Quem costuma aproveitar o São João do Recife percebeu uma gradativa diminuição da festa junina na cidade nos últimos anos. Com colorido, alegria e movimentos impecavelmente coordenados, as quadrilhas juninas mantém o seu brilho, em meio a um cenário de crise, e marcam lugar como a mais importante manifestação popular do ciclo junino da cidade.

Movidos a paixão, os quadrilheiros ensaiam e trabalham o ano inteiro para manter acesa a chama do São João do Recife. “Quando termina o São João já se começa a pensar no tema do ano seguinte”, diz o presidente da Federação de Quadrilhas Juninas de Pernambuco (Fequajupe), Antônio Amorim. Os ensaios, normalmente, começam em meados de novembro e vão se intensificando com a aproximação do mês de junho.

Finalmente saiu! Confira a programação de shows no Sítio da Trindade

Hoje em dia, as quadrilhas juninas vão muito além do casamento matuto e do alavantu e anarriê. Colocar uma quadrilha em quadra exige um trabalho sério de pesquisa sobre tema, repertório, figurinos, coreografia. Quem entra para ganhar, tem que pensar a coisa de um jeito profissional.

Para isso, a função do projetista, ou diretor técnico, é essencial. A figura do projetista é equivalente à do carnavalesco para a escola de samba. Ou seja, é ele quem define o tema e como desenvolvê-lo da melhor forma.

George Araújo é arquiteto, urbanista, designer e projetista da escola campeã do campeonato do Recife no ano passado, a Dona Matuta. A quadrilha já tem 13 anos e foi fundada por ele e um grupo de amigos moradores do bairro de San Martin. Hoje, a agremiação reúne integrantes de diversos bairros do Recife.

Dona Matuta: a quadrilha junina orgulho de San Martin

George é arquiteto, designer, professor e projetista da campeã de 2017

George concilia a função de projetista com o trabalho de professor universitário e, em breve, com o doutorado em Desenvolvimento Urbano. O gosto pela pesquisa é fundamental para um diretor técnico.

Este ano, a Dona Matuta apresenta o tema “De tudo que há no mundo”, uma homenagem Feira de Caruaru. A escolha do enredo é fruto de uma exaustiva pesquisa realizada por George.

Esse ano, outros temas vêm chamando a atenção do público. A quadrilha Origem Nordestina, única agremiação comandada por uma marcatriz, inovou ao colocar em quadra o casamento de orixás. Já o casamento da Zabumba, de Camarigibe, finca o pé no poliamor e na diversidade, trazendo casamentos a três, em versões hetero e homoafetivas.

Marcatriz Drika Alves é a única voz feminina nas quadrilhas do Recife

A Origem Nordestina traz um casamento de orixás (Foto: Facebook/Reprodução)

Coreôs

O fato é que, por conta das quadrilhas, muita gente acaba descobrindo talentos e novas profissões. “As quadrilhas são manifestações que mobilizam a comunidade, nesse sentido, a importância delas não é só cultural, mas social. É um ambiente de muita diversidade e que absorve e forma muitos profissionais”, observa Antônio Amorim.

Integrante do grupo de coreógrafos da quadrilha Dona Matuta, René Cabral é uma dessas pessoas. Ainda criança, foi convidado para dançar em quadrilha infantil no Ibura. E aí não parou. Hoje, ele é bailarino e coreógrafo profissional, além de professor de artes cênicas.

O papel do coreógrafo também é fundamental. Na Dona Matuta, as coreografias são criadas por um grupo de oito coreógrafos, entre homens e mulheres. “O grupo é formado por dançarinos da quadrilha, alguns tem alguma formação em dança, e outros não”, explica.

As coreografias são criadas a partir das orientações do projetista. Tudo, aliás, é pensado em conjunto: o repertório musical, os figurinos, a maquiagem. “Fazemos várias reuniões com todos os setores”, explica George.

Quarenta e duas quadrilhas participam do concurso da Prefeitura do Recife. A grande final será nos dias 29 e 30 de junho, no Sítio da Trindade.

Quadrilhas juninas do Recife
Sítio Trindade
Quinta e sexta (22), a partir das 20h
Sábado (29) e (30), a partir das 20h (final)