Quem nunca precisou de um banho de mar para curar as mazelas? Principalmente nessa época do ano, véspera da virada, os rituais e bençãos povoam o imaginário de quem crê no poder curativo das águas. Seja para só molhar os pés descalços, pular sete ondas, enviar oferendas, ou dar um mergulho, o mar sempre estará presente no espaço-tempo.

Acontece que durante o resto do ano aqui em Olinda, assim como muitas praias urbanas brasileiras, a relação do mar com essa mística curativa é pra lá de conflituosa, visto que recomendações à respeito da insalubridade das águas são constantes.

Apesar da prática do banho para lazer ser uma marca nos dias de hoje, seja na Praia dos Milagres, Praia de Zé Pequeno, Praia de Casa Caiada ou Rio Doce, muitos moradores topam percorrer municípios em busca de margens mais limpas e confiáveis. O que não deixa de ser um contrassenso quando olhamos para a nossa história.

Banhistas olindenses na década de 1930. Fonte: Arquivo Público Municipal de Olinda

Os escritos da pesquisadora Eliane Maria Vasconcelos do Nascimento revelam que, no início do século XX, a relação do olindense com as praias do entorno floresceu de uma forma muito bonita, quando os banhos nas águas salgadas eram recomendadas por médicos da época para fins homeopáticos e terapêuticos.

A prática já existia na Europa, mas foi na década de 1920 que a cultura do banho de mar se popularizou no Brasil. Em Olinda, era comum algumas senhoras, por conta do pudor, tomarem banho de mar na madrugada influenciadas seja pela medicina higienista ou até mesmo pela medicina ancestral. Algumas pessoas até se mudavam de Recife para Olinda em busca de cura.

Vista aérea da Praia do Carmo e os chalés de veraneio. Fonte: Arquivo Municipal da Prefeitura de Olinda.
Praia do Carmos nos anos 1950. Fonte: Arquivo Público Municipal de Olinda.

Veraneio olindense

Mas por que as praias daqui? Reconhecida como uma Cidade Balneário, a Olinda do início do século XX era um pico muito disputado para veraneio, proporcionando áreas de convívio na orla que serviram de plataforma para muitas serenatas, carnavais e “banhos salgados” como prática de lazer.

Avenida Sigismundo Gonçalves na década de 1910. Época de bons veraneios. Foto: Coleção Cartões Postais.

As residências de veraneio eram muito comuns, a ponto do Governo do Estado de Pernambuco, a partir do mandatário Sigismundo Gonçalves, comprar uma residência só para acolher os chefes de Estado interessados em curtir uma prainha. Após este período, a casa se tornou o que é hoje a Escola Sigismundo Gonçalves.

A infraestrutura da cidade era voltada para o mar. No auge do veraneio, as praias dos Milagres, Carmo e Farol ofereciam estruturas de balneários, casas que ofereciam trajes de banho para aluguel e também serviam para tirar o sal do mar promovendo banhos de água doce.

Casa de veraneio na Praia dos Milagres sendo destruída pelo avanço do mar. Foto: Arquivo Público Municipal de Olinda.

O encanto desta época ruiu quando, na década de 1950, talvez por conta do desequilíbrio ecológico causado pela intervenção do homem, a área construída da cidade de Olinda foi tragada pelo avanço do mar, com isso centenas de casas de pescadores, bancos de areias, quintais, e até rua, foram destruídos pelo fenômeno das ressacas.