O menino que se banhava nas águas do “Velho Chico” hoje vive em meio à “Selva de Pedras”. E entre esses dois cenários, existiu um bonito e simpático bairro recifense. Nascido e criado em Petrolina (PE), Zé Manoel é um dos nomes mais importantes da música pernambucana. Com dois discos lançados, Zé Manoel (2012) e Canção e Silêncio (2015), reside, atualmente, em São Paulo.

Antes de se mudar pra lá, morou no Recife. Poucos sabem, mas o lugar escolhido para viver foi Jardim São Paulo.  As lembranças dessa época são muitas. Afinal, ele morou por duas vezes no bairro: entre 2000 e 2001; e, depois, entre 2007 e 2016. Em conversa (via skype) com o PorAqui, ele revelou como foi esse período.

“Da primeira vez, fui para o Recife com minha família toda”, conta. Na segunda, veio cursar Música na UFPE e passou a morar com duas irmãs. O fator decisivo para escolher Jardim São Paulo, segundo Zé, foi a boa localização. “O que influenciou muito foi porque tinha metrô bem perto (Estação Werneck), tinha ônibus e ficava próximo da (Universidade) Federal”, lembra.

A paixão pelo bairro não foi à primeira vista. O estranhamento do sertanejo diante da nova vida na cidade grande foi inevitável. “Eu me incomodava porque me sentia ilhado. Em Petrolina eu fazia todas as coisas andando. Já no Recife, para tudo eu precisava pegar ônibus ou metrô, sem saber ainda andar na cidade. E em Jardim São Paulo, no começo, tinha essa coisa de me sentir preso numa cidade ainda menor que Petrolina”, conta.

Zé Manoel (Foto: Luan Kardoso/Divulgação)

Aos poucos, ele foi desbravando o ambiente, entendendo a dinâmica do bairro. A Praça Central foi quem lhe fisgou primeiro. Foi lá que começou a se apaixonar por Jardim São Paulo. “Passei a frequentar muito a praça, a caminhar muito por lá, conta Zé, que, frequentemente, se exercitava, em caminhadas na praça e no seu entorno.

“Tem também a feirinha (da Sulanca), aos sábados, as festas de São João e da Igreja (Matriz de Jardim São Paulo), que são ali”, conta mais sobre a Praça. “Passei a fazer capoeira também, que rolava de graça. Comecei a entrar mais no universo do bairro e descobrir e como é legal estar ali”, continua. “Uns 3 anos depois foi que eu me dei conta de onde eu estava e sentia o maior orgulho de morar em Jardim São Paulo”.

Outra coisa que marcou Zé Manoel foi a paisagem verde que compõe Jardim São Paulo. “É uma área muito arborizada, bonita. “Logo eu, que vim do Sertão, lembro o quanto me encheu os olhos morar num lugar com tanto verde e tanta umidade”, diz. “Na primeira casa onde eu morei, dava pra ver vários quintais, cheios de plantas e árvores. Eu me sentia como se estivesse morando no meio da Mata Atlântica”.

Durante o tempo em que viveu no bairro, Zé ficou atento às transformações que se deram nele. “Todas as mudanças que eu vi acontecer foram por conta de iniciativas particulares: seja uma burgueria, um (restaurante) japonês, um Açaí, o Maria Maria”, conta.

Para ele, isso foi essencial para fomentar a vida e a economia de Jardim São Paulo. “Foi bacana surgir esses empreendimentos. Antigamente, pra você achar um lugar legal pra comer, tinha que ir pra outros lugares. Hoje, você tem muita coisa legal dentro do próprio bairro”, pontua Zé.

Zé Manoel (Foto: Luan Kardoso/Divulgação)

No entanto, para ele, a única coisa que não mudou foi a desatenção do poder público. “Estruturalmente, nunca vi nada sendo feito. Jardim São Paulo é escanteado por todas as prefeituras. Você vê locais como a Praça ou a Avenida São Paulo, que não tem a devida manutenção. A prefeitura não está presente”, reclama Zé.

De morador a artista do bairro. Com a carreira em ascensão, Zé começou a estampar as páginas dos jornais. Vez ou outra, o rapaz tímido era reconhecido pelos vizinhos. Era visto com um novo olhar. “Principalmente quando eu aparecia na TV. No supermercado e na praça, gente que eu não conhecia me parava, dizia que tinha me visto. O pessoal da academia que eu frequentava também vinha falar comigo”, recorda.

Hoje distante, Zé ainda guarda um carinho especial pelo bairro onde morou por uma década, no Conjunto Cordeiro de Farias, vizinho ao Lar das Vovozinhas. E dá dicas do que fazer ao ir em Jardim São Paulo.

“Sempre que tinha visita eu levava ao Maria Maria. Comida regional, não tem lugar melhor. E também passar uma tarde na Praça, tomar um sorvete, bater um papo. É demais! Tem também a loja de bolos, o rapaz que vende queijo que, vez ou outra, está ali (próximo à Granja Muito Tudo, na Avenida São Paulo). Junto dele, a moça que vende canjica e mugunzá”, indica.

Ao final da conversa, em meio a tantas recordações, Zé abriu um sorriso e revelou: “Chega deu saudade aqui, falando do bairro”.