Eram 22h da noite em Macau, na China. Com o fuso horário de 11h de diferença para o Brasil, duas vezes tentei agendar uma entrevista e não consegui. Pouco antes de um treino, que começava às 22h30, conversei com Danilo Lins (32), jogador pernambucano de futebol profissional, nascido e criado no bairro de Piedade, no Jaboatão dos Guararapes. Há seis meses, ele atua como atacante do CPK (Chao Pak Kei).

No último domingo (1), o atleta foi vice-artilheiro da primeira liga de Macau com 37 gols. Ao seu lado, mais cinco profissionais brasileiros deixaram sua terra de origem para continuar vivendo do que sempre souberam fazer: jogar futebol.

Comemoração do vice campeonato da primeira liga de Macau | Foto: Divulgaçao

Segundo um levantamento realizado pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol) em 2016, no Brasil 82,40% dos jogadores profissionais com contrato assinado recebem até R$ 1 mil reais. E apenas 13,68% recebem até, no máximo, R$ 5 mil reais.

Longe dos holofotes e das discussões dos salários milionários dos países europeus, tão valorizados em competições como a Copa do Mundo de futebol masculino, um universo é ofuscado, mas é vivo, resiste e brilha.

Passos

No Brasil, nunca é muito cedo para começar a jogar futebol. Aos nove anos, Danilo jogava futsal na quadra de uma comunidade em Piedade, no conjunto Dom Helder Câmara. Como todo atleta de destaque, passou pelos colégios da região e foi bolsista em quase todos graças ao talento com a pelota: Zuleide Constantino, Souza Leão e Colégio Boa Viagem. Sempre nas quadras.

Na escola de futebol no Dom Helder Câmara, em Piedade | Foto: Acervo/Ricardo Cavalcante

“Todo jogador quer ir para campo porque é onde tem mais visibilidade e dá mais dinheiro. Geralmente, os jogadores tentam no campo, mas a concorrência não dá para ficar, daí o pessoal segue no futsal”, explica.

Aos 17 anos, fez um teste e acabou indo ao Sport do Recife para jogar em campo. Ficou três anos na base do clube, entre o juvenil e os juniores. Depois de não ser convocado para a equipe principal, tentou a sorte no Náutico. Com cinco ou seis meses, já estava jogando no time profissional.

O jogador ficou entre o juvenil e juniores do Sport Recife | Foto: Sport Club do Recife

“Muitas vezes os times maiores não dão chance aos jogadores de base. Acham mais fácil pagar e contratar alguém já experiente. O que acontece são casos de clubes menos favorecidos que arriscam mais. Por exemplo, tá faltando jogador, rola uma brecha, tentamos fazer bem e continuar nela”, esclarece.

Série A

Danilo chegou ao Náutico em 2005. No ano seguinte, viveu um dos melhores momentos do clube pernambucano: a ascensão à elite do futebol brasileiro. Em 2007, marcou dois gols no campeonato brasileiro e seguia na artilharia do time, mas uma lesão no ligamento cruzado anterior do joelho o deixou oito meses fora dos campos.

Com Kuki em partido pela série A do Brasileirão | Foto: Arcevo

Mesmo com toda luta para voltar, começaram a chegar outros jogadores, outra diretoria e Danilo se sentiu escanteado. Com todos os problemas, pediu para ir embora.

“É normal porque futebol é momento. Se tu tá bem fazendo gol, todo mundo te elogia, tu é o melhor do mundo. Mas, também, se tu passar cinco, seis meses parado, ninguém te vê. Tu fica esquecido”, afirma sobre o cotidiano da profissão.

Partiu

Época ruim no clube, o jogador decidiu tentar carreira no exterior. Mudou-se para Dubai, mas o erro de um contratante o fez perder o investimento da viagem. Voltou para o Brasil, dessa  vez para outros estados.

Passou pelo Guarani de Divinópolis (MG) e foi para a Argentina. Atuou apenas seis meses no San Martin. Segundo Danilo, a hospitalidade dos argentinos com os brasileiros não é tão legal.

“Não me dei bem porque os argentinos queriam ‘matar’ os brasileiros nos treinos. Os caras iam no joelho durante o aquecimento. Antes do treino, sempre rola aquela roda de bobinho e eles vinham dando carrinho. Quando pegávamos o busão para treinar em outro canto, eles iam sempre no primeiro andar, separados dos brasileiros. Pode ver, no Brasil argentinos são idolatrados, como D’Alessandro. Agora, lembra do relato de algum brasileiro lá”, esclarece.

Na capa de um jornal de Macau | Foto: Arcevo

Em 2009, partiu para mais uma missão. Desta vez foi para Barhein, um país do golfo Pérsico. Entre 2011 e 2017, tem uma lista enorme de clubes brasileiros por onde passou: Araripina, Ipiranga, Rezende, Central, Mogi Mirim, Remo, ICasa, Madureira, Guarani do Ceará e CSE.

“No Brasil é complicado porque os campeonatos são todos de três meses. Se não tiver um nível de contrato de um ano, fica sempre nessa de dois, três e, no máximo, quatro meses. Os salários atrasam. Um contrato pequeno de três meses e você acaba recebendo apenas o primeiro”, explica Danilo sobre o calendários dos times que não estão na elite do futebol brasileiro.

Temporada no Golfo Pérsico | Foto: Arcevo

São três meses trabalhando e o resto do ano parado. Caso não mude de clube, acaba passando o resto do ano desempregado porque, segundo o jogador, os atletas só recebem pelo período de jogos.

Em Macau há seis meses, Danilo reveza o tempo no clube com o trabalho na escolinha de futebol para crianças do próprio CPK. A dificuldade e distância da família é um ônus difícil a se pagar pela falta de estrutura de um dos países mais reconhecidos pela arte de futebol no mundo.

“Aqui o nível não é igual ao do Brasil, mas também não é fraco. O calendário é anual e estou esperando uma brecha para poder levar minha família para morar comigo aqui na China”, conta.

Paralelamente, Danilo também incentiva na comunidade do bairro onde cresceu, ao lado de Ricardo Cavalcante, uma escolinha de futebol para crianças. O intuito é incentivar o esporte e contribuir para mantê-las longe das drogas e criminalidade.