Minha geração sofre de “escolhiose”: angústia causada pela constatação de que cada opção elegida significa a renúncia “daquilo que poderia ter sido, mas não foi”.

É uma dor crônica que acomete as pessoas que não foram educadas a viver em um mundo com possibilidades mais numerosas do que as oferecidas aos nossos pais e mães. Os sintomas iniciais podem incluir aperto no peito, peso nas costas e nó na garganta. Quando não tratada adequadamente, pode evoluir até causar a falência múltipla das esperanças.

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Ao contrário dos que muitos pensam, ela também se manifesta nas escolhas mais simples, não apenas em casos de vida ou morte.

A escolhíose é aquela sensação de desespero que bate quando a gente olha para o relógio, constata que são 18h e tem que escolher se pega a faixa local ou a principal da Agamenon.

Aflição, ansiedade, paralisia

A aflição que nos pega de jeito enquanto pensamos se deveríamos largar tudo para “trabalhar com o que amamos” ou pagar o cartão de crédito, a internet do celular e a NETFLIX em dia.

A ansiedade que acompanha a decisão de entrar em um relacionamento ou sarrar três vezes por semana, seguindo as recomendações da Organização Mundial de Saúde – OMS.

Diante desses dilemas, a paralisia é a reação mais comum. Não escolher é não abdicar de viver, oniricamente, ao mesmo tempo, essas duas realidades.

Queremos estar em múltiplos universos, num multiverso, em que a palavra renúncia não faça parte do vocabulário. Queremos o compromisso e a liberdade, o resultado e a procrastinação, carros nas ruas e trânsito livre. Como isso é impossível, convalescemos.

O único remédio para escolhiose que eu conheço se chama tomarparassiareponsabilidadenol. Infelizmente, parece que esse medicamento está em falta no mercado.

 

Daniel Barros é recifense, formado em Letras pela UFPE. Atualmente mora no Derby, mas é cria da CDU. Come e bebe em demasia. Já tomou muita cerveja no Mercado da Encruzilhada.  Nos intervalos, anda de ônibus. Nesta vida, veio a passeio, mas ficou preso em Abreu e Lima. É conteudista colaborador do PorAqui para desperdiçar seu tempo.

 

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