O jornalista e escritor Gil Luiz Mendes publicou em seu perfil do Facebook, um capítulo exclusivo do romance Depois da Curva do S, ambientado no ano de 1999, no bairro de Candeias, no Jaboatão dos Guararapes. A campanha de financiamento coletivo, realizada no Catarse, encerra amanhã (25), e até o momento, arrecadou R$ 2.595. O valor inicial das contribuições é a partir de R$ 10. Ainda dá tempo de colaborar com a literatura jaboatonense.

Numa das passagens, o autor lembra do cheiro característico das algas marinhas e as explicações de um professor no clássico colégio Zuleide Constantino.

“O nome científico é Sargassum C. Agardh. Segundo o professor de Biologia do Zuleide Constantino, é um tipo de alga que tem uma cor meio marrom, meio castanho claro e que é comum aparecer nas praias de regiões tropicais. Baseado no que escutei dele, cheguei à conclusão que Candeias é o centro litorâneo dos trópicos. Não há lugar no mundo que tenha mais sargaço, nome popular da planta aquática, do que aqui. Em Piedade tem um pouco, em Boa Viagem tem menos e em Barra de Jangada eu nunca vi”, destaca.

Jornalista de Candeias lança campanha para finalizar livro ambientado no bairro

A obra é o terceiro livro de Gil, que lançou o ‘Palas’, reunindo os contos e cantadas inusitadas ouvidas no Recife, e um coletivo, o ‘A maior cidade pequena do mundo em linha reta’.

Acompanhe o trecho disponibilizado:

O cheiro é inconfundível. Só quem é daqui pode desfrutar desse odor característico que se sente assim que se entra à direita na avenida Castelo Branco, fazendo a última dobra da Curva do S. Sai de Piedade e chega em Candeias. É incrível como a partir dali o aroma muda. Juro. Dois passos para trás e a umidade relativa do ar é igual a qualquer outro lugar da Região Metropolitana do Recife, mas avançando para dentro do bairro onde moro desde que nasci a atmosfera muda.

O azedume passeia por todas as ruas. Vem da Bernardo Vieira de Melo, passa pela Comercial e só deve parar na Lagoa do Náutico. O cheiro lá é outro e também não é bom. Sei disso porque quando era criança caminhava para o oeste da minha rua para molhar as canelas pescando betas, peixes bravos, solitários e que evitam convívio com seres da mesma espécie.

A catinga que infesta o lugar onde moro desde que me entendo por gente tem prazo pra começar e para terminar. Pelas minhas contas, tem início em janeiro e acaba em meados de fevereiro. Justamente quando o verão está no seu ápice é que a praia de Candeias fica uma merda. Cheira a esgoto. Poderia ser o mar o causador de toda a inhaca, já que tudo que desce por privadas, ralos e pias do bairro vai acabar no mesmo canto onde a gente engole água salgada, pula ondas e cavalos tomam banho.

Esquina 40: a escola de artes de Piedade

Candeias tem também a sua área rural, fica pelas bandas da lagoa das betas. Vez por outra os bois deixam o lugar onde ficam cercados e vão fazer passeios em meio aos carros nas poucas ruas asfaltadas que têm por aqui. Confesso que sinto um certo receio quando cruzo com essas manadas. Coisas de adolescente que durante os 16 anos que está no mundo sempre morou em prédio. Está acostumado com areia, não com mato. E é um tipo de mato que aparece por aqui nessa época do ano que faz o bairro todo ter esse cheiro de fossa aberta.

O nome científico é Sargassum C. Agardh. Segundo o professor de Biologia do Zuleide Constantino, é um tipo de alga que tem uma cor meio marrom, meio castanho claro e que é comum aparecer nas praias de regiões tropicais. Baseado no que escutei dele, cheguei à conclusão que Candeias é o centro litorâneo dos trópicos. Não há lugar no mundo que tenha mais sargaço, nome popular da planta aquática, do que aqui. Em Piedade tem um pouco, em Boa Viagem tem menos e em Barra de Jangada eu nunca vi.

É só passar o ano novo que Iemanjá se arreta com o tanto de quinquilharia que mandam para ela na noite de 31 de dezembro, que ela devolve tudo em forma de mato. A faixa de areia fica gramada por toda a orla. Os sargaços guardam nas suas folhas sal e uma série de bactérias marinhas que ficam expostas ao sol durante todo o dia. É durante a secação que o mau cheiro sobe. O vento, esse danado que não para quieto, gosta de brincar e sopra essa catinga nariz adentro de quem ousa respirar por essas cercanias.

