Assim que Júlio (63) me viu, parou de tocar e se virou em minha direção. Estávamos na Praça do Carmo, recanto matinal do músico. Fui direto ao ponto, quis saber os motivos de encontrá-lo diariamente naquele espaço, tocando violino sozinho. Sozinho? Engano meu, desacompanhado ele nunca está. “Não tenho família, sou do planeta”, respondeu.

A visão de mundo é espiritual, a prática musical é uma missão. “É obrigação, músico é músico pela música”, afirma Júlio, que tem um visual meio samurai dos trópicos, é autodidata desde os 8 anos e nunca topou o show business.

Júlio frequenta a Praça do Carmo para treinar música clássica. Foto: Rodrigo Édipo/PorAqui
Portal de entrada de La Cartoucherie, teatro onde trabalhou na França. Foto: Des usines à Paris

“Eu era rastafári e queria entrar na Etiópia”, conta uma das experiências quando, nos anos 1970, terminou a Escola de Belas Artes e decidiu deixar Olinda para se aventurar como músico pela Europa, onde viveu por dois anos.

Paris foi uma das cidades que o acolheu, onde, fincadas as raízes, teve a oportunidade de trabalhar no Teatro Le Chaudron, na Cartoucherie de Vincennes. Nessa época, com uma viola de 12 cordas, tocava ritmos nordestinos como baião e xaxado.

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Desapego

Insatisfeito por “vender a carne do Nordeste lá fora”, Júlio deixa os pertences numa estação de trem, incluindo a viola, e volta ao Brasil apenas com a roupa do corpo e um cavaquinho recém adquirido. “Eu já tinha encontrado uma estética, não tinha mais como evoluir, minha escola musical era a popular, me faltava a clássica”, revelou.

Regresso nos anos 1980, já em Olinda, trocou o cavaquinho pelo violino e começou a estudar música clássica e aprender o instrumento. Foi quando se articulou com o movimento local e, junto ao maestro Geraldo Menucci, começou a tocar na Orquestra Sinfônica de Olinda e a trabalhar no Centro de Criatividade Musical de Olinda, projetos que funcionaram até o começo dos anos 2000, quando tiveram as portas fechadas por falta de recurso.

Até então sem lugar para tocar e como um ato de resistência política, Júlio faz da cidade o seu laboratório, treinando as músicas de Bach nas ruas e praças do Sítio Histórico de Olinda, em uma afinação que diz ser a mais próxima da natureza.

“Quando eu toco, os passarinhos respondem, o som ressoa neles”, poetisa o violinista a la Manoel de Barros.