Do tempo em que o único acesso para Piedade e Candeias, em Jaboatão dos Guararapes, só era possível através da avenida Bernardo Vieira de Melo. De quando os dois bairros ficavam agitados apenas durante o verão. E também da época em que as terras nos arredores da famosa curva do Sesc eram conhecidas como Venda Grande e os profissionais das barbearias modernas nem sonhavam em existir. Desde 1978, há quase 40 anos, até hoje, existe e resiste o Salão Brasil.

Localizado numa antiga galeria que divide os bairros de Piedade e Candeias, o espaço, criado pelo barbeiro Damião, falecido há dois anos, é um agregador natural de gerações. “Aqui, os pais trazem os filhos e os avós vêm com os netos”, explica o barbeiro Carlos Antônio, filho de um antigo sócio do salão.
Carlos Roberto e Carlos Alberto | Foto: André Soares/PorAqui
Atualmente, o empreendimento funciona como uma cooperativa. Os quatro barbeiros, Cícero e mais três chamados Carlos, dividem todos os custos do espaço. Mas, nem sempre foi assim.
 
O início de tudo
No final da década de 1970, Damião trabalhava num cabeleireiro no bairro das Graças. Casado, decidiu construir uma casa na praia em que costumava veranear com sua esposa. Determinado a morar em Candeias, alugou o espaço onde fica, até hoje, o salão. Começou com alguns funcionários. Na parte inferior, o local é exclusivo para homens, e no primeiro andar, para as mulheres.
Carlos Alberto, o mais antigo de todos, entrou como empregado há 30 anos. “Primeiro, meu primo trabalhou aqui, depois, meu irmão (Gaspar) e depois, eu”, explica. Na década de 1990 começaram a acontecer as mudanças mais significativas.
Devido ao divórcio de Damião, o ponto onde fica o salão foi repassado e alugado por diversas pessoas. Mas, em 1994, numa reunião entre Antonio, Gaspar e Carlos Alberto, antigos funcionários de Damião, foi decidido que as atividades seriam retomadas mas, dessa vez, no formato de sociedade com os quatro profissionais.
Waldyr Coelho (cliente) e Carlos
Waldyr Coelho, morador de Candeias há 50 anos e cliente do salão há três décadas, lembra que desde o final de 1980, quando alguém pergunta qual corte ele vai fazer, a resposta é sempre a mesma: “O de Damião”.
Mesmo com todos os momentos bons e ruins vividos dentro do salão, seja pelo falecimento de diversos profissionais que trabalharam ou pela baixa movimentação de clientes em determinadas épocas, não existe qualquer hipótese de fechar o local. “Aqui é a nossa segunda casa e pretendemos existir pra sempre”, afirma Carlos Alberto, o sócio mais antigo.