Os fluxos que seguem nos rios cantados por João Cabral de Melo Neto
São sujos como meus pensamentos límpidos
Estremecem minhas extremidades
Às vezes de virilidada enrijecida
Outras vezes de pânico

Escolho, sempre que posso, estremecer de dor
Porque escapo da culpa
E sofro por antecipação

Há algo mais gostoso do que o sofrimento por antecipação?
Só pode ser maravilhoso
Porque todos nós o perseguimos assiduamente

E vamos nos enrijecendo tanto
Tanto
Até amolecer de vez o orgão vital

Não o pênis
Não o coração
Mas o dedo responsável pela arte

Quando o sujo Capibaribe declamado por João já não se confunde mais com o fluxo das nossas veias

Não somos capazes de mais nada

Apenas nos esfregamos como um adolescente
Em outros corpos
E ejaculamos em nós mesmo
Matando a cada encontro a esperança do outro.

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Diego Garcez é sobretudo poeta, mas encontrou na crônica uma forma de diálogo mais palatável para o mundo das pernas aceleradas. É formado em relações internacionais, empreendedor e entusiasta do Porto Digital, corredor nas horas vagas e pai em tempo absolutamente integral.

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