É impossível falar do bairro de Candeias, em Jaboatão dos Guararapes, e não falar de Allen Jerônimo (36). Da curva do Sesc à Barra de Jangada, todo mundo sabe a quem pertence o apelido de Big. Resistência cultural daquelas que começam no surfe matinal e segue madrugada adentro com violões ao redor de fogueiras à beira mar.

Residente no Rio de Janeiro há cinco anos, seguiu um novo rumo na vida em 2012, para respirar outros ares e levar sua música além. “Eu bati em vários portas daí, e nunca tive essa parada. Prefeitura de Jaboatão, Recife e Olinda. Sempre organizei eventos, me inscrevi em editais e nada. Mas lembro da frase que Lula Côrtes me dizia: Nunca pare de cantar sua música.

Primeiro ano de Allen no Rio de Janeiro | Foto: Facebook

A Geometria de Prazeres

Nascido em Prazeres, teve uma adolescência de um jovem da periferia com tendências de maluco de estrada. No início, gostava muito de desenhar, pichava paredes, gostava de rabiscar e pintar. “Como meu pai estudava desenho mecânico, eu era viciado em régua e compasso. Hoje estudo muito a geometria sagrada. São as figuras formadas através do nosso corpo. Cada vibração ao redor da gente nos faz balançar de uma maneira. Se escuta o som agudo, vibra mais. Grave, menos. Isso desperta as mandalas dentro de nós”, explica sobre o desenvolvimento do conceito.

Manual do sobrevivente da música com a Quarto Astral

Quando foi morar em Candeias, próximo à comunidade do Espinhaço da Gata, tudo em casa era limitado. Mas, independente, sua verve sempre esteve ligada às artes. “Uma vez cheguei pro meu pai e disse que queria fazer pulseira”, lembra. Ele comprou o material e Allen passou sete anos vivendo como artesão de praia. Morou em Gaibu e Maracaípe. “Pra mim, o segredo é ganhar dinheiro e curtir a vida de sandália”, filosofa.

Allen na praia de Barra de Jangada | Foto: Facebook

Resistência

Reconhecido pelos moradores da região como símbolo de resistência cultural, tocou em bandas de rock, como a clássica Rebeldes Ocultos. Mas foi com o projeto Allen Jerônimo, nome de batismo, que o pai deu em referência, à chave allen de materiais de construção, foi que alcançou notoriedade local.

“Nos reuníamos na beira-mar de Piedade, em frente ao Bar de Xexéu, que na época pertencia a Miguel e Romero, do Vates e Viola. Era surfe, violão e kaya, diariamente”, recorda. A escola de Allen começava a se formar com os músicos frequentadores do local, como o próprio Lula Côrtes, Xexéu, LuRaul, Vates e Viola, Ceguinho, Brasinha e Tabajara, explana.

Cenário clássico de Candeias, a areia, o mar e os barcos | Foto: Facebook / Arquivo Pessoal

Fogueira na beira do mar

Pouco tempo depois, começou a promover os famosos luaus, intitulados Rave de Raiz. Era uma fogueira na praia só com música clássica nordestina e roda de capoeira. O projeto bombou tanto que Allen certo dia andando pela praia em direção à Candeias, chegou a curva do Sesc e avistou aquela enorme faixa de areia vazia e gritou: “Mago, olha o lugar da rave de raiz. Temos que trazer pra cá”, afirmou.

Dezenas de luaus foram formados e sua primeira ligação com Candeias começava a se formar. “Candeias é beira de mar, esse é o meu lugar. Sol, sal, marzão e areia. Cannabis Sativa, poeira, o vento e a lua cheia”, declama a o verso da sua música numa entrevista por mais de duas horas ao telefone.

Allen, acostumado a seguir os conselhos do pai, ouviu o próximo: “Cabeludo, fale da sua terra. As pessoas gostam de ouvir as coisas que elas participam. Fale dos seus amigos nas suas músicas”. Desse momento em diante, três palavra são recorrentes nas músicas: Candeias, Kaya e Praia. Só depois de absorver esse momento que o Big começou a sentir a verdadeira energia do lugar. Os arco-íris que se formam diariamente, o mar, a praia.

Ponto de referência na beira-mar é barco | Foto: Reprodução Facebook
Conexão Rio de Janeiro

“Eu não sei se tive honra, prazer ou alegria, mas a minha história aqui é muito semelhante a todas essas contadas ao longo dos anos. Se você assistir ao programa Som de Vinil, de Charles Gavin, tem um com Zé Ramalho. Ele fala que dormiu nas areias de Copacabana. Não cheguei a isso, mas morava num cubículo na Cidade de Deus. Passei os perrengues clássicos do nordestino, lembra. A alimentação era cuscuz com calabresa no café da manhã, lanche da tarde e jantar. Um ano inteiro assim.

Parceria com MV Bill

Algum tempo depois, maceteado da rotina carioca, gravou o videoclipe da música Sol da Favela, com o rapper MVBill. Além desse, Allen tem mais seis clipes lançados, todos de forma independente. Chegou à Cidade Maravilhosa com uma mochila, um violão e uma zabumba. Hoje, apesar do respeito que tem pela Cidade de Deus, mora na Freguesia. As constantes lutas diárias já o aprovaram em quatro editais municipais, inclusive tocou no palco Tendências da Cidade, no Boulevard Olímpico.

Durante a gravação do videoclipe com o rapper MV Bill | Foto: Divulgação
Planos para o futuro

O músico é adepto do que ele chama de ‘lance da perpetuação‘. “Hoje, tenho uma consciência que tô nem aí pra visualizações e número de curtidas. Tô assinando com a gravadora Lança Discos, do Rio de Janeiro”, explica. Não segue em nada os facilitadores do mundo da redes sociais. “Não quero saber de que horas ou quando vou lançar uma música ou clipe, não faço eventos no Facebook. Quando tá pronto, lanço” explica sobre a dinâmica.

Allen | Foto: Gustavo Ribeiro
Candeias

“Candeias é minha casa. Quando alguém pergunta onde moro, eu não consigo dizer que moro no Rio de Janeiro. Nunca respondi que moro na Freguesia. Eu tô na Freguesia. Sempre que chego em Candeias essa ligação vem. Minha com a praia. Sinto essa resposta muito viva. Parece que eu, sem a praia, não sou eu.