O Pedrito’s bar e restaurante é patrimônio gastronômico de Candeias

Estava inebriado com esse maldito cheiro quando fazia o que todo cara da minha idade, e mora aqui, faz quando está de férias e não vai viajar com a família. Porra nenhuma. Meu mês de janeiro se resume a ficar deitado nessa rede, em uma distância suficiente para que possa esticar o braço e mudar o lado das fitas cassetes do meu irmão no micro system dele. As minhas favoritas são uma Basf de 90 minutos que tem o unplugged do Nirvana e mais umas quatro músicas do Alice Chains e uma que tem o disco novo do Planet Hemp, com a foto de um velho na capa. Outra que gosto muito é um show do Devotos do Ódio e do Ataque Suicida no Abril Pro Rock do ano passado, que foi transmitido ao vivo pela Rádio Cidade. Essa é minha. Só gravei porque ele foi pro show e consegui usar esse aparelho de som. Se ele estivesse em casa ia ficar frescando e não deixaria. Eu até queria ir com ele. Meus pais deixariam. Mas o viado ficou, como sempre, falando merda e não quis me levar. Disse que não andava com guri. Estou mexendo no som porque ele viajou com os meus pais para uma praia em Alagoas. Se ele estivesse aqui eu já teria levado um berro e uns dois tapas. Irmão mais velho só serve pra ser chamado de filho da puta.

Preferi ficar em casa em vez de viajar com minha família porque fazer nada é um dos meus esportes favoritos e lá só ia ter gente chata. Outro motivo também é que o Suíno não ia caber no carro porque meu irmão começou a namorar e levou a santa que aguenta ele junto. Não iria ter ninguém interessante para fazer coisas desimportantes e por isso fiquei. Sozinho, mas não muito. A vizinha fofoqueira do primeiro andar vez ou outra sobe pra saber se está tudo bem e trazer as refeições do dia. Minha mãe pediu para ela fazer esse favor. Mora no prédio desde sempre. O mesmo tempo que a minha família.

A arte do livro é assinada pelo artista visual Wictor Bernardo

Também não estou tão sozinho assim. Suíno aparece todos os dias. Esse apartamento virou a colônia de férias dele. Além de ficarmos com as narinas abertas sentindo a catinga dos sargaços, ele é um dos poucos que ouve meus primeiros acordes de violão e parece gostar. Já sei tocar quase todo o Unplugged do Nirvana.

Aos poucos estou melhorando. A revistinha de cifras que comprei ensina a tocar todas as músicas do disco e ainda me diz que Em é um mi menor e que G é a mesma coisa de sol maior. Suíno também tenta, mas tem menos desenvoltura que eu. Ele também não leva essa história de querer fazer música e ter banda tão a sério. Geralmente ele só pega o violão para brincar com as cordas graves. Um dia desses eu ensinei a linha de baixo que tem no meio de Polly e ele ficou feliz pra caralho.

O quase gordo está atrasado. Daqui a pouco vai dar duas da tarde e ele ainda não apareceu. Todo sábado ele chega aqui logo depois do almoço, mas não para aproveitar os bolos que a vizinha faz como sobremesa. Depois das catorze horas o custo de acesso à internet é de apenas um pulso, ou o valor de uma ligação simples. Aperto no botão conectar no discador do IG, e caixas de som do Pentium, ou 0 586 como alguns teimam em chamar, faz uns chiados estranhos. Em poucos minutos estou interligado a uma série de computadores ao redor do mundo, e enquanto eu permanecer assim o telefone aqui de casa estará ocupado.

A maçaneta gira, mas a porta não se abre. Suíno sabe que estou sozinho em casa, deixa os bons modos na rua e tenta entrar sem avisar. Destranco a fechadura e vejo aquele sorriso cínico que só ele sabe dar.

O computador aqui de casa fica instalado no meio da sala. É mais um eletrodoméstico, assim como a TV de tubo 29 polegadas, o aparelho de DVD, e som com carrossel de CDs. Tenho que dividir com todos os membros da minha família. Eles estão fora, então, durante estes dias, é tudo meu. Apenas meu.

