“Você tem que conhecer Nando”. Foi o que disse Dea, aquela da feijoada na lenha, quando perguntei quem poderia me contar de forma mais autêntica sobre o São João da Palha, festa de rua que acontece na Cidade Alta, em Olinda, desde o começo da década de 1970.

O início da brincadeira de nada tem a ver com algum tipo de inauguração solene, muito menos acordo de negócios entre partes. E sim por conta de um forrozinho que Nando inventou quando ainda morava na casa de número 32, vizinha de Seu Viana, na Rua da Palha, oficialmente chamada de Rua José Belarmino Silva.

Quintal de Dea: Panela de barro, intimidade e afeto em Olinda ❤️

“Estava chovendo muito e na casa da frente, onde morava Carol (vizinha na época), tinha uma garagem e fizemos o forró lá dentro”, relembra Nando, que abriu o portão de casa vestido com uma camisa do Segura a Coisa e – me permitindo entrar – ainda teve a gentileza de oferecer um honesto cafezinho sem açúcar, do jeito que eu gosto.

Nando (acocorado) ao lado de amigos em um dos forrós na casa 50. Foto: Acervo

De fala tranquila e paciente, Nando fechava os olhos ao tecer os fios da memória e nos contar os bons tempos de uma festa junina de rua que hoje parece se dissipar no tempo apesar de ser um dos arraiás mais cobiçados pelo comércio formal e informal do Sítio Histórico de Olinda.

Nando não mora mais na casa que recebia os primeiros arraiás da rua. Foto: Rodrigo Édipo/PorAqui

Os tempos áureos do São João da Palha teve como protagonista a casa de número 50, segundo lar de Nando na mesma rua e onde viveu por vinte e três anos. “A festa era feita de forma colaborativa, cada um levava uma comida e ficávamos na rua até o amanhecer”, relembra Dea, amiga de Nando de muitos carnavais, e que desde a década de 1990 reside na Palha.

Nando e Dea relatam a história do São João da Palha. Foto: Rodrigo Édipo/PorAqui

Fogueiras, comidas típicas e música popular faziam a festa do grupo de amigos e amigas que se reuniam na calçada de Nando todo São João com trajes típicos e farravam ao som de Gonzagão, Trio Nordestino, Marinês, Genival Lacerda e Jackson do Pandeiro.

A quadrilha que tomava quase toda a rua era no improviso, os casais formados para a dança se misturavam. “Era homem com homem, mulher com mulher”, complementa Nando.  “Às vezes tinha sanfoneiro, outro ano um coco de roda, brincava todo mundo junto”, relembra Dea.

A tradição do quentão e a modernidade

Carro-chefe do São João da Palha, o quentão era distribuído para todo mundo.

Segundo Dea, a bandeira do autêntico São João da Palha era o quentão feito por Nando. “Ele ficava na cozinha por horas, no tempo dele, fazendo a bebida, enquanto a gente brincava lá fora”, relembra. “Eu fazia a birita da noite”, relembra Nando que dribla a pergunta sobre a receita. “É fácil achar, é só ir no google”, diz.

Além do tradicional quentão que era distribuído de graça, quem optava por uma gelada também era contemplado na festa. “A cerveja era vendida pelo nossos vizinhos Nininho e Régis”, conta Nando. O segundo se foi há quatro anos e era o marido de Jaci Almeida, que há 16 anos está à frente do Arraiá da Palhaversão mais contemporânea dos festejos.

Vai lá na venda de Seu Viana, fica na Rua da Palha, em Olinda

A festa foi perdendo o caráter mais informal e Nando começou a recuar até o ponto de não se sentir mais representado pela política de crescimento. “Começou a crescer, com a chegada de muitas pessoas e eu já não queria mais abrir as portas da minha casa”, diz.

Arraiá da Palha

Hoje a casa que recebe o Arraiá da Palha é a de número 44. Foto: Divulgação/Facebook

“Cheguei de Minas Gerais no início dos anos de 2000 e tive a ideia de fazer a festa na rua”, conta Jaci de Almeida, relatando que um microsystem na calçada tocando forró foi o início de tudo. “Com o tempo ela foi crescendo cada vez mais e hoje é reconhecida internacionalmente”, conta. 

O Arraiá da Palha hoje é responsável pela reconfiguração do São João da rua, como por exemplo, a instalação de palco para shows. “Tomou uma dimensão muito grande, mas nunca teve briga, graças à santa paz do Senhor”, diz Jaci.

“Fazemos o evento com garra e maior prazer, é uma festa sem discriminação em que todos são bem recebidos”, convoca a produtora que afirma contar com o apoio da vizinhança para a realização do grande evento.

Arraiá da Palha
?
Rua José Belarmino Silva, 44 (Antiga Rua da Palha)
? sábado, 23 de junho
⏰ 20h
Acesso Gratuito