Para uns, contos de Dona Carochinha; para outros, lendas; outros tantos acreditam piamente, porque têm um amigo, que é primo de um irmão de outro amigo, que jura que a mãe da prima do amigo da irmã dele viu…

Ocorre de ser assunto muito publicado, pesquisado e até roteirizado, mas é bom conhecer o olhar de cada um sobre o tema… Ou, quem sabe, suas próprias visagens… Dá medo, mas bora falar dos ‘malassombros’ que nos cercam desde os tempos que as meninas de Recife usavam marrafas nos cabelos e os meninos usavam sapatos Cavalo de Aço?

Era ‘assustado’ que chamava, era? Como se fazia festa surpresa nos anos 80

Lá pelos idos de 1950, Gilberto Freyre lançou o livro Assombrações do Recife Velho. A obra fez tanto sucesso que virou referência para os contos assustadores de pesquisadores e curiosos que tratam das coisas do outro mundo. A cidade até ganhou roteiro turístico, o Recife Assombrado, que há 18 anos assusta o povo contando os causos e passando pelos lugares de origem destes. Vixe Maria! Creiemdeuspai! Quero nem ver!

Mas… É lenda ou imaginação?

Aqui pra nós, alguém já viu alguma assombração? Graças a Deus, ver, ver, ver mesmo eu nunca vi, mas sempre me borrei de medo de dar de cara com algumas delas, até porque ouvi cada história que vocês nem podem imaginar. Dão duvida? Vou passar por algumas aqui, acerca das quais ouvi, delas morri de medo e confesso que vou ter que rezar muito hoje para não dar de cara com nenhuma delas nem em sonho. Vou logo dizendo que acredito, respeito, que é para não se zangarem comigo…

Nos banheiros das escolas…

Quem nunca ficou com medo de ir ao banheiro e dar de cara com a Mulher do Algodão? Ela frequentava os banheiros das escolas, assombrando a criançada. E não era coisa só de Recife. Muitas outras cidades pelo Brasil afora viveram seus dias de susto com essa aparição. Eu não ia ao banheiro da escola sozinha nem a pau! Eita… Deu vontade de fazer xixi… E agora? Ainda bem que tem muita gente aqui na empresa. Ufa!

7 lendas urbanas do Recife pra você ler na sexta-feira 13

Lá vem o homem do saco. Menino, entra!

Nada me metia mais medo do que o Papa-Figo. Ouvi tantas histórias dele, não só contadas, mas juradas reais, que não podia correr um boato no bairro de que um homem estava andando pelas ruas, com um saco de açúcar nas costas, raptando crianças, que eu não queria sair de casa nem para comprar o pão, na padaria da esquina.

Na minha época de adolescente, era o homem do saco que representava tal criatura. Anos depois, um ‘carro preto’ passou a ser o instrumento para os raptos das crianças, e até hoje, vez por outra, os boatos tomam conta dos bairros, com novas investidas destes seres, que hoje já não são mais tão desconhecidos e misteriosos, posto que a maldade humana é crescente, sabemos bem, e infelizmente, a realidade dá vida às lendas em muitos casos.

O povo Amorim…

Voltando às assombrações ‘de verdade’, já ouviram falar no Homem do Amorim? A minha saudosa mãe, que Deus a tenha, jurava que conhecia uma família de Amorins, moradora dos arredores da casa dos meus avós, que sequestrava mulheres em fase de lactação, para amamentarem seus filhos até que o leite virasse sangue!

Reza a lenda que se tratava de hemofílicos, cuja doença era pouco conhecida e se dizia, pelo conhecimento da medicina dos ancestrais, que a cura estaria em beber o sangue fresco de outro vivente. Ui! Lembrei-me agora de que eu conheço alguns Amorins… vou pensar dez vezes antes de marcar encontro com eles…

E tome-lhe carreira e rasteira!

