifles, a desgraceira está em toda parte. Nada disto é novidade. Mas olhando um tantinho para este Recife que o senhor abraçou ainda mocinho, e seus arredores, a gente sente na pele o que é a luta pelo pão de cada dia. O senhor espie só, que até para ir ao trabalho (os afortunados, claro, porque trabalho por cá é coisa rara) dá-se o maior desassossego. A gente sai de casa antes de o sol nascer, se borrando de medo de ser assaltado, e ainda corre o risco de perder a hora de bater o ponto.

É de pior para acabou-se

– Vixe, essa menina! Eu fico aqui tão entretido com os colegas do departamento de prosa, conto e poesia, que não estava nem me ligando nas coisas terrenas do meu Leão do Norte. É de pior para acabou-se, não é?

– Agora, depois de muitos carros avariados, acidentes e vidas ceifadas, estão, finalmente, consertando a BR 101. Dê por vista como não está o trânsito, professor! Se der uma dor de barriga, o sujeito não tem escapatória: ou as moitas na beira da estrada ou se previne, carregando o velho e bom penico.

Memórias de um Recife melhor que ele mesmo

– Eu estou me acabando de rir aqui. Dá tempo de escrever um livro, né, não? Você poderia aproveitar, já que parece gostar do riscado. Mas… me conte mais!

–  Além disso, coisa antiga, o senhor sabe, transporte de qualidade e em quantidade… só em sonho. O desrespeito é o de sempre, o senhor lidou com ele por aqui, mas agora segue em ritmo de tufão desembestado. Está cada vez pior: ninguém respeita mais nada: o idoso, o deficiente, a prenha… O povo se faz de cego. E as filas nos terminais integrados, então? Valha-me, Nossa Senhora, mãe de Deus de Nazaré! O senhor precisa ver a confusão. Já não basta passar horas esperando por um coletivo, ainda vem um monte de gente que passa na sua frente, e se você reclamar, é capaz de voltar para casa com os olhos no estilo óculos de sol tatuado. Independe do Terminal Integrado: Caxangá, Pelópidas da Silveira, Xambá… Dizem que o pior é TI Barro-Macaxeira, o mais lotado…

– Aí, também, homem, é de lascar. Barro-Macaxeira? Desculpe, essa menina, eu não estou rindo desse meu povo sofrido, não. Sei que isso é o itinerário, mas se ainda fosse Macaxeira com charque, com carne-de-sol e manteiga… Mas com barro? Não podia ser coisa boa, não é, não?

–  E as estações, mestre? O senhor precisa ver. Parecem verdadeiros alçapões, com a diferença de que o povo não tem escolha, tem que entrar nesta armadilha, se quiser chegar ao seu destino. Pense num bando de arribaçã se ‘alçapando’ pra pegar alpiste! E na estação do Derby, então, que é indo e vindo? O povo embarca e desembarca ao mesmo tempo, se espremendo, se empurrando, e ainda dividindo espaço com os ambulantes, que lutam por sua sobrevivência. Aliás, vende-se de tudo nas estações de BRTs. Só falta vender os seus livros…

_Oxente, ia ser até bom! Pelo menos o povo se divertia um tiquinho com as minhas lorotas, né, não?

Só Jesus salva!

– É, mestre, só rindo, mesmo. Mas o senhor não sabe da missa um rosário! Se a Compadecida aparecer por aqui terá um enorme trabalho na hora de fazer a defesa dos condenados… E desta vez o dito estará mais do que provado: só Jesus salva! A violência cresce e fere que nem os espinhos do mandacaru no meio da caatinga. Muitos coletivos assaltados, casas arrombadas neste Recife e Pernambuco de meu Deus, assaltos em paradas de ônibus, donde se leva um tantinho de nada de quem quase nada tem, estupros, violência doméstica, feminicídio… Mata-se na mesma velocidade que as carreiras de bala de uma metralhadora. O Pacto pela Vida, coisa do seu tempo por aqui, deve ter tido a validade vencida e estamos entregues à própria sorte, professor. Eu penso, penso, me viro pra ver se sai uma reflexão… Mas, neste caso, o penso fica torto e eu não encontro uma saída.

Velha infância: quando pipa era brinquedo e criança era criança

– Olhe, essa menina, estava aqui pensando na cena do julgamento da minha obra, que você conhece muito bem, e penso que o diabo não ia conseguir salvar ninguém dessa vez, pelo que você me conta. Acho até que ele ia precisar dos ‘décimos’ do inferno, porque os quintos já estariam todos ocupados, não é, não?

