[Editado no dia 16 de abril de 2018]

Foi em um semi-internato exclusivo para meninas, localizado em um monastério cristão na cidade de Olinda, município da Região Metropolitana do Recife, que Clara Nogueira, 32 anos, mãe de José, olindense que só ela, aprendeu a ler, a escrever e a tecer.

A infância inteira foi dedicada aos fios, assimilando assim a arte de desatar nós ao lado de outras iguais aprendendo o bordado tradicional, o ponto-cruz e o crochê. As técnicas foram transmitidas por professoras que eram contratadas pelas freiras que dirigiam o convento para deixar as meninas “prendadas”.

Clara, hoje arquiteta, 32 anos, artista das linhas e pesquisadora cultural, esteve imersa nesta ambiência cristã até os 11 anos de idade quando saiu do convento e seguiu a prática e o aprendizado adquiridos de forma autônoma.

Em 2013 veio a gravidez e as descobertas decorrentes da maternidade fizeram Clara se entregar ao bordado livre como meio de expressão artística enquanto cuidava da chegada de José. O fruto desse período é o Linhas de Fuga, projeto que transcende a linguagem têxtil tradicional ao experimentar os limites poéticos a partir de uma urgente micropolítica voltada para o feminino.

Diante da própria condição de mulher, Clara passou a imaginar e se perguntar também sobre a vida cotidiana de outras mulheres que, assim como ela, fazem uso das práticas têxteis como forma de expressão, trabalho e sobrevivência.

Assim surgiu a pesquisa cultural “Artesãs Têxteis de Pernambuco”, que tem como resultado o projeto Mulheres que Tecem Pernambuco, que terá lançamento neste sábado, às 14h, no Centro de Artesanato de Pernambuco, localizado no Bairro do Recife.

?Acesse o site: http://mulheresquetecempe.com.br/

Do barro ao bordado: o guia do artesanato de Casa Forte

O fazer feminino 

Ana Alice de Poção. Foto: Lais Domingues

Sentindo-se provocada a ouvir o que vem sendo invisiblizado, Clara imergiu em três cidades do interior de Pernambuco em busca  de 18 mulheres. Lagoa do Carro (Zona da Mata Norte), com a Tapeçaria; Poção (Agreste Central) com a renda Renascença, Tacaratu (Sertão Itaparica), com a Tecelagem foram as localidades e técnicas escolhidas para dar início ao mapeamento afetivo que teve como cerne principal a narrativa contada pelas próprias mulheres.

Rudivânia | Sítio Olho D’água Foto: Lais Domingues
Carla e Alexandra de Poção. Foto: Lais Domingues

Através de uma metodologia de pesquisa chamada História Oral, a escuta das histórias de vida contadas pelas mulheres busca resgatar, dentre outras coisas, as memórias de infância, as relações familiares, os aprendizados com artesanato, a perspectiva de gênero, os desejos e sonhos a serem almejados.

A metodologia da Cartografia Afetiva auxiliou a construção dos textos a partir dos encontros realizados com cada mulher, o material foi desenvolvido pela pesquisadora Luiza Maretto, que acompanhou Clara nas viagens ao interior. As imagens foram captadas pela fotógrafa Lais Domingues.

O site disponibiliza narrativas, materiais audiovisuais, fotográficos e escritos que representam a realidade dessas mulheres, criando assim uma trama que “une relações de gênero, as subjetividades, suas práticas têxteis e o território”. O mapa que consta na plataforma online “é um tecido, feito por mulheres e suas histórias, sendo suas práticas têxteis o fio condutor que as une”.

Foto: Lais Domingues
Clara Nogueira, Rose Lima e Luiza Maretto formam parte da equipe do projeto.

Com uma equipe majoritariamente formada por mulheres, o projeto aprovado pelo Edital 2015/2016 do FUNCULTURA é uma primeira tentativa de reunir experiências subjetivas a partir do contexto da produção têxtil e suas consequências culturais, trazendo assim as marcas individuais e coletivas que acompanham uma prática tão invisibilizada, diminuída e distorcida.

Lançamento do Projeto – Mulheres que Tecem Pernambuco
?Centro de Artesanato de Pernambuco (Av. Alfredo Lisboa – Recife, PE, 50030-100)
? sábado, 14 de abril de 2018
⏰ 14h às 18h
Acesso Gratuito