O processo de desenvolvimento de algumas cidades brasileiras tem como uma das consequências a desvalorização da memória urbana e o apagamento das memórias coletivas. A construção do que é entendido no senso comum como “novo” tem desmanchado histórias e afastado cidadãos do que os conecta com o próprio território e consigo mesmo.

Apesar da angustiante e constante negligência com o patrimônio, morar no Sítio Histórico de Olinda é ter a salvaguarda de não vivenciarmos na pele a acidez de um desenvolvimento urbano nocivo, o que nos permite, se estivermos atentos, a estarmos em contato diário com a história da formação urbana da nossa cidade.

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Com a missão de registrar um pouco mais a memória deste lugar, o PorAqui resgatou alguns fragmentos históricos que estão por trás de quatro ruas localizadas na Cidade Alta, em Olinda.

Rua Bispo Azeredo Coutinho

O nome da rua é em homenagem a um antigo bispo de Olinda | Imagem: Wikipedia

Uma explicação muito simples. O nome desta rua que fica localizada no “Alto da Sé” é em homenagem ao fundador do extinto Seminário de Olinda. Nascido na cidade de Lisboa, em Portugal, José Joaquim da Cunha Azeredo Coutinho foi nomeado bispo de Olinda em 1794 e fez parte da junta governativa da Capitania de Pernambuco.

Segundo a obra Anais Pernambucanos, registrado por Pereira da Costa, a Rua Bispo Azeredo Coutinho foi a principal via dos tempos coloniais, onde estavam situadas as casas do governo colonial, das residências dos donatários e da fidalguia. Caminhando por ela você pode apreciar a Caixa D’água, Museu de Arte Sacra de Pernambuco, Observatório e o G.R.E.S Preto Velho.

Ladeira da Misericórdia

Ladeira da Misericórdia Foto: Chico Atanásio/Pref.Olinda

Conhecida por apresentar grandes desafios de travessia por seu caráter íngreme, a ladeira da Sé foi um dos primeiros caminhos utilizados entre o centro da vila de Olinda com o que conhecemos hoje como Varadouro. A importância da via também se mostrava devido à ligação com o “porto dos navios” e a várzea do Capibaribe.

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A expressão popular “Misericóridia!” não é a origem do nome da ladeira como alguns falam, e sim por ter existido em seu topo a Igreja e Hospital  da Santa Casa da Misericórdia, que segundo relato, foi a primeira fundada no Brasil. Tal instituição originária de Lisboa teria sido arruinada pelos holandeses.

O reverendo holandês João Baers, no livro Olinda Conquistada, a descreveu da seguinte forma: “… desce o monte com tão áspero declive, que quase não pode-se subí-lo sem grande esforço e trabalho nem descê-lo sem perigo de cair-se, apesar de ver-se diante de si”.

Rua da Bertioga

Forte colonial no litoral de São Paulo pode ter sido a origem do nome da rua da Bertioga. Foto: Prefeitura local

Até hoje a origem do nome ainda suscita dúvida. Segundo escritos, também conhecida como Caminho das Bertiogas, a denominação vem do uso popular. Talvez tivesse outro nome antes do incêndio provocado pelos Holandeses, e seja um daqueles casos em que o nome se esvai na memória popular.

Bertioga, palavra que dizem ser de origem Tupi, é o nome de um forte existente na cidade de São Paulo, o que pode denunciar algo. Outra hipótese é que seja a corruptela de Buriguioca, que significa “covil de Bugios (abrigo de macacos). Versão que especialistas rechaçam, pois afirmam que nunca se ouviu falar que tais espécies povoaram a rua.

Rua 27 de Janeiro

Data da expulsão dos holandeses pode não ter originado o nome da 27 de Janeiro. Acervo: Biblioteca Digital Luso-Brasileira

Localizada no oitão direito da Igreja de São Pedro, na rua 27 de Janeiro, ficava a “As Cavalarissas”, ou seja, estábulos para alojamento de cavalos. Por volta de 1830, esse espaço serviu de ambiente para o primeiro Teatro de Estudantes Universitários do Brasil, atuando nele como ator o Conselheiro Nabuco de Araújo, pai do conhecido diplomata Joaquim Nabuco.

Apesar do conhecimento mais popular, o nome da rua não indica a data da expulsão dos holandeses. Pois tal fato aconteceu no dia 26 de Janeiro de 1654 e no dia 28 foi realizada a entrega das chaves da então cidade do Recife.



Referências extraídas do livro Olinda do Salvador do Mundo, escrito pelo teatrólogo, jornalista e historiador recifense Vanildo Bezerra Cavalcanti.