Com a mobilização de um grupo de moradores, um lugar baldio e ocioso se tornou um espaço de convivência e símbolo de toda uma comunidade. A Praça do Cristo, em Jardim São Paulo, na Zona Oeste do Recife, é a prova de que ocupar os espaços públicos da cidade é urgente e necessário.

A Praça do Cristo fica às margens do Canal de Guarulhos, num trecho próximo à BR-101. O local, que conta com um parquinho – escorrego, balanços, gangorra –, bancos, um palco fixo e a imagem do Cristo que lhe dá nome, só existe hoje unicamente pela movimentação dos próprios moradores.

Foi a paralisação das obras do Canal de Guarulhos que chamou a atenção de algumas pessoas para aquele espaço.

“A área seria um local abandonado, pois não fazia parte do projeto do canal”, conta a auxiliar administrativa Marcela Silva.

foto da Praça do Cristo em Jardim São Paulo
Ocupação do local é fruto da iniciativa civil no bairro (Foto: Facebook Praça do Cristo JSP)

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“Ficamos sabendo que pessoas de outros bairros estavam planejando invadir o local”, conta a também moradora a terapeuta ocupacional Siberia Falcão. “Ia acabar se tornando mais uma favela se a gente não ocupasse com algo útil para a comunidade”, continua.

Diante disso, resolveram arregaçar as mangas. Com pás, enxadas, carros de mão, baldes e a vontade de colaborar, deram início ao mutirão. No dia 27 de dezembro de 2015, era inaugurada a Praça do Cristo.

Mas ainda era apenas o espaço, já trabalhado a várias mãos. “Era uma espécie de demarcação do território, para mostrar que aquele lugar pertencia à comunidade”, conta a técnica administrativa Márcia Bezerra. “Só que a gente fez uma mega festa, com peça de teatro, música, brinquedos, treinamento dos Bombeiros com as crianças”, lembra Siberia.

Brinquedos da Praça foram fruto de doações conseguidas pelos moradores (Foto: Facebook Praça do Cristo JSP)

A Praça do Cristo foi tomando forma com o tempo. A partir de doações, realização de um bingo e um bazar, e o esforço de cada um, foram arrecadando os materiais para erguer a praça. Pneus, garrafas pet, tinta, tijolos, bancos e os brinquedos… tudo o que era possível reunir para dar uma nova cara ao local.

“Do que você vê hoje nessa praça, 90% foi feito por mulheres e crianças. A gente que carregava carro de mão, pegava os pneus quando achávamos no caminho. Todos nós, moradores e amigos, que fizemos isso”, destaca Siberia.

O Cristo foi um achado nesses caminhos de BR, rumo ao interior. “Eu e meu marido, indo pra Bezerros, vimos esse Cristo em Gravatá. Resolvemos comprá-lo”. E assim foi batizada a Praça, que ainda não tinha nome. “Acabou sendo também um símbolo pra abençoar essa nossa luta e o nosso espaço”, ressalta Márcia.

A área onde está localizada a Praça do Cristo é do Departamento Nacional de Infraestrutura e Transporte – DNIT. O órgão – através de um documento oficial – não fez restrições à presença da Praça.

Aqui no bairro, os moradores também costumam ocupar as ruas na prática de exercícios físicos.

Lazer e conscientização

Além de um espaço de convivência, a Praça do Cristo é hoje ponto de encontro para diversas atividades promovidas pela comunidade e para a comunidade. “Além de um lugar de lazer, a Praça do Cristo também dissemina cultura e conscientização”, diz a assistente social Sulamita Santos.

No local, acontecem aulas de jiu-jistu gratuitas para as crianças da região, campanhas de saúde – ação preventiva odontológica, combate à filariose – reuniões para tratar de assuntos de interesse da comunidade, assim como a realização de festas – Carnaval, Páscoa, Dia das Mães – e atividades como concursos de dança, pintura, etc.

Campanha da Filariose na Praça do Cristo: 170 pessoas fizeram o exame do fura-dedo (Foto: cedida por Siberia Falcão)

“No ano passado, fizemos um debate com os candidatos a vereador pelo bairro. A intenção era ouvir as propostas de cada um”, diz Márcia. “Muita gente daqui da comunidade de Guarulhos acabou decidindo seu voto depois desse debate”, diz Siberia.

Recentemente, o grupo realizou uma campanha de arrecadação de mantimentos para as vítimas da chuva no interior do estado (Escada, Ribeiro e Cucaú-Rio Formoso), que foram entregues neste domingo (4). Outras ações também vêm sendo realizadas para ajudar na “manutenção e limpeza da Praça, término da pintura do muro e repintura dos brinquedos”, destaca Siberia.

“Muita gente achava que só uma ação popular não iria conseguir fazer com que isso existisse e que conseguisse se manter”, diz Siberia. “Trabalhamos para que todos utilizem, preservem e mantenha a ordem do espaço. Afinal de contas, é público, mas temos que manter organizado”, diz Marcela Silva.