Havia um ET do meu lado. Ele na janela, eu na poltrona do meio. Voo tranquilo. – O que são esses troços vermelhos lá embaixo? – Ali? -Sim, aquelas coisinhas aglomeradas. (aglomeradas? Mas olha o português desse nanico!) – São construções. – Construções? – Sim, residências onde pessoas, humanos como eu, vivem. – Sério? Os humanos se gostam tanto que procuram viver em comunidades? – Bom, não. – Não? – Não. – Como não? Vocês não amam uns aos outros? (Esse cara é Jesus?) – Uns se amam, outros se odeiam, alguns se aturam, a maioria nem se conhece… – Mas como isso? Os humanos se juntam, vivem em comunidades, mas não são próximos? – Para você ver né etezinho? hehehe… (pense nuns olhos arregalados! Quer dizer… Sei lá, olhos grandes danados!) – Não entendo. Tanta terra livre vemos aqui de cima… – Tenta entender não, cara. Tem um monte de humanos tentando ao longo das eras e nenhum deles conseguiu plenamente… Encostei a cabeça na janela. Aí ouvi a comissária de bordo. – Senhor, o senhor deseja um lanche? – Moça, cadê o cara que estava… (Parei. Eu estava na janela!) – O senhor está bem? – Moça, ou o cara foi embora… Ou o ET sou eu!!!

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Há diversas explicações para a tendência humana em conviver em sociedade e sobre os porquês do caos cotidiano em suas convivências. Sim, mas às vezes fica difícil entender as “razões”… Basta analisar os absurdos que acontecem nas ruas, prédios e condomínios e, mais ainda, quando analisamos os índices de violência na sociedade. Vamos focar no Brasil…

Segundo o Atlas da Violência 2018, organizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica), as áreas mais pobres são as que mais sofrem com a violência.

Em 2016, por exemplo, ano em que o Atlas atual aludiu, a taxa de homicídios de negros foi duas vezes e meia superior à de não negros (16,0 por 100.000 habitantes contra 40,2). Só entre 2006 e 2016, essa taxa de homicídios de negros cresceu 23,1%, enquanto a taxa entre os não negros teve uma redução de 6,8%.

Ou seja, negros e pobres são os mais vulneráveis. Ou seja, agrupamo-nos, segregamos-nos e mantemos esse formato tosco de vida “coletiva”. Ou seja, só sendo um ET para questionar isso! (Será mesmo?)

Foi do alto do avião que vi, refleti e escrevi. Vale a pena cada um pensar em como pode ajudar a mudar essa realidade.

 

Sidney Nicéas é escritor e tem cinco obras publicadas, sendo a mais recente “Noite em Clara – um Romance (e uma Mulher) em Fragmentos”. Realiza palestras, workshops e oficinas de Criatividade e Escrita e é apresentador do programa “Tesão Literário”, na TV Pimenta (webtv). Contato: sidneyniceas@gmail.com.

 

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