Você sabia que historicamente em Olinda, mais precisamente na Cidade Alta, existe um termo só para definir as pessoas que vêm de fora da cidade? Resquícios de uma nobreza de outrora?  Comportamento provinciano? Trauma por conta das invasões coloniais? Algum ranço devido a perda do protagonismo econômico em Pernambuco? Mania de grandeza? Vaidade?

As hipóteses são variadas, mas o que se sabe é que a juventude olindense batizou os visitantes (ou invasores?) como “cogues”. Segundo pesquisa denominada De Montematre nordestina e mercado persa de luxo: O Sítio Histórico de Olinda e a participação dos moradores na salvaguarda do patrimônio cultural, a rivalidade é supostamente datada do início do século XX.

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Segundo o jornalista José Ataíde Melo, “cog” ou “cogue” é um “termo provinciano usado pelos olindenses para definir quem não é de olinda”. Para a moradora da Cidade Alta Vera Milet, em entrevista concedida em agosto de 2006, o termo vem da abreviatura da palavra “incógnita”, que significa algo desconhecido.

Segundo o advogado, escritor e poeta Olimpio Bonald Neto, ser cogue não é nenhum demérito. “Ninguém tem culpa, nem deve se sentir mais infeliz, por não haver nascido na mais bela e preciosa cidade colonial do Brasil”, provoca.

O mesmo autor afirma que entre as Praças do Carmo e da Abolição existiam as retretas, um dos entretenimentos preferenciais das famílias olindenses. Nessas festas, realizadas na década de 1950, moradores de bairros do Recife, os “cogues”, rivalizavam com os nativos o “coração das donzelas da cidade”, assim surgindo o preconceito contra os visitantes.

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O caráter “provinciano” dos moradores olindenses é ressaltado por Bonald. “É característica (….) falar mal dos estranhos e desconhecidos. Em Olinda demora a aceitação do recém-chegado”, explica. O que nos remete à brincadeira contemporânea “Oh Língua!”, uma paródia com o nome da cidade para insinuar que os locais são chegados a uma fofoca.  

Outra hipótese sobre a rivalidade entre os nativos e os visitantes pode vir da gradual ocupação da burguesia recifense nos casarios olindenses ocasionando a saída dos locais e a especulação imobiliária. Os moradores locais, sem condições de permanecer na cidade, foram estimulados a venderem os imóveis por conta das ofertas tentadoras.

E hoje em dia?

E nos dias atuais, será que alguns moradores da Cidade Alta refletem esse passado recente e ainda oferecem resistência aos novos visitantes? Sejam eles vindos de outros municípios ou até mesmo das periferias do vasto Sítio Histórico? E mais, quem são os verdadeiros “nativos” atualmente? O que eles desejam para esse pedaço de terra?

Um lugar privilegiado de moradia tranquila e bucólica para os que aqui vivem e somente para eles ou uma cidade de portas, janelas e quintais abertos para o mundo, em que o ano todo “cogues”, “visitantes”, “invasores”, “inquilinos”, “turistas” possam aqui circular e imergir democraticamente?

Sem perder as marcas do passado, mas olhando para a frente, qual a vocação que os moradores da Cidade Alta vislumbram para a cidade de Olinda nos dias atuais?