É na casa 491 da Rua Pedro Melo, em San Martin, que vive um amor sem tamanho. Amor pelas fogueiras, pelas comidas de milho, pelos arraiais e quadrilhas. E esse amor tem morada certa: o coração de Sebastião Freitas da Silva, 76 anos. Ou melhor, “Seu Basto”, como é conhecido.

É na casa do alagoano de Palmeira dos Índios que fica a sede da Quadrilha Junina Dona Matuta, a mais famosa de San Martin, uma das mais premiadas do estado e recente campeã do 33º Concurso de Quadrilhas Juninas, promovida pela Prefeitura do Recife.

Seu Basto é pai de Sérgio Trindade, presidente e marcador da Dona Matuta. E a casa deles se tornou uma espécie de “QG” da quadrilha. E Seu Basto, uma referência na rua onde mora e para todos aqueles com quem convive.

Na casa de Seu Basto, santos juninos dividem espaço com os troféus da Dona Matuta (Foto: Leonardo Vila Nova/PorAqui)

Começou dançando quadrilha por volta dos 16 anos, no bairro de Areias. Todo ano, ele era o noivo. Quando se casou – de verdade – com dona Lúcia (com quem vive há 43 anos e tem dois filhos), parou de dançar. Mas por pouco tempo.

Anos depois, morando em Jardim São Paulo, a paixão incurável o fez montar sua própria quadrilha, que nem nome tinha. Era apenas diversão. “A gente brincava só no local mesmo, pela vontade dos componentes”, conta.

Nessa quadrilha, Seu Basto era o marcador e fazia questão de seguir à risca a tradição.

“O pessoal usava roupa de chita, calça jeans desbotada. Só quem se vestia diferente eram os noivos, a Rainha do Milho, o padre e um guarda”.

O gosto por quadrilhas juninas e o ofício de marcador ele deixou como herança para seu filho Sérgio. “Na época que eu brincava, Sérgio era o mascote da quadrilha”, lembra. “Com o tempo, ele foi pegando gosto pela coisa. Quando eu pendurei as chuteiras, ele assumiu”.

Seu Basto tinha 55 anos quando se “aposentou” de quadrilha junina. Nessa época, ele já estava de volta a San Martin. Mas, a paixão, ele não deixou de lado. Só se renovou quando viu o filho e alguns amigos criarem a Dona Matuta. “Eu me senti orgulhoso, quando vi as primeiras reuniões aqui na frente de casa”.

Daí por diante, Seu Basto passou a acompanhar os ensaios da quadrilha. Atento, não deixa passar um detalhe. “Quem tá de fora, vê melhor. Eu fico de olho em tudo, pra ver se tem algum erro. Quando tem alguém ‘voando’, eu chamo logo a atenção!”, avisa.

Tradição em casa e na rua

A casa de Seu Basto se tornou ponto de encontro da Dona Matuta. É lá que vão se desdobrando todos os preparativos para as apresentações do grupo. E onde também costuma receber integrantes de quadrilhas de outros estados, que se hospedam lá. “São seis meses de agonia aqui dentro de casa. Mas é uma bagunça que a gente gosta!”

Seu Basto exibe, com orgulho, um dos troféus conquistados pela Dona Matuta (Foto: Leonardo Vila Nova/PorAqui)

Dona Matuta é também o nome da gatinha que eles criam em casa. Encontrada na rua, após um ensaio da quadrilha, a felina foi acolhida e ganhou o nome da quadrilha. “Ela é o xodó da gente”, revela Seu Basto.

A Rua Pedro Melo, naturalmente, acabou se tornando extensão da Dona Matuta e desse amor pelo São João, que mal cabia dentro de casa. Seu Basto faz questão de enfeitar a rua com bandeirinhas e lâmpadas. Ele mesmo instala.

“Compro papel, compro cordão. Fico com a ‘munheca’ doendo de tanto grampear as bandeiras”, conta ele. “Tem gente que reclama que eu não tenho mais idade de fazer essas coisas”, diz ele, sem dar muita importância. Continua fazendo, com vontade.

Seu Basto é quem prepara as bandeiras que enfeitam a Rua Pedro Melo (Foto: Leonardo Vila Nova/PorAqui)

A fogueira também é tradição que segue religiosamente. “Eu passo o ano inteiro juntando lenha. Se um pé de árvore cair, eu vou lá de madrugada e amanheço o dia cortando madeira”, revela.

“São seis fogueiras. Duas pra Santo Antônio, duas pra São João e duas pra São Pedro”, revela ele sobre os santos preferidos. Uma outra imagem, a de São José, completa o time.

E fazendo jus ao lema da Dona Matuta – “Aqui é só alegria!” –, Seu Basto não deixa a peteca cair. No auge dos seus 76 anos, só tem a celebrar. “Eu faço meu São João todo ano. Enquanto Deus me der saúde e alegria, eu tô fazendo”.