Em meio aos últimos dias de chuva, o céu deu uma trégua para o nosso encontro: a cantora Isaar fez uma visita a Jardim São Paulo, bairro onde nasceu e cresceu, e rememorou lembranças da sua infância e juventude, assim como lugares que até hoje marcam suas memórias afetivas. O PorAqui acompanhou o passeio.

Aos 43 anos, Isaar é a terceira dos cinco filhos de Seu Ailton e Dona Dulce. Foi a primeira que nasceu em Jardim São Paulo. Há aproximadamente duas décadas, deixou o bairro e foi levada pela música a alçar voos mais altos, quando passou a fazer parte do grupo Comadre Fulozinha, nos anos 1990.

Hoje em carreira solo, já rodou o mundo inteiro ao lado de nomes como DJ Dolores e Orchestra Santa Massa e Antonio Nóbrega.

Jardim São Paulo ainda está lá, bem vivo nela. A cada passo, uma lembrança vem à mente. Seja a Escola Cebolinha – onde estudou quando criança –, a boate “Esqueminha” (“eu sabia que existia, mas nunca cheguei a entrar lá”), o antigo “sítio mal assombrado” (onde hoje está o Conjunto Residencial Cordeiro de Farias), a venda de Seu Moura (uma espécie de “fronteira” da parte baixa do bairro). Tudo ainda é presente na lembrança.

“É impressionante como tudo parece menor quando a gente cresce”, diz Isaar ao lembrar das dimensões gigantescas que cada cantinho do bairro tinha aos seus olhos de menina.

“Pra mim, essa era a maior e mais importante rua do bairro. Vê só!”, fala ela sobre a Rua Cacilda Breckenfeld, onde, lembra ela, desfilava a tradicional quadrilha junina Nóis Sofre, Mas Nóis Goza.

A pequena Praça El Salvador era parada certa das crianças no dia a dia, seja no caminho da escola ou de um mercadinho, por exemplo. Seu Ailton, pai de Isaar, também era frequentador do local. “Aqui ele jogava dominó, conversava, brincava muito com o pessoal”, conta ela.

Isaar relembra momentos da juventude no bairro onde viveu mais de duas décadas (Imagem: Suzana Souza/PorAqui)

Já a Praça Central (a famosa “Praça Redonda”) era aonde ia nos fins de semana, principalmente nos dias de missa. “A gente tem a Igreja Matriz aqui do lado. E Jardim São Paulo é feito uma cidade de interior, que sempre tem a pracinha e a igreja. Era bem bacana sair dia de domingo. Quem não ia pra missa, ficava aqui pela pracinha, em volta… tinhas os ‘paqueras’”.

Da Igreja, traz mais outros momentos: “Eu também dancei no pastoril, em janeiro, na Festa de São Paulo que tinha aqui. Era do Cordão Encarnado”, conta.

Isaar morava com a família no conjunto residencial El Salvador. Do lado, o “campo”, onde muitos jovens até hoje batem a tradicional pelada. “Eu lembro muito dos showmícios que tinham aqui, principalmente um de Reginaldo Rossi”, rememora. “Na verdade, eu não cheguei a ver. Minha mãe não deixou. Mas de lá de casa dava pra ouvir tudinho”.

Já no Palhoção, que fica ao lado do campo, e onde acontecem as festas juninas da região, Isaar revela um desejo:

“Eu tenho a maior vontade de fazer um show aqui”, disse ela, de olhos brilhando, fitando as bandeirolas de São João que já enfeitam o local.

Isaar já se apresentou duas vezes em Jardim São Paulo. Ambas pelo Carnaval do Recife. A última, em 2015, foi bem especial. “Muita gente veio ver. Tinham parentes, muitos amigos daqui do bairro, amigos dos amigos. E eu lembro do bochicho entre o pessoal mais jovem, comentando ‘Ela era daqui do bairro’. Foi bem massa”.

Isaar foi todo sorrisos ao relembrar momentos de sua vida em Jardim São Paulo (Imagem: Suzana Souza/PorAqui)

Hoje morando no centro do Recife, Isaar vem com frequência a Jardim São Paulo visitar a mãe. Em geral, acompanhada do filho Ravi, de 5 anos. “Gosto muito de trazer meu filho aqui, pra ele ter essa relação de andar no meio da rua.  Suburbano só anda no meio da rua, né? Não anda na calçada”, diz, entre risos. “É legal isso, de ter a rua como nossa, de ver galinha na calçada, de pisar na areia, na terra”, destaca Isaar, entre a paisagem de interior que vai se descortinando.

“Jardim São Paulo é um bairro muito pacato. Mesmo que tenha crescido com o tempo. Mas sempre foi um bairro muito de residências, de pessoas que chegaram e se fixaram aqui para fazer esse lugar crescer”, conta ela.

Do tempo exato que já não mora mais no bairro, ela perdeu as contas. “Eu me sinto ainda como se morasse aqui. Venho sempre por aqui. Ainda tenho Jardim São Paulo dentro de mim”, revela.