“Há cinco anos eu estava naquela fase de transe antes do sono. De repente, abri os olhos e vi dois homens das cavernas conversando num dialeto que eu não compreendia. Conseguíamos ver uns aos outros. Dois pássaros voavam e traduziram o que eles me diziam. Falaram para criar a terra de Mandíbula INK em homenagem a eles, porque os dois homens das cavernas, que riscavam as paredes e pedras com a as presas de um tigre dente-de-sabre, são os percussores da arte”. Esse foi o momento que Marcos César (59) decidiu investir na sua carreira como artista visual.

Autodidata, sua arte tem uma forte conexão com a música. É adepto do nanquim e, 80% das suas obras são em preto e branco, com técnicas de grafismo e pontilhismo. Syd Barret, Amon Düül II, Yes, Genesis são algumas das inspirações de Mandíbula, além dos textos do escritor português Fernando Pessoa. “Pinto o que vem a minha cabeça. Acontece geralmente quando escuto uma música ou leio algo. Dia desses despertei às 3h da madrugada e comecei a pintar”, explica sobre o processo.

Candeias como inspiração em quatro canções

“Alice no curral das Maravilhas” é baseada na música de Vital Farias | Foto: Divulgação

Início

Profissional do setor de automação de softwares, nem sempre a vida do artista esteve ligada a seus devaneios. Nascido no ano de 1958, no bairro do Zumbi, no Recife, Marcos criou seu elo com a pintura ainda cedo. “Ganhava dinheiro pintando a camisa dos colegas do colégio. Uma influência que tive na família foi tio Moreirinha, que morava no Crato, e fazia os cartazes dos filmes exibidos pelo cinema local”, lembra.

Durante a grande cheia do rio Capibaribe, em 1975, que matou centenas de pessoas, Marcos teve sua casa inundada e mudou-se com sua família para Candeias. Casou aos 24 anos e teve duas filhas que, hoje, o auxiliam na utilização das redes sociais e vendas das pinturas pela internet.

Boneco de Vitalino inspirado na Banda de Pau e Corda | Foto: Divulgação

“Como eu tive uma vida profissional que não me permitia pintar durante muito tempo, vibrava quando chegava o Carnaval. Era o tempo que eu podia pintar o dia todo e ficar com minhas filhas”, explica.

Voltar para Candeias

Apesar de não ter nascido em Candeias, foi no bairro que estabeleceu ligações e conexões profundas. “Aqui pra mim é um portal da paz, amizade e de pessoas maravilhosas. Sempre que eu saio daqui, quando estou fazendo aquela curva de Piedade para Boa Viagem, a intuição me manda voltar”, recorda.

O Pote Lisérgico teve influência da banda alemã Amon DÜÜL II | Foto: Divulgação

Mercado

Mesmo pintando de forma não comercial antes da criação do Mandíbula, foi após esse processo que Marcos César resolveu colocar os pés no mundo e expor sua arte. Foi para a rua da Moeda, no Recife Antigo, Olinda, e, ocasionalmente, ainda expõe em shows.

Suas obras podem ser encontradas no Espaço Somos, Centro Cultural Ceça e no Espaço das Artes, este último em Candeias. As pinturas custam entre R$ 180 e R$ 300. As emolduradas a partir de R$ 220. “Os preços são esses, mas é tudo negociável”, deixa claro Marcos César ou Mandíbula INK.

Além das pinturas diárias, os esforços estão concentrados na parceria com o escrito Notielc Iole, anagrama de Cleiton Eloi, na ilustração do livro “A Lenda de Kukuya”, uma história indígena repleta de mistério e psicodelia.

Mandíbula INK em Candeias | Foto: André Soares/Poraqui