O mistério começava desde o nome, eu não entendia o que significava a palavra “alaussa”. A sensação era de uma ameaça velada. A estética maloqueira da gambiarra e as provocações das crianças da Ilha do Rato, nome popular para uma favela de Jardim Atlântico (Olinda-PE), traziam informações muito novas para mim.

A origem da brincadeira é cigana e a presença no imaginário afetivo infantil é repleta de símbolos controversos. Curioso em acessar outras narrativas sobre a La Ursa, resolvi investigar as lembranças e sensações de sete pernambucanos à respeito da tradicional personagem do nosso carnaval de rua. Confere! ?

José Juva, poeta

Eu sentia um misto de medo e euforia, achava louco isso de aparição, eram desconhecidos que apareciam do nada e para o nada iam. Eu viajava na liberdade, no improviso do batuque, e claro, na arriação.

O poeta José Juva lamenta por nunca ter participado de uma La Ursa. Foto: Reprodução/Facebook

Eu nunca vi uma La Ursa gourmet, acho que esse será o passo derradeiro para a vinda do cometa ou o início do apocalipse (risos). A La Ursa é uma zona temporária. E nômade! 

Carlota Pereira, produtora

Fazíamos o tambor de lata e para fazer a pele do instrumento colocávamos um plástico mais resistente, com borracha de câmara de ar de bicicleta. A roupa da La Ursa era feita de saco de farinha e de saco de açúcar, que era nylon.

Carlota produzia pele de tambor com câmara de ar de bicicleta. Foto: Reprodução/Facebook

Na escola, a música ficou mais vulgar: “Esse urso não é daqui, é de lá da Pitombeira, se não der dinheiro, ele vai morrer de caganeira, atola o dedo no bolso do urso, se não deixar, atola a pulso “. Achava essa música meio agressiva, pois o urso sofria na dedada.

Angélica Nascimento, poeta

Angélica destaca a sensação de união entre os participantes. Foto: Reprodução/Facebook

Já participei de uma La Ursa com meus amigos no Janga (Paulista-PE) quando tinha oito anos. Juntamos uma galerinha e fomos pedindo de casa em casa. Senti uma sensação de euforia, misturada com felicidade, além de um sentimento de união grande entre as pessoas do grupo. Eu estava tão feliz imaginando a quantidade de bombons que íamos comprar no final.

André Moras, artista

Eu tinha 10 anos e estava de férias na Vilinha de São Bento (Maragogi-AL). Porta-janela, saia e blusa. A parte de baixo fechada e eu me esforçando para ver por cima da porta de onde vinha o barulho. Crianças gritando pela rua de terra, a poeira subindo, as máscaras rotas cobrindo os rostos e muitas panelas sendo batidas com aquelas colheres de pau de enrolar brigadeiro.

André Moraes relembra som das crianças do outro lado da porta. Foto: Reprodução/Facebook

E nesse esforço contínuo, algum adulto abre a porta e diz “vai”. E naquela cidade de pescadores, pacata, eu pude me divertir bastante correndo pela rua, levantando poeira e sorrindo muito com cada porta que se abria.

Adriana Preta, fotógrafa

Lembro da minha infância no Alto do Monte (Olinda-PE), lá tinha um grupo de bêbados que se reuniam pra sair com a La Ursa e todo dinheiro que conseguiam era pra comprar cachaça. Na frente da minha casa tinha uma barraca e depois que eles faziam o cortejo se reuniam pra beber e a coitada da ursa ficava jogada lá no canto.

Adriana lembra da La Ursa também como uma brincadeira etílica. Foto: Reprodução/Facebook

Leo Antunes, produtor

Tive um Urso no bairro que fui criado, em Pau Amarelo (Paulista-PE). Entre as brincadeiras praianas tinha este momento do ano que minha mãe fazia as fantasias de saco de pano para a minha turma da rua e também o estandarte.

A mãe de Leo Antunes produzia a La Ursa para ele e os amigos. Foto: Reprodução/Facebook

Então, a “Turma do Saco”, saia batendo lata e pedindo dinheiro aos vizinhos. No final dividíamos o arrecadado para comprar sorvete.

Domênica Rodrigues

Eu ficava sempre segurando a lata com as moedinhas, no lugar do recolhimento. Era bem interessante, a sensação era de muita gratidão quando nos pagavam, e de muita tristeza quando nem ligavam pra gente. 

Domênica era uma espécie de tesoureira da La Ursa. Foto: Reprodução/Facebook

O “quem não dá é pirangueiro” saia com muito mais força, porque era pra intimidar o outro e fazer com que ele desse pra gente aquele recurso que a gente tanto precisava. No final a gente dividia o dinheiro pra comprar o que chamamos aqui (em Pernambuco) de dudu.