Um dos fenômenos mais comuns na Cidade Alta é a narrativa torta sobre a história de Olinda contada pelos guias de turismo. Não precisa nem estar de ouvidos muito atentos para captar alguns deslizes históricos, clichês preguiçosos ou empenho para dourar as pílulas de algumas inúmeras situações grotescas da cidade.

É tanta pala destilada pelas ladeiras que às vezes dá vontade de fazer uma intervenção, com supremo, com tudo. Já me imaginei várias vezes gritando: “É mentira dele!” ou “Cidade dormitório um c***”.

Segundo conversas de calçadas, essa prática vem de muito tempo e foi do boato contado por um guia que surgiu a lenda urbana sobre a “casa de Maurício de Nassau”.

No início do século XX, a cidade praiana de Olinda era a menina dos olhos de muitos recifenses que colavam aqui para tomar banho de mar e pegar um bronze nos Milagres e no Carmo. Além dos banhos terapêuticos, como já contamos PorAqui. Apesar dos áureos tempos praianos em que mansões eram construídas no entorno das águas, a contradição social da cidade era gritante.

A pobreza era aparente e muitos adolescentes vagavam pelas ruas pedindo esmolas. Para ocupar o tempo dos jovens alguns padres tiveram a ideia de treiná-los como guias de turismo e assim contarem a história da cidade para os visitantes.

A casa onde ele não morou

Guias turísticos batem ponto na casa. Foto: Rodrigo Édipo/PoAqui

Difícil descobrir quem teve a ideia, mas a história que se conta nas ladeiras é de que um dos padres por algum impulso escuso ou até mesmo por pura greia treinou os jovens a relatar aos turistas que o tal casarão vermelho foi morada de Maurício de Nassau.

Por muito tempo a imponência da casa, localizada em área nobre do Sítio Histórico e digna de um conde, legitimou a lenda contada pelos guias. Hoje a mansão é ponto turístico da Cidade Alta e é conhecida como a casa onde não morou Maurício de Nassau.

A real é que nem se o conde alemão quisesse ele moraria na casa, pois a construção simplesmente não existia na época em que os holandeses estiveram por aqui. Segundo registros, a casa onde Maurício de Nassau não morou foi construída apenas no início do XIX, bem depois da expulsão dos holandeses.