A beleza é uma escolha, Ignácio”, diz o personagem Ademir, logo no início do romance Felicidade (Patuá) de Wellington de Melo, para em seguida uma forte imagem deixar claro que a beleza dita pelo personagem-narrador é a grande metáfora política para os tempos sombrios que o país está atravessando.

O chão da barraca começa a trepidar às cinco da manhã. Uma garota passa correndo, rosto ferido, salpica lama ao pisar numa poça. Companheiros passam correndo. O coice no ombro, o chão no rosto, a lama outra vez. O céu cinza entrecortado, pombos de chumbo e acrílico zunem. O dia avança com cassetetes. Através de escudos, projéteis alçam voo, pássaros de bafo incandescente”.

Meio ambiente é tema de livro infantil lançado por ex-moradora das Graças

O livro fala do Movimento Cidade Plana, com um grupo de 40 ativistas lutando contra a verticalização da cidade por meio de saltos suicidas dos edifícios mais altos da capital, com a ação sendo transmitida ao vivo pelas redes sociais.

O objetivo é chamar atenção da sociedade para um grave problema social, que pretende tornar a cidade o paraíso de empreiteiros, magnatas e políticos inescrupulosos, através da especulação imobiliária, construindo altos prédios e complexos de luxo, excluindo as pessoas menos favorecidas.

Realidade x ficção

Felicidade é feito através da polifonia de vozes que causa um bom efeito narrativo para mostrar a força dos ideais do movimento, mas também a motivação particular de cada um dos personagens, todos eles com dramas pessoais.

É verdade que, por vezes, existe uma confusão, justamente por conta de tantos nomes citados. Mas isso não é um grave problema. A condução da história acontece pela memória de Ademir, que faz uma espécie de confrontação entre a realidade e a ficção criada pelo escritor Ignácio, seu ex-amante, já morto, que escreveu um livro sobre a vida de Ademir, a família e as relações incestuosas, de paixão e obsessão por Zê, a irmã trans.

Existe a motivação pela cidade, mas o enredo se sustenta pela relação humana entre os três personagens-chave, a partir dos traumas de Ademir, a relação com Zê e a traição de Ignácio. A vingança que o narrador pretende fazer contra o ex-amante também é um ponto importante.

A ficção de Wellington de Melo coloca o dedo na ferida, tratando de um tema em evidência, principalmente no Recife, que parece ter sido o cenário para o romance, embora não de maneira explícita, com elementos muito próprios do Movimento Ocupe Estelita, por exemplo.  O texto segue um fluxo não cronológico, que faz pequenas voltas ao passado, apresentando situações e histórias que resultaram na opção dos suicídios dos personagens, para dar a dimensão exata que o tema propõe.

O autor, que também é poeta, não poupa a linguagem como metáfora dessa situação-limite. O grupo briga pela permanência da memória da cidade, enquanto o outro lado (o poder financeiro, político e econômico) está preocupado apenas com o lucro que a verticalização pode proporcionar para empreiteiras e políticos inescrupulosos.  Mesmo apresentando situações tão pesadas, com corpos destroçados pela queda no asfalto, existe poesia no que está sendo mostrado.

“Larissa corre: o chão, a varanda, o chão a varanda, o chão varanda, o chãovaranda, janelas, o céu janelas, grito, céu se parte, tela escura. Vídeo ao vivo interrompido….

…Meu telefone vibra, chegam mensagens, mais vídeos, então, o zumbido. Olho para cima: outra sombra, outro anjo se lança, o mar murmura, geme, se abre. No asfalto, estrondo contra a rocha, mar vermelho, o líquido busca saída por todos os buracos do corpo. Encontra poste, pneu, rosto, outro. A multidão mergulha dentro da noite, a correnteza ganha pernas e mãos; a mulher tenta segurar a bolsa, o velho perde o relógio, a menina cai na calçada, a massa avança, sigo a correnteza; as vitrines se quebram uma a uma, as lojas começam a fechar as portas. O fluxo avança entre os carros, o cardume devora as ondas. Não há faróis nem gaivotas, fantasmas naufragados, sombras. Cada um deles em seu salto, em sua queda, só.”

O livro é cheio de metáforas que põem a cidade como um local passando por uma forçada transformação, por conta de interesses puramente econômicos, travestidos de desenvolvimento. Todos os 40 personagens se atiram dos prédios, mas a mídia tradicional não dá importância ao fato.

E quando dá, quase sempre é para marginalizar ou desconstruir a ideia do movimento. Antes dos saltos mortais os ativistas dizem nas transmissões ao vivo: “Olhe uma última vez para cima”, para mostrar que todos têm a responsabilidade pela desintegração deles, que abraçaram a causa com a própria vida, e, consequentemente, da história da cidade.

O romance lida com memória, esquecimento, morte e os limites da ficção, dentro de contextos éticos, para fazer uma dura crítica ao patriarcado e ao processo de gentrificação das metrópoles, retirando dos grandes centros urbanos a população de baixa renda para a entrada da faixa mais rica da sociedade dentro de projetos megalomaníacos.

Acabando, dessa forma, com o passado, na tentativa de uma ideia errada de futuro. Felicidade é um romance interessante e necessário, escrito por alguém que tem muitos recursos na manga, e vem buscando se estabelecer como uma voz original, com obras que tiram o leitor do lugar de conforto.  Um detalhe curioso. O livro não tem laminação (proteção). A partir do momento que ele é aberto, se desgasta e se decompõe com o tempo,  como a própria felicidade.

Maturidade

Wellington alcança maturidade nesse segundo romance (o primeiro foi o Estrangeiro no Labirinto), sem que para isso precise mostrar o seu valor por meio de exibicionismos e experimentações desconexas.

O romance não deixa de ser um livro recheado de suspense, de cenas de tirar o fôlego, através da forte crítica social, na luta radical de um grupo por uma causa. É certeiro na sua mensagem. Não à toa o nome seja exatamente Felicidade, um título preciso e irônico.

Curiosamente, essa palavra só é citada apenas uma vez, no final, como se a verdadeira felicidade de cada um dos personagens só pudesse ser alcançada totalmente no último ato de rebeldia, o suicídio. Ou então para dizer, como está na sinopse, que os seres deste romance, “annakareninamente” felizes à sua maneira, estão dispostos a tudo para demonstrar que “Felicidade” é a vida [falsa] que você leva.


Ney Anderson é jornalista e escritor. Escreve resenhas sobre literatura brasileira contemporânea no site Angústia Criadora. que você passa a acompanhar PorAqui. Participou da antologia Os novos escritores pernambucanos do século XXI  e tem contos publicados nas antologias Contos de Oficina e no Suplemento Pernambuco. Está escrevendo seu primeiro livro. Mora em Olinda.

 

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