Quem não conhece Diogo não conhece Jardim São Paulo.”

A frase não carrega nenhum exagero quando se trata de Diogo Galdino da Silva. Verdadeira lenda viva do bairro, o barbeiro de 91 anos atravessou gerações e é um dos nomes mais famosos da região.

Foi em Jardim São Paulo que ele dedicou maior parte da sua vida ao ofício – 45 anos com sua barbearia instalada na Praça Central. Atualmente morando em Cavaleiro, Diogo vem quase que diariamente rever os amigos e matar as saudades.

Nascido em Nazaré da Mata, chegou no Recife em 1945, para servir ao Exército. Seu próximo destino seria a Itália, para combater na Segunda Guerra Mundial, que, para seu alívio, acabou antes que ele embarcasse.

Mesmo morando atualmente em Cavaleiro, Diogo visita Jardim São Paulo quase diariamente (Foto: Leonardo Vila Nova/PorAqui)

Dispensado da Força Militar, foi ajudar o padrinho, Orélio, em sua barbearia no centro da cidade. Lá, deu seus primeiros passos na arte de fazer cabelos e barbas. Dois anos depois, em 30 de julho de 1947 – então, com 21 anos – botava os pés em Jardim São Paulo, para trabalhar no estabelecimento de um amigo, na Rua Metódio Maranhão.

“Quando eu cheguei, não tinha nada. A praça não existia. Era tudo mato. Um mato baixinho. Saía correndo uma água como se fosse um riachinho”, lembra. “Eu vi construir a delegacia e a Igreja Matriz, que começou como uma capelinha de tábua”, continua. “Aqui tinha poucas casas e as ruas eram todas de números. Era Rua 20, Rua 10… Depois foi que ganharam nomes”, vai recordando.

Como barbeiro, o destino reservou a Diogo o seu primeiro casamento. Conheceu Neide, sua futura esposa, na barbearia. Ela acompanhava o irmão, que tinha ido cortar o cabelo. Na hora, se encantou pela moça e pensou: “Vou namorar com ela!”. Pouco se importou com o fato de ela ser filha de um policial e noiva de um sargento da Aeronáutica.

Aos 91 anos, Diogo passou 45 deles com sua barbearia na Praça Central de Jardim São Paulo (Foto: Leonardo Vila Nova/PorAqui)

Não deu outra: “Ela desfez o noivado, já perto de casar, pra namorar comigo”. Pouco depois, vieram se casar e tiveram três filhos: Navamuel, Neide e Diogo Filho.

Quando se instalou na Praça Central, Diogo fez de sua barbearia ponto tradicional no bairro. Conquistou amizades, clientes e admiradores. Tornou-se figura respeitável. “Quando um delegado iria deixar o cargo, sempre vinha me apresentar o que estava chegando pra assumir”, conta ele.

Seu nome é tão famoso que chegou a batizar um beco que fica ao lado da antiga barbearia na Praça. O Beco do Diogo foi oficialmente inaugurado pela Prefeitura do Recife, durante a administração de Antonio Farias, em 1981.

Na época, só soube da honraria a caminho do trabalho. “Disseram que ia ter uma festa pra mim. Eu nem estava sabendo. Quando cheguei, vi o beco fechado dos dois lados. Tinha uma placa, com um pano cobrindo, pra eu tirar, e meu nome lá: BECO DO DIOGO”, conta. “Foi uma festa danada: 14 grades de cerveja e churrasco à vontade”.

O Beco do Diogo foi inaugurado em 1981 pela Prefeitura do Recife (Foto: Leonardo Vila Nova/PorAqui)

Outra característica que se tornou marca registrada de Diogo é o fato de se vestir todo de branco. “Já me perguntaram se eu era enfermeiro”, diz ele, achando graça.

Mas, explica: “Eu gostava muito de vestir vermelho e preto”, diz o rubro-negro. “Até que, um dia, vi um senhor todo de branco e achei bonito. Resolvi fazer o mesmo e gostei. Fui comprando só roupa branca e guardando. Num certo réveillon, há mais ou menos uns 35 anos, decidi que só ia vestir branco, até morrer”, revela. “Hoje em dia, é tudo branco: camisa, calça, meia, cueca”.

Atualmente, Diogo mora em Cavaleiro e está casado com Nelci (a primeira esposa, Neide, faleceu há mais de duas décadas). Há quase quatro anos, ele encerrou as atividades na Praça Central. Ainda atende alguns clientes, em casa. “Tem gente que só corta o cabelo comigo”.

A saúde e a disposição, garante ele, estão em dia. Aos 91 anos, só se queixa discretamente do cansaço nas pernas. “Coisa da velhice mesmo”, ressalta. Mas, mesmo assim, frequenta Jardim São Paulo todos os dias – exceto aos domingos, ele frisa.

“Tudo que eu tenho hoje eu devo a Jardim São Paulo. Foi aqui, como barbeiro, que fiz minha vida, me casei, tive meus filhos, ganhei amigos, gente que só corta o cabelo comigo. É o lugar que eu amo!”.