Na década de 1960, eram comuns as histórias de que uma das poucas formas de ter acesso a uma prancha de surfe no Brasil era através dos pilotos estadunidenses de companhias aéreas. Durante a rotina de trabalho para o litoral brasileiro, eles aproveitavam o tempo de folga para “pegar ondas”.

A história da Realce Nordeste, fábrica de pranchas de notório reconhecimento mundial, há 42 anos localizada, periodicamente, nos bairros jaboatonenses de Piedade, Candeias e Barra de Jangada, já foi base para importantes títulos, como o World Qualifying Series (WQS) do brasileiro Fábio Gouveia, Carlos Burle, Fábio Quencas e Picuruta Salazar.

Há alguns anos, a marca deu novo salto importante: assinou uma parceria com o shaper oficial do surfista Gabriel Medina. Mas a história da Realce começou a ser pavimentada, pelo menos, 20 anos antes do próprio Medina nascer.

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Em 1972, Rômulo Bastos (56), proprietário da empresa, aos 10 anos de idade era vizinho do Cônsul dos Estados Unidos, no bairro de Piedade. Seus dois filhos, californianos, já surfavam. “Eu não falava nada em inglês, mas sabe como é a linguagem das crianças, né? Os meninos trouxeram pranchas de lá e eu era o local daqui. Ficava olhando eles surfando no Canalzinho, que a gente chamava de Buraco da Freira, em frente ao Hotel Golden Beach, daí no final do dia, me davam uma onda”, lembra.

Certo dia, os garotos viajaram e deixaram uma prancha para Rômulo de presente. Não demorou muito até que o curioso garoto começasse a consertá-las. Na época, a resina e fibra – materiais utilizados na composição, eram novidades ainda. Em Pernambuco, acabara de ser lançada a primeira fábrica de lanchas. Os primeiros toques do shaper vinham dos profissionais que voltavam de aulas no exterior para aprender sobre os materiais.

Primeira onda

“Em 1976, fizemos a primeira prancha. Ela quebrou no meio ainda na primeira onda e não tínhamos material. Eu e Rogério, meu irmão, sempre instigávamos. Eram dez meninos que viviam na praia e faziam cotinha para fazer uma prancha para a turma”, recorda, e adiciona que a única forma de ficar atualizado com o mundo, era através de uma livraria no Aeroporto, que vendia revistas importadas. Alguns amigos traduziam e, neste mesmo ano, os irmãos Rômulo e Rogério, tiveram a ideia de não apenas “cair no mar”, mas viver, financeiramente, da fabricação de pranchas.

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Quatro anos depois, em 1980, a fábrica, conhecida na época ainda como RCB – iniciais de Rômulo e Rogério Carvalhos Bastos, já produzia dez pranchas por mês numa pequena fábrica em Piedade. O nome Realce aconteceu após a influência de alguns amigos que tinham um programa de televisão com o mesmo título.

Equipe da Realce Nordeste viajava o circuito brasileiro no ônibus | Foto: Arquivo Realce

“Em 1986 a coisa tomou forma. Comecei a frequentar campeonatos como surfista e fabricante. Montamos uma equipe e viajamos para Saquarema, no Rio de Janeiro. Todo mundo dividia a gasolina, mas ninguém tinha noção de nada e nem como era lá. Muito frio e um monte de jovem de regata da Hering no meio dos festivais que Nelson Mota (jornalista e escritor) produzia. Lembro que a trilha sonora era sempre Rita Lee”, conta, saudoso, Rômulo.

Exportação

Para o fabricante, o Rio de Janeiro sempre esteve à frente no mercado, mas isso fez com que ele iniciasse relacionamento com pessoas do “meio” para troca de informações tecnológicas. No mesmo ano, a fábrica que, até então era no fundo de casa, se estabeleceu num terreno de 900 m² no bairro de Barra de Jangada.

Equipe Realce | Foto: Arquivo/Realce

Nas mar, uma equipe toda preparada com atletas como Carlos Burle, Fábio Gouveia e outras lideranças que corriam o circuito brasileiro com técnico, preparador físico, material esportivo, e captação de imagens. Os resultados apareceram. Durante anos, os patrocinados pela Realce foram várias vezes campeões.

Essa brecha fez com que a marca iniciasse um processo de exportação para outros países e ganhasse novos mercados “Exportávamos pranchas pra Portugal, Espanha, França e Japão. O nome nacional tinha restrições fora do país e criamos um nome globalizado que se chama Custom”, explica.

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“No mundo não tinha nada parecido. Chegamos a fazer, durante 8 a 10 anos, 350 pranchas por mês. Em países como os EUA e Austrália, o mercado funcionava diferente: eles faziam o shape e enviavam para outros lugares terceirizados, como uma montadora. A Realce, não. Tinha toda sua produção em um local só. Fazíamos tudo do começo ao fim”, explica.

No mesmo ano, segundo Rômulo, a marca possuía uma equipe de revendedores autorizados e exclusivos: Porto Alegre, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, entre outros. Onde tinha litoral, estavam presentes.

Efeito Medina

Amigo de Johnny Cabianca, shaper de Gabriel Medina, trouxe o fabricante para Candeias, onde passaram 15 dias de trabalho intenso. “Faço muita coisa em parceria com ele. Para implantação da forma como utilizar alguns materiais, alguns franceses vieram pra cá e ficaram 30 dias capacitando. Dá para ter pranchas boas a partir de R$ 700, mas na hora de querer se diferenciar, tem que encostar num shaper para ele acompanhar sua história. Com R$ 2500 você corre um mundial com um equipamento muito bom”, afirma.

Rômulo importou da Austrália uma máquina de shape com tecnologia de ponta. “Consigo fazer aqui 100 pranchas iguais. Pego o que tem de mais moderno no mundo”, conta e, acrescenta que 90% do trabalho é feito mecanicamente através de um software específico, mas é necessário que o restante seja finalizado manualmente. Segundo Rômulo, os materiais usados são de altíssima qualidade e alinhados com os lançamentos mercadológicos. As fibras australianas e carbono russo são alguns dos exemplos dessa modernização.

“Depois dessa época do Medina do canal OFF, todo mundo quer surfar e pegar onda. Pai, filho e filha. Estou preparando a empresa para ainda mais 20 anos de existência. A gente tá vendo no Rio agora. De dez finalistas, cinco são brasileiros. Eu acho que, se tem uma galera massa chegando por aí, foi porque a Realce com Fábio Gouveia, Burle, entre tantos outros, tiraram várias pedras e pavimentaram essa estrada”, finaliza Rômulo.