Atualizado em 18 de maio.

Se  a vida é a arte do encontro, se encontrar é a obra-prima. Você pode ir em busca do autoconhecimento através de uma religião ou filosofia, você pode se dedicar a um esporte, você pode montar uma banda de rap. Foi assim que Nina Rodrigues, Ya Juste e Weedja Leite se juntaram neste mundo e é com o Arrete que elas te convidam a participar dessa jornada.

Era uma noite de começo de dezembro de 2017 quando vi as meninas no palco pela primeira vez. Saí da redação do PorAqui e dei de cara com o Rec’n’Play, um festival de experiências digitais, economia criativa e entretenimento que acontece na Praça do Arsenal, no Recife Antigo.

Lembro que vi as meninas dançando com suas roupas estilosas, com a make impecável, cabelos que iam em todas as direções e que, como num comercial de xampu, permaneciam incríveis.

Dos microfones, eu podia ouvir um sotaque forte, pernambucano. A pernambucana que há em mim queria entender uma a uma as palavras: veio “Arrete” (clique AQUI para ouvir o som), veio “Mizéra”, cujo clipe Não te quero mais mizéra será lançado ainda este mês.

A mulher que habita em mim olhava o palco com um misto de espanto e orgulho – afinal de contas, eram mulheres levantando a bandeira – a bandeira delas próprias, de todas nós. Eu estava achando aquilo tudo um acontecimento. E era mesmo. Quando sentei com elas para conversar, muitos meses depois, entendi, pelo menos em parte, tudo o que passaram até chegar até aqui.

Um novo mundo foi se abrindo

Eu não sabia que tinha outras mulheres fazendo rap em Pernambuco. Pra mim, as meninas do Arrete eram as primeiras. Fiquei sabendo de Preta Anna, de Mariana Oliveira. Que tem um mundo de mulheres fazendo rap, poesia, que são MC’s em Pernambuco. Fiquei sabendo da luta que é ser um grupo de mulheres numa terra de manos. Fiquei sabendo de tudo e tanto.

Weedja tinha vergonha de cantar rap – por ser mulher. Nina encontrou no rap onde fazer suas poesias cantadas. Ya diz que quando o rap chegou em sua vida, parecia que sempre esteve lá.

Fiquei sabendo que no começo, elas tinhas que botar calças folgadas pra cantar rap. “Você tinha que ser um mano. Eu não podia me aceitar como mulher. Hoje eu posso ser o que eu sou, o que eu quiser ser”, diz Nina Rodrigues, que começou no rap no ano 2000 e que viu o Arrete nascer em 2012, depois de vários encontros e reencontros com  Weedja e Ya Juste.

“Éramos impostas a cantar como os caras queriam, com roupas que para eles nos masculinizavam. Hoje eu as coloco porque quero, não porque é imposto por ninguém”, desabafa Nina.

“Tás pensando que tinha espaço pra dar microfone pra mulher cantar? Era escaço”, revela Weedja, que tinha tio dançarino de break, um dos primeiros daqui, o B.Boy, e começou dançando break nos clubes de Cajueiro Seco e Prazeres, no Jaboatão dos Guararapes.

Segundo ela, o máximo a que uma mulher podia almejar no universo do rap era ser backing vocal, com algumas poucas exceções. “A gente tá fazendo uma história diferente, mas aprendida com mulheres que já faziam história aqui no Hip Hop”, diz ela, que parece lembrar cada passo de break e de luta que deu para chegar até o momento atual, com o Arrete indo cada vez mais para o alto e avante.

“Queriam que a gente só cantasse denúncia, que a gente não cantasse nossas dores, que a gente não usasse shortinho curto, que não tivesse o cabelo maior”, diz Weedja. “A gente tenta dialogar com as letras, com a voz, com a presença, com o corpo. É tudo em movimento pra gente”, complementa Ya Juste.

“Alguém sabe o que Weeja passou por ser reprimida, oprimida, silenciada? Ninguém sabe.  Hoje em dia pra ela estar fazendo isso, é uma revolução  e é necessário”,  vem Nina com a cartada final.

Fã encontra fã

Outro dia, esbarrei com Paulo André, produtor musical, no Recife Antigo. Ele tinha visto uma foto minha com as meninas, feita no dia da entrevista no Paço do Frevo e publicada no Instagram delas (@projetoarrete) e quis saber mais. Aproveitei e entrevistei Paulo, sabia que ele era importante, de alguma forma, para a carreira das meninas de Jaboatão.

Paulo me conta que descobriu o trabalho do ainda Projeto Arrete (foi ele quem sugeriu que se tornasse apenas Arrete) no Youtube (para seguir o canal delas, acesse Arrete). Daí chamou elas pro Abril pro Rock Apresenta em 2016. Portão de entrada para outros festivais. Se apresentaram no Rec Beat este ano, no Rec’n’Play, já citado.

Paulo tem distribuído o CD delas por aí, o melhor cartão de visitas para uma banda. Perguntei o que lhe impactava nelas.

“Eu gosto muito da presença de palco delas. Como um todo, acho que elas têm um potencial de se projetarem nacionalmente. Agora, quando você vive no Nordeste, pra você se projetar nacionalmente você tem que empreender”, diz.

Eu, por minha vez, me refiro ao fato de elas abarcarem várias bandeiras, várias tags, por isso essa identificação do público. Ele me completa: “Subúrbio, cultura pop, dança, letra, Pernambuco, visibilidade feminina. Várias tags num som só. Eu acho incrível. Sou fã. Somos!”.

As portas estão se abrindo. Em maio, agenda de shows bombada. No dia 12, são convidadas de Flaira Ferro. Em 25 de maio, fazem parte de uma programação no Baile Perfumado que promete causar: se juntam a Attoxxá e Baco Exu do Blues. Para este último show, o PorAqui sorteia ingressos.

Agenda

12 de maio
Flaira Ferro convida Arrete, na Caixa Cultural Recife

Evento no Facebook: Flaira Ferro – Temporada de shows na Caixa Cultural Recife

25 de maio
Arrete, Baco Exu do Blues e Attoxxá no Baile Perfumado (Madalena, Recife – PE)
Evento no Facebook: Hellcife Flow – Baco Exu Do Blues, Àttooxxá, Arrete

Sorteio

É fã do Arrete? Quer conhecer o trabalho das meninas ao vivo? Tem sorteio de um par de ingressos PorAqui.

Saiu o resultado! O ganhador foi André Gustavo Bezerra Borges!