Em frente ao monitor branco, o teclado encardido e o mouse cinza, a tarde passa em diferentes ritmos. Demora uma eternidade enquanto acessamos sites pornográficos para ver a Playboy deste mês que traz a professora de ginástica Solange Frazão na capa. São necessários pelo menos cinco minutos para que cada foto seja carregada, para depois eu salvar em uma subpasta escondida dentro do disco rígido. O tempo também passa vagaroso quando tentamos baixar uma nova música do No Fun At All. Se dermos sorte, antes da meia noite o Emule vai nos avisar que Master Celebrator poderá ser ouvida à exaustão no Winamp.

Possuo dois script, o Scoop e o Avalanche. É através deles que entro no mIRC e só então que o tempo na internet passa mais rápido. Eu e Suíno não percebemos a noite chegar, pois passamos a tarde toda tendo discussões irrelevantes nos canais #recife#candeias e #punknet. Muito tempo das conversas em letras coloridas foi para saber o que faremos esta noite.

No período de férias são raras as festas nas garagens ou nos salões de festas dos prédios. Esses eventos são comuns durante as aulas, pois a divulgação se dá boca a boca. Isso também nos ajuda a saber onde haverá festas que não fomos chamados e mesmo assim comparecemos.

***

Isabela, com o nick @isa_bellinha, abriu uma janela e veio me perguntar sobre Suíno. Falei que ele estava do meu lado lendo toda a conversa. Ela queria saber dos nossos planos para o sábado à noite. Avisou que Monique dormiria na casa dela. No nosso mundo perfeito, eu ficaria com Monique e Suíno com Isabela. Mas como e onde?

Eu tinha certeza que os amigos do meu irmão, que gostavam mais de mim do que meu próprio irmão, iriam para o Tocaia. Quando eles iam lá pra casa, narravam com empolgação cada episódio de aventura passado naquele ambiente. Das mulheres, feias ou bonitas, que pegavam, as brigas em que se metiam e todo tipo de coisa que um cara quatro anos mais novo também queria fazer, mas quase nunca tinha permissão dos pais. Meus pais não estavam em casa, então não havia nada que me impedisse. Convenci Suíno a ir comigo, que por sua vez convenceu Isabela, e mais tarde eu viria a saber que ela também convenceu Monique.

Suíno nem voltou pra casa. Tomou um banho, pegou uma camisa e uma bermuda do meu irmão, já que as minhas não cabiam nele, o que me fez ter a certeza de que quando a minha família voltasse do litoral alagoano eu estaria fodido. Já passava da hora que tínhamos combinado com as meninas quando o interfone tocou. Suíno atendeu enquanto eu desligava o computador e avisou que Mudinho estava lá embaixo do prédio.

– Fala, Mudinho.

– E aí?

– Estamos indo pro Tocaia. Bora com a gente?

– Bora.

– Então vamos.

– Espera.

– Esperar quem?

– Esperar o quê?

– Baixinho.

– O quê baixinho?

Ele virou a cabeça e apontou para o outro lado da rua. Um pirralha de 1,59 metros subia a calçada com as mãos estendidas.

– Baixinho.

– Fala, velho. Eu sou Gago e esse aqui é Suíno. Beleza?

– Beleza.

– Novo por aqui?

– Sou. Estou morando na rua dele.

– Massa. Vai com a gente pro Tocaia?

– Bora.

– Vamos nessa, que já estamos atrasados.

Caminhamos juntos até o sinal, deixando que Baixinho se entrosasse com a gente. Contou que morava antes na Imbiribeira e que os pais ainda estavam definindo onde ele estudaria naquele ano. O que mais nos espantou naquela conversa foi saber que ele tinha a mesma idade que nós. Quem o visse poderia jurar que ele não tinha mais do que doze anos.

Ao chegar nas Três Faixas, eu e Suíno reduzimos os passos e deixamos que os outros seguissem na frente.

– Coitado do novato.

– Por quê?

– A primeira pessoa que ele conheceu no bairro foi logo Mudinho. Imagina como está sendo a conversa agora. O cara querendo se enturmar e o nosso amigo se limitando a palavras trissílabas.

