O som no talo toca Dorival. Talvez se na Bahia estivesse seria o Caymmi, mas PorAqui em Olinda sempre é mais fácil ser Academia da Berlinda. Entro na loja e encontro Mike (44), um caboré de cabelos longos, sorriso largo e com um boné de aba arqueada. “Aqui é a Oficina da Música“, informa como se apertasse a minha mão. O rosto é familiar, o ambiente idem.

Mike é a abreviação de Michael, nome de batismo. Na longínqua década de 1990 trabalhou na Aky Discos, rede varejista de discos que mandava no mercadão antes do ataque pirata. Na época, foi convidado pelo amigo Eros a abrir uma loja de discos diferente. Mike topou o desafio na hora.

“Sempre gostei de música, mas na Aky Disco não tinha o acervo local e de cultura popular que tem aqui na Oficina”, explica. Apaixonado e ativista da cadeia produtiva local, é um exemplo para qualquer gestor público que se diz zeloso pela nossa cultura.

Acervo da loja. Foto: Rodrigo Édipo/PorAqui

“Os clientes vêm aqui e eu faço questão de colocá-los para ouvir os discos. Mesmo que não comprem, que pelo menos conheçam. De repente eles podem até ir para algum show, né?”, explica provando que o comprometimento vai além da grana. É político.

Há sete anos localizada em um box no Alto da Sé, a loja de discos Oficina da Música, no final dos anos 1990 e início dos 00, viveu tempos áureos na Avenida Guararapes (Boa Vista). “Começamos na poeira, juntando os discos que tínhamos e abrimos a loja”, relembra Mike.

Não demorou para o acervo crescer exponencialmente, pois como Eros e Mike circulavam por shows, festivais e feiras de música, a rede já estava formada. “Assim que a gente abriu a loja, vinha músico de tudo que é lado oferecendo os discos pra vender e assim a gente foi crescendo”, conta. 

Acervo da loja. Foto: Rodrigo Édipo/PorAqui

A Oficina da Música não é uma loja de CD qualquer, no acervo dá pra encontrar desde projetos relativamente conhecidos como Marsa, Academia da Berlinda, Orquestra Contemporânea de Olinda e Bongar, a fonogramas como os da Tribo Fulni-ô de Águas Belas, do coquista do Tururu, Zeca do Rolete, e dos registros do Palácio de Iemanjá de Pai Edu.

“Nem tudo que está aqui as pessoas vão achar na internet, e se acharem talvez não encontrem com a mesma qualidade de som”, explica Mike. Segundo o ativista, as escolas também são clientes à procura de material pedagógico. “Onde eles vão conseguir achar um disco de ciranda, coco, maracatu ou a gravação de uma declamação de literatura de cordel?”, provoca.

Acervo. Foto: Rodrigo Édipo/PorAqui
A loja vai além dos discos. Foto: Rodrigo Édipo/PorAqui

É claro que por ser localizado no Alto da Sé, o estabelecimento depende da força turística do Sítio Histórico de Olinda. “Somos conhecidos no Brasil e em outros lugares do mundo, tem gente da França e Alemanha que vem aqui por indicação. Um dia desses teve um maranhense que investiu 194 reais em disco”.

Além dos discos, a Oficina da Música vende camisas, sandálias de couro, instrumentos musicais da cultura popular e produtos editoriais como livros e cordéis. Todos eles produzidos por artistas locais. “A cultura é de resistência e a nossa loja também”.

A loja está localizada em um box no Alto da Sé. Foto: Rodrigo Édipo/PorAqui

Oficina da Música
Aberta todos os dias, das 10h às 18h
(81) 9.8723.9983