O inverno começa a dar seus sinais no Recife e moradores do bairro de Jardim São Paulo, na Zona Oeste do Recife, já se preparam para reviver momentos de aflição. Às margens do Canal de Guarulhos, dezenas de famílias são prejudicadas com a inundação das ruas e o alagamento das suas casas. A situação se repete há anos e parece estar longe do fim.

As obras de revestimento e drenagem do canal são motivo de desentendimento entre a Prefeitura do Recife e a Cinzel, empresa licitada para realizar as intervenções. Nenhuma das duas assume a responsabilidade sobre a paralisação do serviço e quem sofre são os moradores.

Apenas dois dos seis trechos da obra foram concluídos (Foto: Leonardo Vila Nova/PorAqui)

Com orçamento de mais de R$ 22 milhões, o revestimento do canal, iniciado em 2012, deveria durar 720 dias. Já se vão quase cinco anos. Das seis etapas do serviço, apenas duas foram concluídas. Isso representa 600 metros de um total de 1,6 km previsto para receber as intervenções. Desde o fim do ano passado, o canteiro da Cinzel já não se encontra mais no local.

A paralisação das obras e a ausência de limpeza periódica do canal são as principais queixas dos moradores. Basta chover e, em poucos minutos, a água, que não escoa, se acumula, transborda do canal, alaga as ruas e invade as casas.

Antes, o canteiro de obras da Cinzel. Hoje, um terreno baldio (Foto: Leonardo Vila Nova/PorAqui)

Segundo o psicólogo Reginaldo Júnior, morador da comunidade, a situação só vem se agravando.

“Antes, eram duas enchentes por ano, durante o período de inverno. Agora, são duas por semana. Qualquer chuvinha que dá enche de água”, relata.

“Aqui fica parecendo o mar”, acrescenta Maria Lúcia Damasceno. A casa dela é uma das mais atingidas. Fica num rebaixamento da Rua Bragança, com uma galeria situada bem à frente. É para lá que segue maior parte da água. “Eu tenho uma mãe, de mais de 90 anos, acamada. É a maior preocupação quando chove, porque a água chega a atingir os fundos da cama dela”.

No vídeo feito por Reginaldo, em 2015, dá para ter uma ideia dos problemas quando chove.

De acordo com Reginaldo, o assoreamento do canal e a vegetação que se acumula em suas margens – o que dificulta o escoamento da água – sãos causas dos transbordamentos. “Uma vez, os próprios moradores tivemos que tirar o acúmulo de mato que tinha no canal, porque a prefeitura não vem resolver isso”.

Vegetação que se acumula no canal também contribui para as enchentes (Foto: Leonardo Vila Nova/PorAqui)

A comerciante Marliete Vasconcelos já perdeu as contas de quantos móveis e objetos já perdeu. “Na minha casa, a água chega a um 1,20 metro. Não tenho mais objeto nenhum. Quando dá chuva, vou pra casa da minha filha e espero passar. Quando volto, tenho que limpar tudo”, diz.

Quem resolve o problema?  

Procuradas pela reportagem do PorAqui, a Empresa de Urbanização do Recife (URB) e a Cinzel deram versões diferentes sobre o caso.

Por meio de sua assessoria de imprensa, a URB informou “que irá rescindir o contrato com a empresa atual e realizará nova licitação para garantir a continuidade das obras”. Questionada sobre o que levou à interrupção do contrato, disse que “a empresa não conseguia mais tocar a obra”, por motivos que “só ela pode explicar”.

No entanto, um gerente de obras da Cinzel rebateu a informação. Disse que não havia qualquer rescisão, mas, sim, uma suspensão temporária e se negou a dar mais informações, afirmando ser responsabilidade do “contratante” (no caso, a URB) responder sobre o caso.

Limpeza – A Autarquia de Manutenção e Limpeza Urbana do Recife (Emlurb) também foi procurada pela reportagem. Em nota, disse que “o serviço mais recente realizado aconteceu nos meses de maio a junho do ano passado e o trabalho custou R$ 60 mil”.

Acrescentou que “no momento, executa serviços de limpeza no Canal Jiquiá, que é o local de destinos das águas do Canal Guarulhos. O trabalho é importante para contribuir com o escoamento da água nos dois locais”.