– Então, não é, mestre? A coisa está indo de mal a pior. Às vezes, não dá vontade nem sair de casa. Mas aí a gente lembra que um dia a menos, são dez anos a mais para se aposentar, se houver aposentadoria, então a gente segue na peleja…

– Como é, essa menina? Se houver aposentadoria? E a aposentadoria não era um direito do trabalhador? Como agora se trabalha até cair os dentes? Do jeito que você me conta os sucedidos por aí, eu tenho pra mim que o inferno subiu, tomou o rumo acima da terra… O tinhoso botou o caldeirão pra ferver e está preparando a sopa… só pode!

– É, professor. Isto é coisa pra mais um causo, falemos noutra horinha. Mas, além de tudo o que a gente está vivendo, das guerras do mundo, daquelas internas, do descaso do poder público, das dificuldades na luta pela sobrevivência, das intempéries naturais, ainda tem que aturar a própria falta de educação e cuidado do povo para com o seu semelhante, com o ambiente. Se o senhor soubesse a quantidade de lixo que a população espalha pelas ruas, nas estações de transporte público, nos córregos e rios… E depois quer cobrar das prefeituras quando se dão os alagamentos, quando as enchentes levam tudo correnteza afora… Se a gente pudesse ser um tantinho que fosse mais cuidadoso do entorno, haveria menos prejuízo e mais vidas salvas… É certo que ainda tem gente de bem, querendo construir o melhor, que ainda pensa no seu semelhante, que promove a paz e talvez o rebanho ainda tenha salvação, quando tiver que cumprir a sua sentença, mas são poucos para tantos condenados.

– Ah, pelo menos isso, essa menina. O encontro com o único mal irremediável é certo para todos nós, ninguém escapa. Eu mesmo sou prova viva dele… Eita… nesse caso, sou prova morta. Mas se o povo quiser, se salva.

– Mestre… está difícil, mesmo. Eu penso, penso, e não me sai um clarão de entendimento, como diria João Grilo. Até o Capitão Severino estaria de mãos atadas, a sua papo-amarelo não daria conta. A peixeira de Vicentão… vixe! Não passa de uma faca de pão, tamanha é a balbúrdia, o excesso de absurdo que se dá por cá.

– Mas repare, essa menina, nada de querer chamar o Capitão Severino, Cabo 70, Vicentão… Você iria se igualar a todo esse povo descuidado do outro. Iria ser mesminha àqueles que tiram a vida do seu semelhante, alegando a ordem de Deus, em nome de uma religião que nada disto prega. É tudo uma cambada de desordeiros, fingidores de moralidade. Deixe este povo pra lá, quem nem pra dar gosto ao Cão eles servem. Eu sei que o caso exige reflexão e nem mesmo as inocentes e engraçadas artimanhas do meu João Grilo podem nos arrancar o riso frouxo. Talvez, só mesmo as lorotas de Chicó podem nos servir como engodo pra gente ganhar tempo enquanto pensa numa saída mais justa para todos. O caso é pedir inspiração divina, aumentar a fé, e seguir firme nas suas convicções de amor e respeito ao seu semelhante. E rezar muito… para que o Pai volva o seu socorro sobre os inocentes, sobre os que perdem a vida, sobre os que sofrem injúrias, perseguições, ameaças… sobre os que choram a morte dos seus, sobre os que sofrem violências, sobre os padecem com a miséria. Eu sei que a coisa está ruim, que o diabo está com a corda toda, mas Deus sempre arranja um jeito de a tudo transformar e não há escritor da vida maior ou melhor do que ele.

– É, mestre, Ariano… Eu volto a refletir que a arte tenta imitar a vida, mas a história que estamos vivendo tem enredos e personagens tão extraordinária e cruelmente reais, que não há ficção capaz de atribuir mera coincidência em qualquer que seja a semelhança…

– Não se amofine, não, essa menina! O nosso povo pernambucano é lutador, é o Leão do Norte, botou pra correr uma ruma de cabra safado em tantas revoluções, até as mulheres de Tejucupapo venceram o inimigo, não foi, não? No final de tudo, vai ser como Deus quer… Eu não sei como… só sei que será assim…

 

Por Ediane Souza

Em “Divagando”, Ediane Souza vaga por suas memórias e por memórias coletivas do recifense, do pernambucano. 

 

 

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