Oi, me chamos Lucas e tenho 3 anos.

Ainda estou tentando entender direito o que os adultos chamam de mundo, enxergo tudo aqui de baixo, vejo muitas pernas aceleradas e pneus de carro, mas ainda assim estou gostando muito desse tal de mundo.

A parte mais feliz do meu dia é quando papai e mamãe se abraçam comigo no meio, eles dizem que eu sou queijo do sanduíche deles. Nesse momento meu coração se enche de alegria e me sinto protegido, me sinto forte. Tenho certeza que nada pode me atingir quando me sinto assim, dentro do amor deles.

Papai e mamãe muitas vezes também me colocam sentado no meio deles e contam histórias, ontem eles me falaram de João e do seu pé de feijão. Estou até agora imaginando se aquele pé de feijão é capaz de chegar na lua….e o que tem na lua? Qual a cor dela? Será que tem cheiro? Eu acho que lá deve ser igual ao fundo da piscina da casa de vovó. Quando eu me abaixo lá no fundo, fica um silêncio e uma paz tão gostosa.

Recife 500 anos: vamos reunir, reviver e reinventar nossa cidade

Adoro quando os outros adultos se agacham, olham nos meus olhos e conversam comigo, me sinto tão importante, sinto que faço parte desse mundo. Na maioria das vezes perguntam coisas que não entendo muito bem, mas eu fico imaginando o que pode ser e sempre respondo algo. Gosto de conversar com eles e aprender palavras novas.

Inclusive todo dia tenho tentado falar, hipopótamo. Só consigo pronunciar IPÓMO, mas uma hora sinto que vou conseguir falar essa palavra engraçada.

O que eu mais gosto mesmo é de brincar, principalmente brincar com outras crianças em lugares abertos, com espaço, onde eu possa correr. Eu adoro correr. Sinto-me transportando para um outro lugar, uma nova dimensão, todo meu corpo se torna um novo corpo, responde a estímulos diversos, sinto coisas novas, consigo até pensar melhor.

Agora entendo melhor esse negócio que chamam de mundo, deve ser o nome de um parque maior do que o que papai me levou no último fim de semana, lá aprendi a ser uma pessoa melhor. Eu conheci crianças novas, muitas diferentes de mim. Teve um povo fantasiado e colorido fazendo umas brincadeiras bem legais, mas uma hora ficou chato. Foi quando me encantei por uma formiga e fiquei seguindo ela por bastante tempo. Em determinado momento só quis correr, correr, correr…… e logo em seguida quis colo. Papai me abraçou, só lembro de ter sentido o cheiro dele e depois dormi.


Esse foi o exercício de me imaginar de novo na pele de uma criança de três anos de idade. Inspirado fortemente num programa chamado ” Urban 95″ da Fundação Bernard van Leer que é apoiadora da ARIES – Agência Recife para Inovação e Estratégia, responsável pelo projeto Recife 500 anos, e meu local diário de trabalho

O programa propõe o redesenho de espaços públicos a partir da perspectiva visual de 95cm que é a altura média de uma criança saudável de 3 anos de idade. O espaço público é onde se aprende o coletivo e a cidadania, o espaço público é a porta de acesso para humanidade e também para a sobrevivência diária.

A criança é o berço da vida e a linha de comunicação mais direta que temos com o futuro. Existem inúmeras pesquisas científicas que comprovam que investir na 1ª Infância (crianças de 0 a 6 anos) traz um retorno social e econômico transformador. Temos muito o que falar sobre esse assunto e esse é apenas o texto inaugural de outros textos que escreverei abordando o tema.

 

Diego Garcez é sobretudo poeta, mas encontrou na crônica uma forma de diálogo mais palatável para o mundo das pernas aceleradas. É formado em relações internacionais, empreendedor e entusiasta do Porto Digital, corredor nas horas vagas e pai em tempo absolutamente integral. Facebook: Diego Garcez | Instagram: @garcezdiego

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