Uma investida da Polícia Federal (PF) em Olinda na última quarta-feira (6) reacendeu o debate sobre preservação do patrimônio e inclusão social – debate que está longe de uma solução. Segundo a instituição, a operação denominada de GRAPIXO teve com missão neutralizar um suposto “grupo criminoso” de pichadores que atua “na deterioração de bens protegidos por lei e ato administrativo” no Sítio Histórico da cidade, tombado pelo IPHAN em 1968.

“As investigações foram iniciadas em fevereiro de 2018, após informações do IPHAN”, esclarece Giovani Santoro, Chefe de Comunicação Social da PF. Segundo ele, o alvo das investigações são jovens de 15 a 18 anos, todos moradores de Olinda, que praticam intervenções gráficas no Sítio Histórico, incluindo também outros pontos da Região Metropolitana do Recife (RMR).

Olinda: patrimônio do grafite e do pixo

“Contabilizamos que esse mesmo grupo de Olinda pixou mais de 200 prédios da RMR”, informa Santoro. A investida da Polícia Federal especificamente no Sítio Histórico de Olinda se deve ao fato de o local, Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade pelo IPHAN, ser de competência do Governo Federal.

A Operação Grapixo pegou de surpresa a Sociedade Olindense de Defesa da Cidade Alta (Sodeca)que não estava ciente da ação da PF e aqueceu o debate sobre a preservação do patrimônio dentro da própria organização, revelando divergências entre os próprios membros.  

Membro da Sodeca, Natan Nigro não acredita na efetividade da proibição e criminalização do grafite e do pixo. Foto: INCITI/UFPE

“Por parte da Sodeca, não havia denúncias específicas sobre pixação no Sítio Histórico de Olinda”, esclarece Natan Nigro, membro da organização. Segundo ele, existe um debate atual no Conselho de Preservação dos Sítios Históricos de Olinda (CPSH) para a regularização do grafite no Sítio, já que o assunto não está previsto na Lei 4849/92.

“A Sodeca não tem uma posição fechada, pois há muitas divergências de opinião sobre o assunto. Quanto ao pixo, não há muito o que fazer do ponto de vista legal, pois a lei já determina como crime”, pontua Natan.

Educação patrimonial

Manifestações nas mídias sociais chamam a atenção para o sucateamento dos patrimônios culturais da cidade. Foto: Divulgação/Facebook

Nazaré Reis, moradora local, arquiteta preservacionista e membro do CPSH, acredita que os pichadores não deveriam ser considerados criminosos e afirma que o problema passa pela educação patrimonial. “Apesar de serem predadores do patrimônio, eles não têm consciência do que estão fazendo. A preocupação deles é marcar território, e isso precisa ser controlado”, revela.

Para Natan, ainda há pouco conhecimento sobre justificativas e motivações pelas quais se pratica o pixo e a discussão sempre fica restrita a achismos e preconceitos. “Não acredito na efetividade da proibição e criminalização dessas práticas, percebo-as como formas de expressão cultural e manifestação de identidade e pertencimento. Não vamos acabar com o pixo prendendo pessoas”, acredita.

Assim como Nazaré, o membro da Sodeca também acredita que a solução pode vir de políticas educativas. “Acredito que somente um trabalho conciliador de educação patrimonial e de sensibilização social sobre o grafite pode trazer algum benefício à preservação do patrimônio histórico da cidade”, explica.

Eles não entendem

O artista visual Stilo Santos, da comunidade do Bode, está acompanhando os indiciados de perto. Foto: Divulgação

Para o agitador cultural e artista visual Stilo Santos, a Operação Grapixo nada mais é do que a criminalização de um movimento de rua e uma política urbana de higienização. “Eles não conseguem dialogar, eles não entendem. Os meninos querem se expressar. Tá todo mundo chocado com o acontecido”, revela o morador da comunidade do Bode (Pina) e coordenador do projeto Pão e Tinta.

Stilo consegue enxergar um paralelo entre a ação da Polícia Federal no Sítio Histórico de Olinda e a política implementada por João Dória em São Paulo, através do projeto São Paulo Cidade Linda. “Por conta disso, a mídia tem caído em cima, existe um movimento anti-pixo, esse é o nosso grande problema”, lamenta.

Em São Paulo, pichadores satirizam projeto Cidade Linda, de João Dória. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

O artista visual tem acompanhado de perto o processo dos quatro pichadores que foram indiciados pela PF e levados em condução coercitiva. Ao todo, são seis suspeitos. “Ficamos preocupados porque alguns trabalham, têm filhos. Eles usam o pixo como forma de protesto”, defende Stilo.

“No fim, o crime é ser pobre e periférico”, afirma B.W, 29, pichador e morador do bairro de Jardim Brasil, em Olinda. Segundo ele, a gestão pública não está preocupada com as vidas dos jovens da periferia, e sim apenas com a estética da cidade. “São inúmeros os nossos gritos de socorro, e o pixo é só mais um”, afirma.

“Quem são os caras? Qual a renda da família deles? Onde eles moram tem opção de lazer? Enche a rua deles quando chove? E a casa é de tijolo ou de pau?”, questiona o artista gráfico que preferiu não se identificar.

“Somos amantes de uma cultura marginalizada, como era a capoeira, o funk, o samba. Nos reunimos para discutir vários temas políticos e sociais. Estamos nos articulando, o que está acontecendo é criminalização de um movimento”, alerta Stilo.