Nossa gargalhada diminuiu quando avistamos de longe Isabela e Monique. Isabela sempre linda e Monique sempre com a cara de enjoada. Por muitas vezes me perguntei como que alguém conseguia passar mais de dez minutos junto de uma menina que era composta de lamentos e reclamações.
Eu fui apaixonado por Isabela em vários momentos da minha vida. Todo mundo na nossa turma já foi ou ainda é apaixonado por ela. Lembro que a primeira vez que meu coração palpitou mais rápido pela menina de arregalados olhos verdes foi quando tínhamos cinco anos e estávamos no jardim três. Conheci Bela antes disso. Na verdade nem me lembro. São nossos pais que nos contam. Eles se conhecem mesmo antes da gente nascer. Inúmeras foram as vezes que me masturbei no banheiro pensando nela. Mas esse foi o contato mais íntimo que pude ter com a minha amiga. Já tinha perdido qualquer esperança bem antes dela me dizer que estava gostando de Suíno. Eu que apresentei eles e, pela longa duração da nossa amizade, ela achava que eu poderia ajudar. Devo ter desenvolvido várias qualidades durante o tempo, mas vocação para cupido eu nunca tive. Na verdade, nunca me dei bem com casos amorosos. Nem com os meus, muito menos com o dos outros.

Mudinho foi cumprimentar Monique, Suíno deu dois beijinhos em Isabela, eu fui falar com os amigos do meu irmão e Baixinho sobrou. Vida de novato não é fácil. Os caras mais velhos me ofereceram cerveja. Mentira. Na verdade eles me mandaram pegar na carrocinha do ambulante que estava do outro lado da rua. Me deram dinheiro insuficiente para pagar o número de latas que me pediram. Tive que completar com meus mirrados trocados. Não tinha problema, aqueles caras me consideravam mais do que meu irmão e sempre me acolhiam bem.

Interrompi a conversa do gordo com Isabela e entreguei uma cerveja para Suíno. Pensei em chegar perto de Mudinho e a chata, mas desisti da ideia ao lembrar que mudo não fala e sobraria pra mim ter que aguentar Monique. Encostei no novato.

– E aí, Baixinho. Tu bebe?

– Oxe, mais do que respiro.

– É mesmo? Pega duas ali pra gente então.

Assimilar rapidamente o ensinamento dos mais velhos sempre foi uma virtude.

Semi-bêbados, entramos no Tocaia. Música ruim, cerveja cara e gente feia. Eu e meus amigos poderíamos dar uma de Monique e passar a noite toda reclamando, mas preferimos aproveitar a situação e os seus melhores momentos.

Aquela máquina com luz neon pendurada na parede, onde as pessoas depositavam fichas e saía o pior que poderia existir harmonicamente no mundo, não era tão ruim assim. Curiosos que éramos, Suíno e eu passamos alguns longos minutos averiguando todo o repertório que havia dentro da caixa de música. Para nossa surpresa, tinha até uns sons que nós gostávamos. Na verdade eram apenas duas músicas em meio a uma seara de coisas toscas de bandas com nomes de doenças de animais ou especiarias nordestinas. Nas duas vezes que interrompemos a dança dos casais mais salientes para escutarmos Smell Like Teen Spirit e Come as you are, e ficamos apenas eu, Suíno e um amigo bêbado do meu irmão batendo cabeça aos olhares indignados dos forrozeiros. Percebemos que éramos minoria e que aquele tipo de som não era para aquele ambiente.

Sem conseguir vencê-los, decidimos também cair na dança. Suíno foi rápido. O gordinho se atracou com Isabela de um jeito que parecia que ela nunca mais conseguiria escapar dos seus braços suados e sem pelo.

Menti para mim mesmo quando disse que o álcool estava me dando coragem para aguentar toda a chatice de Monique. Desde que a vi naquela noite, queria trocar uma ideia com ela, por mais difícil que isso fosse.

– Vamos dançar?

– Tu é doido? Desde quando tu sabe dançar?

– Faz muito tempo não, mas nas festas da minha família minhas primas estão sempre me ensinando. Não é muito difícil. Deixa eu te mostrar.

– Sai daí, Gago. Deixa da tua mentira. E outra, eu também não sei dançar.

– Deixa de frescura, Monique. Toda mulher sabe dançar. Vocês quando andam já estão dançando.

Fiquei sem saber se ela forçou o riso quando eu disse a última frase ou se realmente ela não era tão chata assim. Antes que elaborasse outra frase na intenção de expandir aquele sorriso, vi que duas mulheres vinham falar com Monique.

