Fruto de uma pesquisa-performance do Coletivo Lugar Comum (Recife-PE), a publicação MOTIM: paisagens e memórias do riso será lançada nesta quinta-feira (21), às 18h, no Sebo Casa Azul, do escritor Samarone Lima.

Em conversa com a artista e professora Roberta Ramos, integrante do coletivo, o PorAqui buscou entender melhor a obra que reflete sobre a desvalorização do riso em nossa sociedade e que, em 2015, percorreu ruas, praças e mercados do Recife com espetáculo homônimo.

PorAqui: Sob quais circunstâncias o conceito da performance Motim foi criado?

A partir de uma reportagem lida na revista Galileu sobre o livro de um historiador que falava das epidemias de dança na idade medieval. Por exemplo, as mulheres mortas que por conta dos dissabores vividos relacionados ao amor, passam a atrair os ex-pretendentes a dançar até morrer. Existem várias epidemias relacionadas a isso e muitas delas associadas à culpa cristã.

Essa mesma matéria falava sobre uma epidemia do riso na Tanzânia, em que as pessoas alternavam riso e choro e contaminavam outras. Isso me pareceu um material precioso, da capacidade do riso fazer esquecermos de tudo em um dado momento, dando espaço apenas ao prazer do corpo rindo.

Então propus ao coletivo uma performance para trazer o riso, mas não de forma cômica, e sim como ato micropolítico.

Foto: Ju Brainer

PorAqui: Explique melhor sobre o riso como dispositivo político.

Vivemos em uma sociedade de total controle do corpo. É uma gestão de poder que não vem mais do Estado, e sim de dentro pra fora, a gente mesmo se encarrega de fazer, com atitudes de autovigilância, cuidados com alimentação e excesso de preservação da vida. E a desvalorização do riso tem a ver com isso.

Com o que os discurso religiosos reprimem e a associação com a luxúria e a futilidade. Tratar o riso como ato micropolítico é dar vazão a séculos de desvalorização e permitir o prazer do corpo. É desestabilizar a seriedade das coisas, da forma como reagimos politicamente, pois sempre isso tudo vem carregado de sofrimento, martírio.

PorAqui: Criar um livro que conte sobre um projeto que nasce com uma proposta tão aberta e livre deve ser um grande desafio.

Tivemos na equipe de produção pessoas que vivem os nossos processos, como Iara Sales (projeto gráfico) que fez parte do Motim como artista e Rodrigo Acioli (editor) que a partir de um olhar sensível pensou realmente tudo do livro, seguindo uma linha editorial conceitual e que parte do pressuposto de não separar forma do conteúdo.

O resultado fez parte de um envolvimento da equipe. Não é uma publicação de registro de um processo que passou, mas sim que continua. Foi complexo, mas extremamente prazeroso.

O livro tem edição de Rodrigo Acioli (Titivillus Editora) | Foto: Rodrigo Édipo/Poraqui

PorAqui: Existe alguma razão para o lançamento ser em Olinda, já que todas as performances do Motim foram no Recife?

Escolhemos o Sebo da Casa Azul por Samarone ser um antigo parceiro nosso. Em nossa trajetória priorizamos fortalecer esses laços. Alguns integrantes do coletivo tem uma ligação muito forte com Olinda, como Lorena, Iara e Rodrigo. Existe um afeto pelo lugar.

Além disso, temos uma criação chamada Encontro Contato Coletivo que tem sido feita em Olinda, o que sempre é bastante especial por essa ambiência que o lugar traz, a relação com o cenário, a espacialidade.

Lançamento do livro MOTIM: paisagens e memórias do riso
Sebo Casa Azul | Rua 13 de Maio, 121, Carmo – Olinda/PE (ao lado da antiga Casa do Cachorro Preto)
Quinta (21), a partir das 18h
Entrada Franca
Debate com artistas e apresentação da performance RA, de Conrado Falbo