“Comecei a trabalhar com escultura ainda muito cedo, aos 12 anos de idade. Não entendia a necessidade de comprar uma calça Lee que todo mundo usava. Eu comprava madeira para trabalhar”, recorda Mestre Nicola (59), nascido no município de Quipapá, Zona da Mata Sul de Pernambuco, e há 34 anos, mora no bairro de Barra de Jangada, no Jaboatão dos Guararapes.

O barroco pernambucano do consagrado artesão decora ambientes ao redor do mundo. Suas peças já foram expostas em países como Alemanha e Portugal, e são exportadas regularmente. No ano passado, atuou na novela A Lei do Amor com suas peças.

Arte Sacra | Foto: André Soares/PorAqui

Autodidata, o artesão utiliza madeira, granito, pedra calcária, pedra sabão, concreto e marfim para dar forma as suas obras. Os primeiros contatos foram aos sete anos. Observava um vizinho que fazia utilitários entalhados de forma rudimentar. Foi morar no bairro do Barro, no Recife, e seus primeiros trabalhos refletiam temáticas regionais, que estavam em alta devido ao interesse por parte dos turistas.


“Fazia pescadores, homem subindo em coqueiros, cortadores de cana e vaquejadas”, lembra. 16 anos foi a idade que resolveu utilizar a prática como modo de vida financeiro e partiu para o universo barroco. Continuou no mercado turístico vendendo peças para uma loja do extinto Hotel Boa Viagem com a finalidade de dar suporte financeiro a sua grande paixão: a arte sacra.

Arte esculpida em pedra calcária | Foto: André Soares/PorAqui

Sagrado

“As igrejas foram uma grande escola. Tinha conotação religiosa por parte da família, mas eu não sou católico. Não digo que sou ateu. Acredito num ser especial que faz com eu acorde com vontade de trabalhar. Manter uma postura de obrigação com meu trabalho, minha casa e meus clientes”, detalha.

A arte psicodélica de Mandíbula INK em Candeias

Nicola rejeita humildemente o título de Mestre. “Trabalho igual a qualquer pessoa. Tenho horário para começar de manhã cedo e trabalho até às 17h”, explica.

Barra de Jangada

O artista sempre quis morar perto da praia. Vendeu uma casa que morava no bairro do Jordão, foi morar em Piedade e, em seguida, em Barra de Jangada. Segundo ele, o comércio é ativo e “tem de tudo”. “De modo geral, é muito bom morar aqui. Dá para ir caminhando ao supermercado, açougue, lotéricas e bancos. O bairro tem vida. Não mudaria daqui e nem penso em sair”, afirma.

O Aeroporto de Barra de Jangada

O trabalho de Nicola é muito braçal e cansativo, mas a transformação da matéria prima bruta em arte é algo que considera prazeroso. “Às vezes dá vontade de desistir quando não tô vendo nada, mas ai é ter paciência. As dificuldades existem, mas você esquece e vai. A madeira às vezes dita a regra. Modifica a arte”, finaliza.