Quando você cresce em Piedade e Candeias, alguns nomes são repetidos diariamente, e com orgulho, nas ruas. Terra de referência e inspiração para artistas como Edu Lobo e Arnaud Rodrigues, as ondas do litoral dos dois bairros já foram palco de ensaio de grandes atletas mundiais. Um deles é o pernambucano Carlos Burle, notório surfista internacional conhecido pela sua relação íntima e quase mortal como caçador de ondas gigantes.

Em 2001, surfou uma onda de 22,6 metros, até então, maior onda registrada do mundo. O fato aconteceu em Mavericks, na Califórnia, e garantiu a entrada do atleta para o Guinness Book. Aos 50 anos, no mês passado, Burle fez sua despedida das competições de forma histórica. Surfou três ondas gigantes no emblemático mar de Nazaré, em Portugal.

Carlos Burle em Nazaré, Portugal | Foto: Divulgação

Atualmente morando no Rio de Janeiro, mas com a agenda apertada de viagens ao redor do mundo, Burle não esquece suas origens e contou os detalhes ao PorAqui do tempo em que que surfar era uma aventura para os moradores do município do Jaboatão dos Guararapes.

“Tenho muito aprendizado da época que eu morava em Piedade e Candeias. Aprendi a lidar com aquele universo tão cheio de aventuras. Muitas vezes a gente ia surfar e tinha que fazer rally. Não tinha a infraestrutura que tem hoje em dia. Às vezes, dava pra voltar, caía a ponte. Era o mundo dos sonhos para um adolescente. Não tinha tecnologia de previsão de ondas. Íamos explorar e era sempre uma surpresa sobre o que encontraríamos lá”, lembra.

As descobertas no mundo do surfe foram gradativas para o surfista pernambucano. Ele não viveu a época dos ataques de tubarão aos surfistas e banhistas da costa pernambucana. “Só tinha a lenda do padre que tinha sido atacado por um tubarão na igreja de Piedade. Não tínhamos medo nenhum. Nadava em Boa Viagem até de noite com minha namorada. Nunca pensei em ser atacado por um tubarão”, detalha.

Descobriu Fernando de Noronha e foi tomando gosto para se desafiar e, consequente, enfrentar as ondas. A forma de trabalhar o estresse mental em situações de risco foi um dos fatores que o levou a entender o talento que tem. “Começou cedo quando descobri Fernando de Noronha e vi que ali poderia treinar. Tive a sorte de ter uma passagem gradual: Recife, Noronha, Peru, Havaí. Me apaixonei, mas como profissão, quando comecei a receber para surfar ondas grandes e especiais, só aos 25, 26 anos”, explica.

Além de surfista, Burle é um experiente treinador e protagonizou acontecimentos, como o acidente de 2013 com Maya Gabeira, em Nazaré, local de despedida das ondas do pernambucano. A big rider e filha do político Fernando Gabeira, sofreu uma queda numa onda gigante e ficou inconsciente. Depois de uma série de tentativas de resgate pilotando um jet ski, Carlos se jogou ao mar de ondas que podem atingir a altura de edifícios de 10 andares, levando toda sua experiência para fazer o resgate. Tudo acabou no melhor cenário possível: a surfista se recuperou e já desafia novas ondas gigantes.

Bom filho

Burle reserva um tempo na agenda para voltar ao Recife sempre que pode. Passa dias com os pais em Aldeia e reencontra os amigos de adolescência. Gosta de fazer o circuito pelas praias de Muro alto, Cupe, Porto de Galinhas, Maracaípe e Serrambi.

“Sou um surfista muito cabeça feita. Já peguei muita onda. O surfe é mais diversão que qualquer outra coisa. Felicidade para mim é estar perto das pessoas que eu gosto. Hoje tem muita disputa, localismo. Sou de uma época que todo mundo era bem-vindo. Sobrava onda e você pedia para ter um amigo”, lembra.

Carlos Burle | Foto: Divulgação

“O surf na frente de casa era uma coisa mais simples, mas a gente remava lá pra fora para pegar fundo de pedras. Atravessava o rio para ir à Praia do Amor, no Paiva. Sempre vou lembrar das minhas pegadas naquelas areias e também nos corais que eu pisava; nos ouriços no pé, a formação da onda de fundo de pedra. Isso levei comigo e essa experiência toda me ajudou a ser o surfista que me transformei. Não temos ondas gigantes, mas temos fundo de pedra. As melhores ondas do mundo quebram nesse tipo e eu me adaptei àquelas condições. É um lugar muito especial mesmo”, declara com carinho sobre a cidade.