Quem veio me atender no portão da casa foi uma menina. Ao fundo, a parede enunciava a seguinte sentença: Circo Esperança. “Painho tá na outra rua, quer que eu chame?”, perguntou. Em um casebre plantado no bairro do Amparo, Sítio Histórico de Olinda, moram Gilberto – de nome artístico Diabolin -, o filho Wesley e as filhas Letícia e Cleonice. O sobrenome remete a um certo Virgulino de Serra Talhada.

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“Somos Ferreira, somos Lampião, meus dois irmãos foram assassinados roubando pra dar aos pobres”, garante o parentesco Diabolin, órfão de pai e mãe. Guerreiro do tempo, a coragem corre nas veias. Aos 50 anos, após experimentar de muito nesta vida, há aproximadamente dois anos se descobriu artista plástico.

Vista do ateliê de Diabolin. Foto: Rodrigo Édipo

“É aqui onde eu me inspiro”, abre a conversa descortinando miudezas do ateliê, um puxadinho puxado por ele mesmo que fez questão de me apresentar. “Não sou pedreiro, mas eu me viro”, conta sorrindo.

Foi aos 17 anos que o menino franzino, filho da Cidade Alta de Olinda, se matriculou  na melhor escola que tinha ao seu alcance, quando abandonou a cidade de origem e viveu o nomadismo pelo Brasil afora. “Foi a maior aventura que eu fiz, sair da minha Olinda pra conhecer o Rio de Janeiro e outras cidades”, relata.

Segundo o artista circense, habilidoso na arte do fogo e da corda bamba – quem nunca viu Diabolin cuspindo fogo e se equilibrando pelas ladeiras?! -, o maior aprendizado que a vida cigana lhe proporcionou foi o respeito ao meio ambiente.

Diabolin mostra rascunhos no caderno da escola. Foto: Rodrigo Édipo/PorAqui

“Estou vivo porque eu gosto da natureza, é pra dar valor e cuidar, senão ela se vinga”, aconselha Diabolin, que costuma recolher o lixo da praia e varrer a própria rua. Ele também dribla a crônica falta d’água em Olinda reciclando os pingos da chuva.

Aprendiz na escola da vida, habita em Diabolin o sonho de um dia saber ler e, por conta disso, voltou a estudar e se matriculou em uma escola municipal de Olinda. “Desde criança fui um menino que ia pra escola, mas eu era muito fujão, eu queria ir pra praia”, assume.

O retorno à sala de aula foi frustrante, mas por “acidente” permitiu que o artista plástico Diabolin surgisse. “O professor não prestava atenção em mim e, como não estava sendo atendido, comecei a rabiscar uns desenhos no caderno”, conta exibindo os esboços num papel pautado recheado de exercícios de leitura.

Do caderno para as telas de madeira

Carlitos, personagem de Charlie Chaplin, é um dos personagens escolhidos por Diabolin. Foto: Rodrigo Édipo/PorAqu

“Quase tudo é reciclado, eu passo nas ruas e vou pegando um pedaço de compensado aqui e ali e vou trabalhando a pintura em cima”, relata, ao mesmo tempo que mostra algumas molduras velhas e tábuas que recupera do lixo.

O tecido também serve de tela. Os quadros, ele assina como “Gilberto”, e as temáticas vão desde representações de palhaços a homenagens a Chaplin, como também animais domésticos e silvestres, problemas ambientais e até soluções utópicas para a mobilidade urbana e o turismo em Olinda.

O circo de Diabolin é movido a esperança, e os desejos são muitos para quem já tem meio século de vida. “Quero deixar para sempre um circo na Praça do Carmo. Gratuito, para o povo”, revelando mais um dos seus sonhos e complementa aos moldes de um Ferreira: “Não tenho medo de nada nesta vida, o meu medo é morrer sem fazer nada”.

O documentário disponibilizado nesta matéria teve a direção de Virgínia de Oliveira Silva e Mailsa Passos.
[Matéria publicada no dia 31/08/2017 e atualizada em 06/08/2018]