É sabido, de acordo com a Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), que o primeiro cinema a exibir suas películas por estas bandas foi o Pathé, na Rua Nova, que àquela época se chamava Barão de Vitória.

Ele foi inaugurado em meados de 1909, e logo chegou o seu concorrente, o Cinema Royal, que, como não bastasse a concorrência, ficava na mesma rua, dois números à frente. E se deu uma briga de foice: se um exibisse 6 filmes, o outro logo aumentava a sua lista para 7. Esta peleja durou uns 11 anos, quando o Pathé encerrou as suas atividades, deixando o reinado do Royal durar por mais de 40 anos.

Não havia salas glamorosas como as de hoje, muito menos carregadas de tecnologia. Os tais 3D, 4D, 7D, 20D… Vixe! Nem pensar! Mas, no que se refere à quantidade, os cinemas de hoje em dia não chegam aos pés daqueles das décadas de 1970 a 1990.

De acordo com dados históricos, havia mais de 100 cinemas no estado, sendo em média 55 espalhados entre a capital e seus bairros: o Cine Glória, Cinema Brasil e Ideal (São José), Cinema do Pina (Pina), Cine Brasil (Cordeiro), Cine Torre (Torre), Cine Casa Amarela (Casa Amarela), Cinema de Afogados (Afogados), Cine Espinheirense (Espinheiro), Cine Encruzilhada (Encruzilhada) e muitos outros espalhados pela cidade e pelos bairros.

Não podemos deixar de mencionar o Cine Duarte Coelho e Cine Olinda, em nossa cidade irmã, ambos à espera do poder público, que lhes cure do abandono.

O recifense e as grifes dos anos de 1970 a 1980: que marca te marca?

Além daqueles já citados, tivemos também os mais frequentados, digamos assim: Cine Boa Vista (Paissandu), Moderno, Trianon, Art Palácio (Santo Antônio), São Luiz e Veneza (na Boa Vista), Astor e Ritz (Santo Amaro), e uma sala de exibição luxuosa, que funcionava no Edifício AIP, da Associação de Imprensa de Pernambuco, que exibia filmes de arte, o Cine AIP (Dantas Barreto).

Como eu sou um tanto mais novinha, vou falar das salas de exibição da minha adolescência e de como era ir ao cinema antigamente. O meu primeiro filme, por volta dos 12 anos, foi O Campeão (1979), exibido no Cine Boa Vista, que ficava na Praça Chora Menino, no Paissandu. Este cinema deu lugar a uma grande livraria e hoje abriga uma faculdade. Nele também assisti a quase todos os filmes de Os Trapalhões. Todos os anos eu esperava pelo lançamento do mais novo… Ai que saudade de Os Saltimbancos Trapalhões e Os Trapalhões na Serra Pelada… os melhores para mim…

Memórias de um Recife melhor que ele mesmo

No escurinho do cinema

Foi no Cine Boa Vista o meu ponto de partida para o escurinho do cinema. Eu, inocente, pura e tão somente vivendo a idade, fazia uso do cinema só para os filmes. Os mais avançadinhos da época iam, também, para namorar… isto quando não davam de cara com o lanterninha, que logo botava ordem na casa, aquietando os assanhados ou os colocando para fora do cinema, caso insistissem em infringir as regras.

Mas os próprios cinemas davam corda para os encontros românticos. Quem nunca namorou numa cabine do Veneza ou do São Luiz, com cortinas vermelhas, estofados macios, acolchoados, almofadas aveludadas…? Quem nunca marcou encontro no cinema e dispensou os filmes para ficar namorando às margens do Capibaribe, na Rua da Aurora? Ou tomando um lanche na lanchonete do São Luiz? Eu, não… infelizmente Emoji.

E o filme? Ah, o filme se podia assistir depois… Naquele tempo, pouco importava o horário da sessão, afinal, se podia chegar à metade dela, assistir ao filme a partir de então, até o final, e ficar para a sessão seguinte, para conhecer o início da história. Que louco, não acham? Mas era assim mesmo.

E se não houvesse mais cadeira desocupada? Sentávamo-nos nas escadas, no meio da rampa, abaixo da tela… E se o filme fosse bom? Pagaríamos para revê-lo? Não precisava. Bastava ficar para a sessão seguinte. Não precisava nem sair do lugar. Aliás, assistíamos a quantas sessões aguentássemos… ou até o cinema fechar.

É, pessoal… Ir ao cinema antigamente era um passeio dos deuses, especialmente para os aqueles cuja mesada não passava de meros caraminguás contados. Euzinha estou entre estes. Era tipo ir ao show do U2, em plena Arena Pernambuco. E sempre voltávamos com muita história para contar além do filme assistido. Dava até para criar a nossa própria película.

Certa feita, quando da exibição de Dirty Dancing, uma moçoila, empolgada em estar vendo Patrick Swayze ‘tão de pertinho’, lançou mão da sua Kodak, com flash e tudo, e desembestou a tirar fotos dentro do cinema, como se fosse uma metralhadora maluca, nos cegando a todos com o efeito do flash naquele escuro. Não preciso falar da reação do público, não é? Só para constar: matuta! – foi o xingamento mais simpático que ela recebeu. Já pensaram se fosse hoje dia: fazer uma selfie num telão em 3D, bem na hora que o T-rex escapasse da jaula?EmojiEmoji

Os filmes exibidos na TV, a era do videocassete e do DVD, o boom das locadoras afastaram um pouco a minha geração do cinema e, aos poucos, as salas de projeção foram perdendo espaço e se perdendo no tempo…

Hoje, exceto pelo São Luiz, o sobrevivente único daquela época, e que abriga um dos mais famosos festivais de cinema do País, o Cine PE, os cinemas deram lugar a grandes salas de exibição, incrustadas nos shoppings da cidade. São excelentes, high tech e tal, mas longe do charme dos cinemas do passado e do romantismo que imperava entre uma sessão e outra… Eu continuo cinéfila, mas, já que a modernidade me permite, confesso que prefiro o conforto do meu sofá para apreciar uma boa película…

E você? Achou o maior mico assistir ao filme da metade para o fim e depois retomar do começo? Já pensou em poder rever o filme sem sair do cinema?

Conte-nos PorAqui suas experiências cinéfilas! Você é do tempo do ‘lanterninha’? Ligado na Imax? Ou fissurado nas salas X-D?

 

Por Ediane Souza

Em “Divagando”, Ediane Souza vaga por suas memórias e por memórias coletivas do recifense, do pernambucano. 

 

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