E se as personagens da franquia estadunidense Star Wars fossem transportadas da cultura geek, através de técnicas da xilogravura, para livretos de cordel? Foi inspirado na devoção dos fãs que Lourenço Gouveia (27), morador do bairro de Massaranduba, na divisa com Prazeres, no Jaboatão dos Guararapes, recriou ícones da cultura pop e os transformou em Padrinho Yoda, Santa Leia, Imperador da Peste e a Tropa do Trovão.

A série, inspirada no universo de George Lucas, é apenas um dos artigos trabalhados pelo atelier Xilogeek. São vários mundos que recebem, diariamente, num espaço reservado em sua própria casa, atenção para as releituras de Lourenço.

Padrinho Yoda | Foto: Divulgação

“Tentei trazer essa ideia quase cânone que as pessoas têm, por exemplo, do Mestre Yoda, para a cultura nordestina. Misturei com a devoção ao Padre Cícero. A cultura pop universal, que vive em nosso repertório de imagens está marcada no imaginário e tento refazer no meu cotidiano”, explica.

É no linóleo

Um dos livretos de Cordel explora o herói japonês Ultraman. Nos entalhes manuais do artista, que não faz o processo habitual dos ilustradores digitais, nasceu O Ultra Homi. As etapas para construção envolvem, além da concepção da ideia, o trabalho de criar desenhos em relevo através de objetos cortantes no linóleo (espécie de tecido impermeável emborrachado). O processo é o mesmo da xilogravura, mas pela utilização de uma diferente base, o termo adaptado é a linoleogravura.

A arte barroca do Mestre Nicola de Barra de Jangada

“A gente tem uma infinidades de recursos para aprimorar o serviço mais rápido, mas pra mim, o computador é só um auxiliar. Não é a razão. A imperfeição de errar, ajuda a arte. Por isso que ela é arte. Descobrimos coisas nos erros que nos fazem ser diferentes”, justifica o não uso de recursos digitais como base em suas técnicas.

“O Ultra Homi” | Foto: Divulgação

Inspiração (インスピレーション)

Desde criança, Lourenço sempre foi aficionado pelo universo nerd. Principalmente por animes e filmes tokusatsu, este último, um gênero cinematográfico japonês que exportou para o ocidente, “febres” como Kamen Rider, Metal Hero, Jaspion, Changeman e até o próprio Ultraman.

Desenha, copiava e fazia releituras diariamente, mas a necessidade financeira, levou Lourenço a trabalhar numa loja de um grande centro de compras de Piedade. “Não tinha tempo para descansar. Comia e já corria pra trabalhar. Mas descobri um pessoal que fazia ilustração de forma alternativa num raro momento de folga no Abril Pro Rock”, lembra.

Base de linóleo onde é são feitos os entalhes | Foto: Divulgação

Certo dia surgiu um convite através da sua relação com os artista visuais Paulinho do Amparo e Chia Beloto, para um curso com o coletivo de artistas da Gráfica Lenta. Descobriu ferramentas para fazer gravura em relevo, deixou a criatividade florir e tentou transcrever seus pensamentos guardados. “Descobri meu estilo nas memórias da infância. Dos tempos em que meu pai trazia cordéis, aboios, músicas de repentistas e cantorias nordestinas. Achava tudo aquilo muito chato, mas fui crescendo e entendendo o significado que têm”, recorda.

O Imperador da peste e a trova do travão | Foto: Divulgação

Os heróis que via na televisão agora são entalhados em suas mãos. Sua casa, próxima a Estação Monte dos Guararapes, é a oficina artística que une o oriente ao ocidente jaboatonense.

“É o universo que eu vivo com minhas influências e isso não deve ser esquecido. A arte é uma coisa bem volátil e diversa. Não existe uma limitação para criar com arte. Tudo isso faz parte e é isso que eu tenho feito. Tenho realizado”, finaliza.

Lourenço Gouveia ao lado do Mestre J. Borges | Foto: Divulgação