Reconheci a dupla. Era a mais animadas do salão de dança. Reparei nelas quando fiquei observando o jeito estranho de Suíno dançar com Isabela. Tinha tudo ali, menos ritmo. Já as duas morenas dançavam com diferentes pares com uma desenvoltura de causar inveja nas demais que dividiam o mesmo espaço.

Demorei para entender que uma delas trabalhava na casa de Monique e que minha amiga quase simpática – quase chata – estava ali sem a autorização dos pais. Não me perguntem o motivo, mas a cena era pra lá de engraçada. O excesso de explicação e clemência de uma para outra era algo cômico. Eu e a outra menina não contivemos o riso.

Com a conversa encerrada, Monique tirou Isabela dos braços de suíno e a levou para o banheiro, a dupla de bailarinas sentou em uma mesa perto de onde eu estava e Suíno veio em minha direção.

– E aí, vai pegar a Isabela?

– Sei lá, cara.

– Sei lá o quê, gordo?

– Não sei se ela quer ficar comigo.

– Caralho, você não viu o papo dela hoje na internet? Vocês estavam dançando e tu não reparou em nada disso? Tu é devagar demais.

Enquanto Suíno ruminava as palavras que tinha acabado de ouvir, passou por nós um sujeito alto, mais alto do que eu, mal encarado e muito bem vestido. Tinha passos trôpegos e olhos vermelhos. Era uma figura familiar. Eu ainda estava fazendo o esforço mental para me lembrar de onde o conhecia quando ele abordou a menina que ficou rindo junto comigo da conversa entre Monique e sua empregada.

– Quer dançar comigo?

Antes que a moça pudesse responder, a que trabalhava na casa da minha amiga interveio.

– Ela não dança com matuto e nem com bêbado.
Não houve resposta. Nem daquela que foi convidada a rodopiar pelo salão, nem daquele que foi ofendido. Quando o cara bem vestido, de cabelo e pele queimados de sol, soltou sua mão direita no lado esquerdo da face da empregada de Monique, eu me lembrei de onde eu o conhecia.

O apelido Maré era uma abreviação de maresia, pelo gosto do rapaz interiorano por surfe e maconha. Ele era o cara mais violento das peladas no campo do Botafogo, lá na avenida Comercial, nas imediações da comunidade das Carolinas. Fui vítima de alguns dos seus desleais carrinhos, mas nada comparado ao tabefe que ele tinha acabado de aplicar na menina. As bochechas dela se desfiguraram na hora do impacto, e o corpo ainda deu uma volta antes que ela caísse de cara no chão de pedras de granito. Vi Suíno saindo do meu lado e querendo agarrar Maré pela covardia que ele estava fazendo. Mudinho também fez alguma menção de ir ao encontro do agressor. Mais uns dois caras também tiveram o mesmo instinto de proteção contra vítima, mas todos recuaram assim que Maré começou a puxar o revólver da cintura.

Segurando o cabo de madeira, Maré ergueu a arma de cano enferrujado e longo, e berrou para quem quisesse ouvir.

– Ninguém se mete senão eu atiro.

Todo mundo que estava no bar correu para lados diferentes. Estranhamente fiquei parado, quase ao lado de Maré e sua arma oxidada. Pude ver diferentes cenas que pareciam passar em câmera lenta. Na radiola de ficha tocava Cavalo de Pau e a música da estrelinha do céu. Mudinho e Baixinho saíram carregando duas latas de cerveja na mão cada um. Suíno pulou o muro feito de troncos de coqueiro num impulso só e sumiu na escuridão da rua. Os amigos do meu irmão gritavam como crianças pequenas assustadas com um palhaço feio. A moça que recebeu o convite da dança correu na frente, a empregada que trabalha na casa de Monique ainda levou um chute antes de seguir a amiga. Isabela e Monique saíam do banheiro e foram arrastadas pela outra dupla de amigas que já corriam. Maré, bêbado, olhou para mim, deu um sorriso sarcástico, devolveu o revólver à cintura, tirou umas cédulas do bolso e jogou em cima da mesa. Antes de ir embora, passou na minha frente fedendo a suor, cachaça e maconha.

O domingo se iniciava enquanto eu voltava pra casa e Candeias cheirava a sargaço. Andando, pensei na minha família na praia, no tapa de Maré, na falta de altura de Baixinho, na inesperada quase simpatia de Monique, mas eu estava mesmo preocupado com Suíno. Coisa de amigo.