O coração de um homem pode, muitas vezes, se dividir entre a “arte e o feijão”. Um dilema recorrente. O coração de Cláudio Marques, 60 anos, é abençoado: se divide entre o artesanato e o motociclismo.

A dedicação diária a criar peças de madeira tem espaço garantido na sua vida assim como sua paixão pela moto. Em Jardim São Paulo, na Zona Oeste do Recife, onde mora com a esposa Jaci, faz funcionar a sua oficina, a Fazendo Arte, e preside o moto clube Carcarás Estradeiros, fundado por ele e cuja sede fica nos fundos de sua casa.

Formado em administração, Cláudio fez de um tudo nessa vida: trabalhou com auditoria interna, foi gerente de transportadora, supervisor de esportes amadores do Sport e vendeu peixe e crustáceos na rua.

“Nunca me acomodei. Mesmo quando desempregado, eu corria atrás.”

Cláudio se dedica diariamente à criação de peças em madeira (Foto: Leonardo Vila Nova/PorAqui)

Fazer arte com as mãos ele aprendeu com a mãe – que também costurava fantasias para o Galo da Madrugada. Ela havia feito um curso na área e passou o conteúdo para ele e um amigo. “A gente resolveu fazer pra ganhar um trocadinho”. Na época, ele tinha 18 anos.

Depois de passar um tempo afastado do ofício, há sete anos voltou aos braços do artesanato. A Fazendo Arte funciona onde era a oficina de marcenaria do seu sogro. É lá que ele produz diversas peças feitas em madeira. Tudo funcional. “Faço porta joias, quebra-cabeças, porta retratos, brindes”, conta.

Todas as sextas, o trabalho de Cláudio pode ser visto na Casa da Cultura, onde expõe, das 6h às 11h30. Tudo vendido no atacado. “Quem compra são lojas, hotéis. Vem gente de vários estados comprar”, conta. “Tem peça minha até no Chile”.

Algumas das peças produzidas por Cláudio (Foto: Leonardo Vila Nova/PorAqui)

Já a moto é uma paixão antiga. Comprou a sua primeira em 1987. Uma Honda ML. Ele e os dois irmãos mais novos, cada um tinha a sua. Porém, um acidente que vitimou fatalmente o mais novo, Romero, em 1992, os obrigou, a pedidos da mãe, a largarem as suas.

Quase duas décadas depois, comprou novamente uma moto. Escondido da mãe. “Quando ela soube, ficou mais de um mês sem falar comigo”, conta. “Foi muita conversa pra ela aceitar a ideia”.

Cláudio e a sua turma dos Carcarás Estradeiros, motoclube fundado por ele em 2009 (Foto: Facebook Carcarás Estradeiros)

A paixão era tanta que criou o motoclube Carcarás Estradeiros, em 2009. Cláudio “Carcará” faz questão de diferenciar motociclista – o que ele é – de motoqueiro.

“O motociclista tem a irmandade e o companheirismo, o respeito às leis do trânsito”, ressalta. “Já o motoqueiro dá tranca, sobe em calçada, entra na contramão, quebra retrovisor”, chama a atenção.

Cláudio (à frente) dando um giro a bordo de sua Dyna Super Glide (Foto: Facebook Carcarás Estradeiros)

Cláudio também desmistifica o estereótipo “bad boy” dos motociclistas. “Muita gente nos vê de barba grande, de preto, com uma caveira na jaqueta, pensam logo que é algo macabro”, E arremata: “Alguns têm cara feia, mas o coração é grande”.

E isso se reflete nas ações sociais praticadas tanto pelos Carcarás como por outros motoclubes. “Muitos fazem mutirões e sopão para alimentar para alimentar quem precisa”, conta Cláudio.

Cláudio traz o brasão dos Carcarás Estradeiros tatuado no braço esquerdo (Foto: Leonardo Vila Nova/PorAqui)

A bordo da sua Dyna Super Slide (Harley Davidson), Cláudio já conheceu 16 estados brasileiros e fez amigos em lugares onde nunca imaginou. Para 2018, planeja ir mais longe. “Se der certo, vou ao Rio Grande do Sul e, se possível, dar uma esticada na Argentina”.

“É a paixão pela estrada, pela sensação de liberdade”, define seu amor pelo motociclismo. “Quando você viaja de carro, você admira a paisagem. Quando você viaja de moto, você faz parte da paisagem”, explica.