Chegamos ao mês de junho, aquela época conhecida como junina, um importante momento do calendário para os países…. nórdicos. ?

Apois é isso, com a chegada do solstício de verão (alguém lembra da aula de geografia?), que é mais ou menos do dia de hoje (19) para amanhã (20), os povos agrícolas tradicionais da europa setentrional e do atlântico norte celebravam a época da colheita e da fertilidade.

Daí você me pergunta o que isso tem a ver com a festa de São João da sua família e ainda mais com a tradicional fogueira que é acesa pelo seu avô para assar aquele milho e queijo coalho que não derrete. Rapaz, segundo alguns relatos, parece que tudo e mais um pouco. Pois desde aquela época, é através do fogo que a fertilidade da Pachamama se sente convidada para a festança.

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Para quem acredita, a fogueira se torna então uma espécie de camisa 10 que distribui o jogo entre o mundo carnal e o espiritual. Em torno dela, antepassados promoviam festividades em agradecimento à colheita proporcionada pela Mãe Terra e pelas divindades associadas à ela.

Assim, como forma de simulação da natureza, tais rituais politeístas incentivavam também a fertilidade dos povos, a sensualidade e uma extrema permissividade sexual. ?

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São João Batista batiza Jesus Cristo.

Acontece que o cristianismo chegou um pouco atrasado na festa e o monoteísmo da Igreja Católica romana quis “mudar um pouco” as coisas. Assim, várias peças foram mexidas no tabuleiro com a intenção de abolir as práticas politeístas que estavam indo muito bem obrigado. A ideia era conduzir a sociedade a um novo pensamento religioso, “incentivando” à adesão em troca de privilégios sociais.

Sendo que a ideia de sacralizar o que eles entendiam como profano não vingou, pois o ardor das celebrações de fertilidade continuava a ocupar e resistir na surdina. Daí foi preciso mudar a estratégia, e comendo pelas beiradas, a Igreja Católica resolveu jogar com a mesma linguagem e compatibilizou as festividades cristãs com os marcos cósmicos que guiavam as crenças pagãs.

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Portanto, a Páscoa está relacionada à primeira Lua Cheia da primavera e o Natal ao solstício de inverno. Como alternativa para pegar carona na festa da fogueira, a Igreja Católica aproveitou o solstício de verão e o associou ao nascimento de João Batista, homem que teria anunciado a chegada de Jesus Cristo ao mundo.

A pregação messiânica de João Batista serviu de base ética para o nascimento das festas joaninas, conhecidas como juninas. O culto a São João Batista assegurou que os rituais de fertilidade pudessem absorver os ensinamentos cristãos, teoricamente enfraquecendo os comportamentos compreendidos como profanos, assim o São João passou a ser visto como uma celebração purificadora.

O fogo que resiste até hoje

O uso do fogo na Guerra de Espadas é tradição junina na Bahia. Foto: Divulgação

Como prática, o catolicismo teria ensinado a relação entre São João Batista e os elementos fundamentais das festividades politeístas, como a fecundidade, a ligação com a terra e a fartura de alimentos, com a intenção de neutralizar a relação dos povos com outros deuses. A fogueira teria sido por muito tempo associada a atos pecaminosos por parte da Igreja Católica, com a intenção de extinguir a prática.

Sem conseguir sobrepor a tradição cultural, a Igreja assumiu a fogueira como “fogo eclesiástico”, construindo assim uma nova simbologia ao fogaréu junino, interpretando-o como uma combustão sagrada evocada dos céus e a própria personificação de São João Batista, digno de orações, submissões ao sacerdócio e, claro, controle dos corpos lascivos.

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Mas como o povo é teimoso e cultura é madeira que cupim não rói, a ideia da Igreja Católica foi absorvida apenas em partes por alguns fiéis, e o sincretismo da festa junina preservou muitas características dos festivais pagãos. Como por exemplo, as danças em grupo, os banquetes com comida da agricultura da época, a paquera que rola solta nos ralabucho por aí e a própria prática da fogueira e do soltar fogos.

Fonte: “Uma interpretação analítico-comportamental de aspectos culturais e simbólicos da fogueira de São João” (Anderson Jonas das Neves).