– Alô, tás podendo falar?

– É rápido? Se for, manda tua história.

– Aquela parada já chegou? Tá na mão.

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– Então, man. Já falei com o cara e deve chegar no sábado. Agora, pra garantir mesmo, tem que pagar o adiante pra ele reservar. Tu sabe que a turma aqui “come com farinha”, né?

– E eu não sei. Fui em três picos agora e tava todo mundo de baixa. Ninguém tinha nada. Zerado. Sabe o que é isso, né? Pós-São João. Mesma coisa depois do carnaval.

– Monstro, é assim mesmo. Ainda que tenha mais gente produzindo, a galera aqui é muito cabeçuda e consome o que tiver.

– Bicho a única saída é legalizar. Tem que permitir o comércio, velho. Porque a turma libera veneno e proíbe um negócio desses? VENENO!

– Meu irmão, eu já perdi as esperanças, Tem muitos interesses obscuros por trás. Tem gente graúda, multinacional ganhando rios de dinheiro com essa proibição. Sem contar a indústria farmacêutica.

– Velho, vamos mudar de assunto, porque bate uma tristeza só de pensar que até pouco tempo atrás, era permitido.

– Pois é. Mas deixa eu confirmar aqui contigo antes de falar com o cara: uma palma de banana prata, um quilo e meio de cenoura, três ramos de cheiro verde, quatro abacates, três molhos de alface e cinco de rúcula, né? Tudo da feirinha orgânica, certo? Sábado, vou lá na banca dele, assim que o cara chegar, e passo na tua casa pra deixar as coisas. Se brincar, ainda tomo esse café da manhã contigo e levo uns ovos de capoeira e um queijo de coalho primeira de luxo.

– Pronto, combinado. Depois tu me passa teus dados bancários que eu faço a transferência, vi?

 

Daniel Barros é recifense, formado em Letras pela UFPE. Atualmente mora no Derby, mas é cria da CDU. Come e bebe em demasia. Já tomou muita cerveja no Mercado da Encruzilhada.  Nos intervalos, anda de ônibus. Nesta vida, veio a passeio, mas ficou preso em Abreu e Lima. É conteudista colaborador do PorAqui para desperdiçar seu tempo.

 

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