A arquitetura do casario denunciava a situação socioeconômica dos moradores. Foto: Rodrigo Édipo/PorAqui

Você já se perguntou sobre a origem do ditado popular “sem eira nem beira”? Como acontece com várias expressões famosas que replicamos sem nem saber o motivo, essa também revela um passado de segregação e preconceito.

Segundo a pesquisa “Técnicas construtivas do período colonial”, realizada pelo arquiteto e urbanista Silvio Colin, tal sentença é proveniente de Portugal e está diretamente relacionada às pessoas que não possuíam muitos bens materiais e viviam em situação de pobreza.

E o que isso tem a ver com Olinda? Bem, nossos guias de turismo do Centro Histórico, que já foram pautados PorAqui, afirmam que a cidade tem tudo a ver e este “causo” faz parte do repertório de 99,9% dos rolês turísticos que eles estiverem à frente.

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Acontece que a gênese das palavras “Eira e Beira” vem também de um estilo arquitetônico utilizado no Brasil Colônia que você pode encontrar facilmente aqui na Cidade Alta, cujas famosas fachadas coloridas dos imóveis foram tombadas como Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade pela Unesco, em 1982.

Como os mais atentos já devem ter percebido, nesse tipo de construção colonial existe uma espécie de extensão ondulada (ou aba) que fica acoplada por baixo do telhado. Para além do toque decorativo, esse aspecto arquitetônico português servia para denunciar o nível socioeconômico do proprietário do imóvel.

Eira, Beira, Tribeira

Exemplo de casa com eira, beira, tribeira. Foto: Rodrigo Édipo/PorAqui

Olhando de baixo para cima, essas abas (ou extensões do telhado) eram chamadas de eira, beira e tribeira. As famílias mais abastadas construíam suas residências com os três acabamentos do telhado. Já as casas mais populares eram feitas apenas com um dos acabamentos, a chamada tribeira.

Conversas de calçada relatam que os barões olhavam os mais pobres com muito desdém, o que convenhamos, não é nenhuma surpresa para quem vive nos dias de hoje. Naquela época, quando uma moça se apaixonava por um rapaz pobre, os pais repreendiam. “Mas a casa dele não tem eira nem beira”, diziam.

Segundo relato do escritor paraibano Francisco de Paula Melo Aguiar, a discriminação chegava ao ponto de que somente os ricos, ou seja, pessoas que moravam em casas que tinham “eira, beira e tribeira”, tinham o privilégio de acesso para ver com os próprios olhos a imagem de Jesus Cristo nos templos.

A imagem do Jesus Crucificado no Mosteiro de São Bento só era acessível aos ricos. Foto: Casal Maraturista

Isto é, os pobres, mais precisamente os negros e escravos, não tinham permissão para contemplar a alegoria cristã. Por exemplo, no Mosteiro de São Bento, localizado também na parte histórica da cidade e construído pela primeira vez no séc. XVI, a imagem do Jesus crucificado foi posicionada no andar superior da Igreja onde só os ricos podiam entrar. Isso antes da Invasão dos Holandeses.

Os pobres que não eram escravos tinham acesso apenas ao térreo da Igreja de São Bento para participarem das missas. Os negros escravos acompanhavam os rituais do lado de fora, pois não tinham permissão de entrada.

Até hoje a arquitetura das cidades denunciam formas de segregação social e econômica. O fenômeno arrebatador da verticalização, por exemplo, é um dos sintomas contemporâneos mais debatidos nesse sentido. E na sua cidade ou bairro, você consegue enxergar essa diferença?

Matéria publicada no dia 05/03/2018 e atualizada em 03/09/2018

  1. Já ouvi essa interpretação dos guias do Olinda, mas, morando em Portugal, vejo por aqui também essa expressão, e a explicação é outra. Eira é um terreiro onde se secavam os alimentos, e beira é limites. Já entendo essa expressão como sem posses e sem limites.
  2. Massa a matéria. É super importante uma comunicação que ajuda as pessoas a entenderem seus contextos históricos sociais. Perceber as construções de violências simbólicas que perpassam o tempo.

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