Quem nunca passou a noite em claro, com medo de que embaixo da cama estivesse a Perna Cabeluda? Ou mesmo quem em suas caminhadas noturnas não teve medo de topar com ela escondida numa moita e levar aquela pisa?

Apesar de o escritor Raimundo Carreiro afirmar que a sujeita é uma criação sua, com base numa história meio torta de um colega de redação do Diario de Pernambuco, o fato é que a Perna Cabeluda ganhou notoriedade no estado, foi matéria do até hoje famoso Bandeira Dois, narrado há época pelo saudoso Gino César, e eu mesma ouvi várias histórias de pessoas conhecidas, pelos arredores da casa dos meus avós, que não só tinham visto, mas também tinham sofrido os seus açoites.

Cruz credo! Gosto nem de me lembrar! Está repreendida, em nome de Jesus! Passo nem perto de uma touceira de capim hoje!

Assoviou na mata… já sabe, né?

Tinha também o Curupira… uma criatura que mora nas matas e as protege dos intrusos. O meu tio, que gostava de caçar, atestava, por Jesus, que a criatura imitava o assovio dos caçadores, para enganá-los, e estes seguiam as suas pegadas, sem se darem conta de que seus pés, que eram voltados para trás, não estavam indo, mas vindo em sua direção.

Arrebata, Senhor! Danado é que eu moro próximo a Dois Irmãos e do 3º andar admiro a sua mata. Vôte! Chego nem na janela hoje à noite! Vai que o bicho se pendura numa árvore e acena pra mim, só pra me apavorar!

É noite de lua cheia, se esconde, não, visse!

Outro que me mete medo até hoje, creiam, é o Lobisomem. Quando eu tinha uns 9 anos, vovô contava várias histórias de filhos amaldiçoados, que viravam bichos em noites de lua cheia, como castigo por serem maus para os seus pais.

Como ele trabalhou e morou na Usina Tiúma, desde os 8 anos de idade, contava ter visto o filho único de certo fazendeiro da região sair em noites de lua cheia, às sextas-feiras, e voltar ao amanhecer, se transfigurando de lobisomem para homem.

“Eu tinha muita pena dele, minha neta, porque era um moço tão bom” – dizia ele. Certa feita, ao me contar uma história sobre uma mulher, moradora das margens do Rio Jaboatão, que virava cabra porque tinha batido muito na mãe dela, eu juro que passei a noite a ouvir, com estes ouvidos que a terra há de comer (daqui a uns 35 anos), a mulher-cabra rua acima e rua abaixo, berrando como uma louca. Vai-te só!

O fantasma do Açude do Prata… Ui… é bem pertinho lá de casa…

Conhecem Branca Dias, uma judia, senhora de engenho, que foi levada de Recife e condenada pela Inquisição, em Portugal? Estou certa que sim, pois muito se ouve falar dela, já que ronda o Riacho do Prata, lá no Horto de Dois Irmãos, protegendo o seu tesouro, ali jogado antes de ser levada do seu casarão.

Além de jurar já tê-la visto, o povo ainda garante que ela levou uma sinhazinha que estava fazendo simpatia à beira do riacho, tentando ver o rosto do seu futuro marido refletido nas águas, numa noite de São João.

O açude está lá, e mesmo apesar de o Horto estar em plena atividade, o local é deserto, coisa que fantasma gosta; o seu antigo casarão também permanece intacto… e tu duvidas que ela apareça por lá visitando os viventes? Eu não digo que sim nem que não… só não quero vê-la, nem as suas pratarias, muito menos a sinhazinha sumida.

Tudo isto poderia até ser lorota de Chicó, rodeada pelas desconfianças de João Grilo, mas como ele bem dizia: “eu mesmo num me admiro mais de nada”! Não vi, não quero ver, tenho fé de que nunca verei… e não me perguntem mais nada, porque eu não sei… só sei que foi assim!

 

Por Ediane Souza

Em “Divagando”, Ediane Souza vaga por suas memórias e por memórias coletivas do recifense, do pernambucano. 

 

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